‘O samba é sempre uma resistência’

Beth Carvalho, sambista de primeira e artista engajada. Foto: Renan Oliveira.

Por Alexandre Braz Eduardo Sa Gabriel Bernardo e Renan Oliveira

]Uma pérola da Música Popular Brasileira, é a cantora Beth Carvalho. Há mais de 50 anos lapidando o samba, é uma artista que defende bravamente a cultura nacional. Lançou em novembro um novo CD, Nosso samba tá na rua, repleto de músicas inéditas. Beth recebeu a equipe do Fazendo Media em sua casa, no Rio de Janeiro, onde logo na entrada há um quadro enorme de Che Guevara. Só isso já traduziria muito seu espírito. Na sala de seu apartamento, onde ocorreu a entrevista, a cultura transpira por todo lado: artesanatos folclóricos, imagens da religião afro-brasileira, fotos com cantores como Cartola e Nelson Cavaquinho, discos premiados, e por aí vai. Numa das prateleiras, mais dois quadros de Che Guevara, e ela explica: essa parte é só de Cuba, com o artesanato popular e os ícones da política da ilha caribenha, onde já esteve 3 vezes.
Para quem só fala de samba quando pensa em Beth Carvalho, está muito enganado se acha que sua vida se restringe à música. Carioquíssima, a cantora é fã de Brizola, antigo governador do Rio, e presidente de honra do PDT. Lamenta profundamente o abandono do projeto dos CIEPs (Centros Integrados de Educação Pública) no Rio de Janeiro. Nacionalista, é árdua defensora de nossa cultura e ressalta a necessidade de um movimento em favor da música popular brasileira. Afinada ao regime cubano, critica contundentemente o capitalismo e a mídia hegemônica. Esses são alguns traços de seu caráter, que ao longo da entrevista a seguir ela transmite esbanjando simpatia e alegria.
Como a música entrou na sua vida, Beth?
Tenho uma família muito musical. Minha avó tocava bandolim e violão. Meu pai também gostava de cantar, e me apresentou alguns músicos, como Dorival Caymmi, Elizeth Cardoso, Aracy de Almeida. Minha mãe gostava muito de música clássica e ópera. Então eu tenho uma influência enorme pela família. A minha família por parte de pai é toda nordestina, e minha mãe é carioca. Eu sou carioca e minha irmã também, a Vânia Carvalho. Ela canta, até gravou um disco. Então a nossa família em geral é toda musical.
Desde cedo eu tinha relação com a música e musicalidade também, porque não adianta você ter relação com a música e não ter musicalidade. Então eu aprendi um pouco de piano, e fiz muito tempo balé clássico. Fui a primeira bailarina da minha academia, era o que eu queria ser primeiro. Depois o meu pai me trouxe um 78 rotações, o disco antes de ser LP, do João Gilberto. Eu fiquei fascinada pelo violão, pelas harmonias e comecei a tocar. Sou filha da bossa nova em muitos aspectos, como toda a minha geração. Mas eu já tinha passado esse histórico com o samba tradicional. Meu pai adorava Noel Rosa também, e me apresentou sua obra.  A Música Popular Brasileira (MPB) sempre foi muito forte na minha vida.
Mas você tem abertura para outros lados também?
Tenho, eu conheço música de muitos países. Amo música americana, francesa, latioamericana. Eu adoro Mercedes Sosa, Atahualpa Yupanqui, Isabel Parra, Violeta Parra, tudo isso faz parte do meu universo. A boa música americana, o jazz, o blues, Ella Fitzgerald, Sarah Vaughan, Ray Charles, esses caras são fantásticos para mim. Hoje não, a maioria da música americana é muito ruim, não tem uma coisa que me empolgue.
Você falou numa entrevista recente que a MPB é formada por um tripé.
Nós temos uma música riquíssima, talvez a mais rica do mundo. Porque é muito variada, cada estado desse país é um mundo diferente. São vários brasis com o mesmo idioma, isso que é o bom. Eu percebi que o tripé da nossa música é baseado no sertanejo, no forró e no samba. Na minha geração, quando vieram os festivais, a gente cantava a toada moderna. Andança, por exemplo, era uma e esse era o título que a gente dava ao ritmo. Toada é sertanejo, é também nordestino. E a MPB tem muita toada: Viola Enluarada é uma delas, as músicas do Milton Nascimento. O Tom Jobim, por sua vez, era samba: a bossa nova vem do samba. E o baião, que é mais antigo e base principal do forró, você tem o próprio Luiz Gonzaga, o Jackson do Pandeiro e os filhos: Caetano, Gil, os fagneres e djavans da vida. Todos esses nordestinos têm base no baião. E tem um ritmo a parte, um pouco local, que é o frevo, mas que tem a marchinha carnavalesca como nós. Nossa música é meio baseada nisso aí.
E como a indústria da cultura trabalha esse tripé?
Aí é outro problema, um problema sério. Como são ritmos muito comunicativos, começam a fazer os arremedos. Porque as gravadoras são multinacionais, e a gente não pode se esquecer disso. O interesse delas é trazer a música estrangeira para cá, tanto que 80% da execução no rádio é de música estrangeira. E não é nem da boa, é da ruim! Eles têm custo zero para trazer esses discos para cá, então a MPB sempre foi prejudicada por isso: a quantidade absurda de  música estrangeira na execução das rádios e na feitura de discos. Traz o produto pronto, não paga taxa, imposto, nada. Já o nosso tem um custo na produção, mesmo sendo feita pelo artista. Eles têm a parte da divulgação, do marketing. Gastam mais dinheiro com a produção do disco brasileiro que com o estrangeiro. E é uma forma de dominação. Porque se você tira e abafa a cultura de um povo, você ganha ele. Não precisa a arma em si. Então, existem órgãos que pensam para isso, principalmente os Estados Unidos que é um país que quer dominar o mundo. Você vê que o mundo inteiro toca música americana mais que qualquer música local. Ela domina o mundo com os seus valores estéticos, de consumo e tudo mais.
Você participou do Clube do Samba na década de 80, que era um movimento contra as discotecas. Como você enxerga essa transição da música para hoje?

Beth Carvalho sendo entrevistada pela equipe do Fazendo Media. À direita, o estandarte vermelho de seu mais novo CD. E ao fundo, na penúltima prateleira, artesanatos de Cuba e dois quadros de Che Guevara. Foto: Renan Oliveira.

Sempre tem. Não é discoteca é baile funk, as chamadas baladas. É o tunt, tunt, tunt, eternamente para enlouquecer qualquer um, porque enlouquece. Eu não gosto muito da palavra clube. Eu, inclusive, na época em que o João Nogueira quis fundar disse: “Não põe clube, porque restringe”. Mas eu acho que tem que ter um movimento pró-música popular brasileira de uma maneira geral, não só o samba.
E tem gente da classe artística se mobilizando nesse sentido?

Algumas pessoas. Nós somos a resistência né, o samba é sempre uma resistência (risos). Porque é uma música feita geralmente pelo proletariado. Alguns melhoraram de vida, mas você conta a dedo: Zeca Pagodinho, Arlindo Cruz, Sombrinha, Fundo de Quintal. Até porque começaram a atuar também como cantores, não só como compositores. Mas eu fiz um disco agora, Nosso samba tá na rua, que tem vários compositores extremamente pobres.
Você esteve na luta com o Lobão pela numeração dos discos. Ele disse que a senhora e o Frejat foram os únicos a se manterem fiéis, e que não há uma classe artística e os nossos grandes nomes são representantes diretos ou indiretamente das multinacionais.
Não concordo com o Lobão, no sentido de que quando fizemos essa campanha da numeração começamos nós dois e o Frejat, mas milhares de artistas aderiram e assinaram. Alguns foram pressionados pelas gravadoras, e tiveram que voltar atrás. Porque existe essa pressão. Ou você pensa que a gente vive numa democracia? (risos) Ilusão. Existe uma pressão muito grande, e uma necessidade de fazer com que a classe artística não seja unida e tenha consciência. Existe um trabalho ideológico em cima disso, porque eles sabem o poder do artista. Eles sabem que o artista é uma voz e leva milhões. Então vamos abafar, vamos fazer esse pessoal não falar nada.
O Lobão critica o trabalho do Gil no Ministério da Cultura. O que você achou?
Sinceramente, não achei ruim não. O Ministério da Cultura tinha que ter a segunda maior verba do país, e sua verba é ridícula. Nos Estados Unidos, que é tão exemplo, a segunda maior verba é para a cultura. A primeira é para as armas. É bem verdade que eles usam a cultura para fazer a cabeça das pessoas. Todos os filmes americanos têm que ter a bandeira americana, falar bem do FBI, CIA, etc. Eles vão exaltando e incutindo seus valores eternamente. Eu gostaria que nós tivéssemos também uma verba bem maior para o Ministério da Cultura, para fazermos a cultura sem esse foco que os EUA têm para o mundo.
Quando você diz que deveria ser a segunda, a primeira seria educação?
Sem dúvida. Educação, CIEPs, né? Hoje nós teríamos uma geração não de cracks, da droga, mas de CIEPs. Já pensou o que seria?
O Brizola foi um político extraordinário e as pessoas o culpam porque teria sido conivente com o tráfico de drogas.
Ele é para mim também um político extraordinário. Foi no seu governo que prenderam todos os bicheiros, e as pessoas se esquecem disso.
Por que é tão difícil surgir um político independente, livre, para fazer um discurso, tomar uma decisão, com a mesma contundência que ele?
Porque na época do Brizola tinha escola. Você não acha que surgiriam muito mais líderes se tivesse condições de educação para essas crianças?  Porque as pessoas têm que ter um conhecimento de cidadania, de ser bem tratado. O povo brasileiro é maltratado na sua maioria. Claro que melhorou com Lula e Dilma, mas em geral o povo brasileiro é muito maltratado: não tem a educação formal. O Brizola, o Che, o Fidel, existiram porque tiveram estudo, sabem o que é melhor. Porque você não tem parâmetro se você não tem nenhuma qualidade de vida.  Você começa a ter um discernimento maior quando estuda. Não precisa ser um intelectual, não é isso. Geralmente o povo brasileiro mora mal, não tem privacidade nenhuma, não tem uma mesa para sentar para comer, etc. Aí ele começa a ir para a escola e vê que existe um respeito a ele e uma série de coisas. Se ele tem um sentimento de liderança começa a reivindicar isso para os outros. Eu acho que nasce daí o líder.
Como você vê a colaboração da mídia no sentido do discernimento da população?
A mídia não tem interesse nenhum em discernimento. Isso não existe. Nós estamos num sistema capitalista selvagem, não tem interesse em esclarecer. De maneira nenhuma. Ela tem interesse em separar, em diluir.
Há algum incentivo na mídia em favor da cultura do nosso país?
Não existe incentivo. Como eu sou uma cantora que sempre vendi muito disco, então existe um respeito muito deles para quem vende. Entendeu? Mas é sempre uma luta, não é uma coisa fácil. Essa dificuldade vem desde sempre. É claro que você vai criando o seu nome e vai tendo mais facilidades, mas é sempre mais difícil para quem faz um trabalho como o meu.
O fato da nossa juventude não conhecer muito a nossa história e cultura tem a ver com a educação?
A ditadura foi um negócio muito trágico para nós. Qualquer país que tenha ditadura é uma lavagem cerebral muito grande, e a nossa durou mais de 20 anos. Isso tudo prejudicou muito o Brasil. O país já foi mais nacionalista antes da ditadura, e agora estamos tentando resgatar isso. Porque um presidente como o Lula é um presidente muito nacional, muito brasileiro, um nordestino. O fato dele ter essa origem ajudou muito, e a Dilma que é uma mulher de esquerda que sofreu com a ditadura. Esses anos todos de ditadura foram terríveis. E existe hoje ainda uma ditadura da mídia, que é muito forte também. Então é muito difícil para o jovem, ele tem que ser muito interessado para superar todas essas barreiras.

“O samba é revolucionário por si próprio”, destaca a artista, com uma foto sua ao fundo e as almofadas da verde e rosa Mangueira. Foto: Renan Oliveira.

E como você vê hoje a política carioca, como a UPP, por exemplo?
Eu acho positivo a UPP, mas focando na educação, nas redes sociais, na cidadania, na titulação fundiária, que está até sendo feita. Se o cara já mora há 30 anos lá, ele tem o direito de ter o título de propriedade. Se depois ele vai vender ou não é outra coisa. O ideal seria o que o Brizola quis a vida inteira colocar nesse país, que é a educação como prioridade para tudo na vida. A gente não conseguiu, acabaram com os CIEPs. Isso é um crime de lesa pátria. Aí ficam esses remendos, mas pelo menos a UPP é alguma coisa. Espero que continue cuidando da parte da educação, da arte para as pessoas. O movimento estudantil tem que ir para lá, a UNE, os jovens, para se integrarem a essa história toda.
Você pode nos falar um pouco dessa sua afinidade ideológica com o regime cubano e comparar com o nosso sistema?
Nunca é igual, cada país é um país, seria diferente. Somos um continente enorme, mas eu acredito no sistema socialista mesmo porque ele é humano. O sistema capitalista é desumano. Lá em Cuba você tem educação e medicina gratuita, meios de comunicação estatais, alimentação e moradia também gratuita, e isso é maravilhoso. Aqui não é uma democracia, tem muita coisa para se quebrar. Essa história mesmo no meio artístico, com a dificuldade que a gente tem de aglutinar uma classe como a nossa. Existem medos, então não é tão democrata assim.
A impressão que dá é que a nova geração do samba é mais da zona sul e se concentra, por exemplo, na Lapa. Parece que a mídia dá mais destaque a isso, apesar de rolar samba de raiz num monte de lugar no Rio. É isso mesmo?
Continua rolando samba no subúrbio fortemente. Eu acho que está tendo uma curiosidade maior pela zona sul pelo fato de que esse interesse não era tão grande como é hoje, e isso dá uma visibilidade maior a eles. Mas o Cacique de Ramos, por exemplo, continua tendo visibilidade. Vai até ser enredo da Mangueira nesse ano: Vou festejar! Sou Cacique Sou Mangueira, é o enredo, nos 50 anos do Cacique de Ramos. Então os pagodes de subúrbio têm também uma visibilidade, não é uma coisa totalmente zona sul não.
O interesse da classe média pelo samba é por conta do trabalho que a sua geração fez, ou por que a mídia também de certa forma sugou esse trabalho dos compositores mais antigos para vender?
Eu acho que veio espontaneamente de um trabalho lá de trás meu, do Zeca Pagodinho e outros. É porque o samba é mais forte do que nós, o samba é muito forte.
Não há certo oportunismo das gravadoras em querer transformar isso num produto vendável para esse público da classe média?
Acho que não. Existe um arremedo de samba, que é outra história. Existe o sertanejo que não é sertanejo, o forró que não é forró e o samba que não é samba. Esse é o que as gravadoras gostam de divulgar.
Em relação ao seu novo CD, você resgatou um monte de compositor antigo e lançou outros. E o nome Nosso Samba tá na rua é muito simbólico. Você pode nos falar sobre isso.
Porque tá na rua, entendeu? Tá no mundo. Na verdade é o nome de uma música, um samba que eu achei que era um título ótimo. É uma espécie de passeata, tanto que eu coloquei um estandarte na minha mão para ser uma coisa simbólica da passeata. O samba tá ai na rua, gente. E é um disco que tem músicas de compositores da antiga, como Nelson Cavaquinho e Chico Buarque. Compositores consagrados, que são meus afilhados, como Arlindo Cruz, Sombrinha, Zeca Pagodinho, Marquinho PQD. E músicas da nova geração do samba, que é o Leandro Fregonesi, Ciraninho, Rafael dos Santos, Daniel de Oliveira, e a minha filha Luana Carvalho, que estreou lindamente.

“Eu acredito no sistema socialista mesmo porque ele é humano. O sistema capitalista é desumano”, defende Beth Carvalho. Foto: Renan Oliveira.

Qual a importância desse CD para a senhora?
Eu passei muito tempo sem gravar um disco só de mestres, que é o caso desse, por causa do próprio mercado. A única regravação é o Minha história, do Chico Buarque, mas eu acho lindíssima essa música. Eu sou dá época do LP, vinil, então todo ano eu lançava um disco novo. Aí veio o CD, e com ele as gravadoras queriam que você praticamente regravasse os LP’s. Mal veio o CD e veio o DVD, que aí cria imagem e áudio. Como fazer um DVD e não vou colocar Vou festejar!, Coisinha do pai, meus grandes sucessos? Então acabou que quando a gente foi ver já tinha 15 anos que eu não fazia disco de inéditos, apesar de eu nunca ter deixado de botar inéditos nesses CD’s e DVD’s que vieram depois do LP.
E a Dona Ivone Lara, homenageada no novo CD?
Ela é uma grande intérprete e compositora, uma mulher guerreira. Foi a primeira mulher a fazer parte de uma ala de compositores de uma escola de samba, e ganhar samba enredo. Um talento enorme, grande amiga também, está com 90 e poucos anos só no samba. Então é uma mulher que merece todo o respeito, carinho e dedicação. Tem música dela no CD.
Qual é a ideia que você gosta de passar nas suas músicas?
Eu sempre quero falar de uma porção de coisas, mas eu sou intérprete e dependo do compositor. Então eu tenho em mente os temas: gosto de falar sobre a negritude, o próprio samba, o samba de amor, o feminista, um que fale da Mangueira, outro de estilo de samba de bloco e carnaval. E nesse disco eu consegui todos esses temas.
Tem alguma em especial?
Eu gosto de tudo. Desde o início da minha carreira, eu escolho muito mais músicas e vou para o estúdio gravar todas. Depois eu faço um júri de amigos, intelectuais, pessoas de várias classes sociais. Eu não coloco o nome do autor para não influenciar nem expor, e as pessoas dão nota de 1 a 5. Isso é um parâmetro muito bom para mim, mas não é determinante. Então nesse ano eu tinha 25 músicas, gravei elas com músicos, arranjador, tudo. É um gasto, mas é uma coisa que eu sempre faço. Quando eu escolho, eu gosto de todas mesmo.
Você é muito ligada à Mangueira, e está chegando o carnaval. Os cariocas amam, mas parece que não é mais respeitado para o nosso povo em benefício das cervejarias, gringos e camarotes…
Eu acho que a avenida já está fechada para o povo há muito tempo, e isso é um absurdo. É uma festa do povo e não é do povo. Eu adoro escola de samba, acho que é o maior espetáculo da terra. É uma coisa linda. Claro que eu tenho minhas críticas do que era e o que está, mas o desfile em si é lindo. É belíssimo, não existe isso no mundo. Mas infelizmente não está sendo para o povo.
E você acha que tem como reverter isso?
Num regime socialista tem. (risos)
O artista deve se envolver socialmente?
Eu me envolvo, mas não vou obrigar ninguém a ser como eu. Eu convivo com o povo brasileiro quase que 24h. É a tal história: falar do morro morando de frente pro mar não vai fazer ninguém melhorar. Eu acho isso um discurso totalmente reacionário. O samba é revolucionário por si próprio, a maioria dele é feito pelo proletário. Nelson Cavaquinho, gente. Cartola lavava carro, servia cafezinho em repartição pública, era pedreiro. Não é uma pessoa do povo? Então eu gravar um cara desses para mim é uma realização, uma felicidade. Alguns eu descobri, outros já existiam. Você gravar essas pessoas melhora a vida delas. Não é favor nenhum meu, nem teria que ser o meu papel, teria que ser da nação. Mas como ainda não é como a gente quer, ainda é muito difícil consertar esse país, teve muita loucura antes de entrar Lula, a gente vai fazendo isso. Eu não tinha obrigação de lançar compositor, quem tinha que me mostrar compositor é a editora. No entanto, eles fazem o contrário, ficam só esperando a gente gravar alguém para editar, é o inverso. É uma coisa muito louca, é um país com inversão de valores. Mas eu como cantora fico muito feliz de ser intérprete de compositores dessa origem, que são grandes poetas e músicos.
Você pode nos falar sobre a sua convivência com o Cartola?
Eu gravei As rosas não falam. Eu conhecia o nome Cartola, depois eu comecei a frequentar o Teatro Opinião, numa fase pós bossa nova. Foi um momento muito rico no Brasil. A Nara Leão era a musa da bossa nova e de um momento para o outro foi cantar protestos, músicas de forte cunho político em plena ditadura. Ela se juntou a João do Vale, Zé Keti, e o Nelson Cavaquinho e Cartola estavam no repertório dela. Isso fez com que o Cartola e o Nelson Cavaquinho viessem à tona de novo. Tanto que o Cartola fez um bar chamado Zicartola. Esse musical Opinião foi tão importante que o Teatro de Arena passou a se chamar Teatro Opinião. Que eu saiba não existe isso no mundo, mudar de nome um teatro por causa de um show. E depois disso começou a ter uma roda de samba no Teatro Opinião às segundas-feiras com o Cartola, Nelson Cavaquinho, Clementina de Jesus, Xangô da Mangueira, e eu ia sempre assistir. Mas eu não fiquei amiga do Cartola ali, só via cantando e ainda não tinha aproximação. Depois veio a Jovem Guarda e o samba ficou em décimo plano, e o Cartola voltou a servir cafezinho em repartição pública, lavar carro, nem sei. O Nelson Cavaquinho cantava a troco de comida. E quando eu fui na casa do Cartola ele estava esquecido, tinha gente que pensava que ele tinha morrido. Eu cheguei e perguntei se ele tinha música, nessa época eu já era a Beth Carvalho, com nome. Ele disse: “Tem minha filha”, e mostrou As rosas não choram, o Mundo é um moinho, Corra e olha o céu, Acontece, só obra prima.
Ninguém tinha gravado ainda?
Nessa ocasião ele estava gravando um disco com o Marcus Pereira, mas ninguém sabia. É um disco maravilhoso por sinal, era uma gravadora independente. Ele estava morando com a Zica na Mangueira nessa época. Aí eu gravei As rosas não falam, que estourou no Brasil inteiro. Foi trilha sonora de novela, e isso também ajuda muito. No ano seguinte eu gravei O Mundo é um moinho, e comecei a gravar o Cartola todo ano. E a minha gravadora na época, a RCA, chamou o Cartola para fazer um disco por ano. Quando eu gravei Folhas secas do Nelson, antes, em 1972, ele passou também a ser contratado da gravadora e fazer um disco por ano. Deu uma melhoradinha na vida deles, mas eles mereciam muito mais. Financeiramente falando, com o sucesso que eles tinham, era para eles serem milionários da própria arte e não foram. O Cartola melhorou um pouco, quis sair da Mangueira porque achava muito barulho para ele e foi morar numa casinha em Jacarepaguá. Mas modesta, entendeu? Uma vida melhor. Teve um tempo que ele chegou a morar no Zicartola, porque era para ser uma pensão e acabou que virou um centro cultural.

6 comentários sobre “‘O samba é sempre uma resistência’”

  1. Tudo que esta aí estamos careca de saber.É história mas tambem estória.Pouquíssimas pessoas aí referidas, que viviam de fazer sambas, possuíam conteúdo político .Seus objetivos eram pessoais(arrumar algum, mufunfa pora tocar a vida difícil) e de turma.Essa mistificação aqui apresentada esgotou-se.Há um resíduo de tudo isso na figura do tal Arlindo Cruz fazendo samba de enredo para a “família globo” porque o que interessa é “estar dentro”(da globo) que é daí que sai algum com certeza. Música popular brasileira já não há. Carnaval já não há.Samba, se ainda há,está invibializado;já leva outros nomes;”negritude”, “pagode” e sobrevive confinado.Samba, disse Noel, não se aprende na escola e entrar nesse âmbito desagrada.Nada há que aprender aí.Viva Cuba, viva o socialismo democrático, avançando e desmascarando a direita. Viva o povo brasileiro oprimido em luta contra o astuto, mal, bandido, nos campos e nas fábricas…

  2. foi tudo que esperava dessa GRANDE ARTISTA Beth Carvalho.Uma Mulher de fibra e opinião própria.
    Ela diz a verdade quando menciona o poder da mídia sobre a população.
    Quem derá um dia aparecessem outras Beths Carvalhos como a propria.
    Parabéns Beth!
    Parabéns Fazendo Média!!
    Mangueira 2012!!

  3. OTIMA ENTREVISTA,ACHO MUITO BOM AGENTE TER, OPORTUNIDADE DE CONHECER A OPINIÃO POLÍTICA E CULTURAL DE PESSOAS, QUE NOS PARESCE ESCLUSIVAMENTE ENVOLVIDA A UM UNICO ASSUNTO,NESTE CASO SERIA O SAMBA.MAS AI TEMOS A CLARESA DA OPINÃO, EM ASSUNTOS QUE DIFEREM DE SUA CARREIRA.OQUE OBVIAMENTE SO FAS CRECER NOSSA ADIMIRAÇÃO POR ESTA INCRIVEL ARTISTA.MEUS PARABÉNS A VOCÊS ENTREVISTADORES E À BETE.

Deixe uma resposta