O questionamento dos fundamentos da sociologia brasileira

Por Carlos Frederico Alverga

Jessé Souza destaca que a noção platônica de hierarquia entre corpo e espírito é fundamental para explicar os nossos desníveis sociais

Os três pensadores das nossas ciências sociais que formularam a visão dominante que o país tem de si mesmo foram Gilberto Freyre, Sérgio Buarque de Holanda e Raymundo Faoro.

Esta visão, adotada indistintamente pela direita e pela esquerda nacionais, está sendo questionada e contestada em seus alicerces pelo sociólogo Jessé Souza. Em termos genéricos, suas três contribuições fundamentais (de Freyre, Holanda e Faoro)  podem ser sintetizadas conforme explicado a seguir.

Gilberto Freyre contribuiu com a ideia da democracia racial brasileira, encarando a miscigenação entre portugueses, negros e índios como um dado positivo da formação nacional, destacando este aspecto por ele considerado virtuoso, e comparando-o com o racismo segregacionista institucionalizado dos Estados Unidos. Desta forma, o sociólogo pernambucano pensa ser a mistura de raças uma qualidade do Brasil que, nesse particular, superaria os Estados Unidos.

Relativamente a Sérgio Buarque de Holanda (SBH), sua contribuição principal reside no conceito do brasileiro como homem cordial, como sendo um ente movido pela emoção, pelos afetos, pelos sentimentos. Entretanto, esse conceito, segundo Souza, é negativo, na medida em que, no entendimento de SBH, por ser assim, o brasileiro divide o mundo entre amigos e inimigos, dando aos amigos tudo e aos inimigos a Lei.

A conduta do brasileiro seria baseada nas amizades, afetos e sentimentos, e não na racionalidade e no cálculo frio do norte americano protestante ascético, cuja conduta nos negócios é guiada não pelas emoções, mas pela racionalidade instrumental, o que teria proporcionado o êxito do capitalismo nos Estados Unidos e seu fracasso no Brasil.

O brasileiro malogra por ser emotivo e sentimental, sendo inferior ao estadunidense racional e calculista que, por ser assim, prospera. Jessé Souza critica SBH por este idealizar infantilmente os EUA como sendo o paraíso da impessoalidade inexistente nos trópicos brasileiros.

Texto e imagem (Debret) extraídos de GGN O Jornal de Todos os Brasis, 26 de agosto de 2024: https://jornalggn.com.br/artigos/carlos-alverga-o-questionamento-dos-fundamentos-da-sociologia/

 

Um comentário sobre “O questionamento dos fundamentos da sociologia brasileira”

  1. Muito valiosa esta desmistificação de opiniões que devem ser e estão sendo revisadas, visando um retrato mais atual e mais real do Brasil. Algo semelhante tenho feito em meu livro “Max Weber: Ciência e valores,” no caso a respeito de leituras rasas não apenas do pensamento e ação de Max Weber, como também da sociologia como leitura e trasformação do mundo.

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