O teatro que não vira notícia

ctoTermina hoje a 1ª Conferência Internacional de Teatro do Oprimido, um das atividades mais interessantes que conheci. Nele vi gente de tudo quanto é canto do mundo (25 países de todos os continentes) trocando experiências para “transformar realidades opressivas”, como explica a socióloga Bárbara Santos, uma das idealizadoras do evento.
Em breve publico minhas impressões, num artigo encomendado pelo site da Caros Amigos (que reproduzirei aqui). Mas quero deixar, desde já, alguns trechos da entrevista que fiz com a Bárbara, essa pessoa fascinante, incrível, uma das curingas de Augusto Boal que ajuda a espalhar o Teatro do Oprimido mundo afora:
“A gente tá fazendo um teatro como política, a nossa maneira de fazer política é fazer esse tipo de teatro, que tem como meta essencial impulsionar transformações de realidades opressivas”
“O oprimido está convencido de que é oprimido, no pior sentido da palavra. Tá convencido do que é bom, do que é ruim, do que seria desejável, do que é moda, do que é música, através dos seus meios sensíveis, especialmente a grande mídia, que te ataca pelo som, pela imagem, pela palavra. A gente perde o domínio da palavra, do som e da imagem, como se isso não tivesse mais nada a ver com a gente, como se a gente fosse apenas um consumidor no mundo. Então a gente faz nosso trabalho no sentido de mostrar que nada do que é criado é eterno, pode ser recriado”.
Além disso, o Teatro do Oprimido tem como objetivo abrir ao público as ferramentas de produção. O conceito de espec ator, criado por Boal, explora a potência de cada indíviduo. Mostra que o sujeito pode atuar, pode ser sujeito de sua própria história. “Todo mundo pode fazer teatro, até os atores”, provocava Boal.
Sob qualquer aspecto a Conferência é um fato jornalístico relevante. Possui quase todos os critérios ensinados nas faculdades, como indeditismo, o tributo a um gênio brasileiro (Augusto Boal), a amplitude da prática que já chega a todos os continentes, gente do mundo inteiro viajando para o Rio para aprender mais. No entanto, a cobertura das corporações de mídia foi nula. Mais uma vez fica escancarado que esta não é a mídia dos oprimidos, é a mídia das elites. É a mídia deprimida, mídia-lexotan, obsecada pela morte, incapaz de enxergar os movimentos que valorizam e afirmam a vida.

Um comentário sobre “O teatro que não vira notícia”

  1. Reforçando o que você disse, Marcelo, o Geo Brito comentou: “o Boal precisou morrer para aparecer dois minutos no jornal nacional”. Para a grande mídia, não importante que Boal tenha sido eleito pela Unesco, em março, embaixador mundial do teatro, e que tenha sido indicado em 2008 ao Premio Nobel da Paz. Coisinha boba. Se o Teatro do Oprimido é praticado em mais de 70 países, ajuda a conscientizar os africanos sobre os riscos da Aids, e a diminuir as dores palestinas, eles também acham pouco. Agora, se a Mulher Melancia fizer uma cirurgia plastica, aí está uma boa notícia!!

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