O que recolher da visita do Papa Francisco à África? Sementes sinalizando passos de alternatividade ao sistema de barbárie

O Papa Francisco encerrou, no dia 30 de novembro recém-findo, sua visita à terra e às gentes d´África, onde esteve a ouvir, a falar, a aprender e a dividir suas inquietações, esperanças, compromissos e testemunho. Mais particularmente, esteve a exercitar o diálogo com as gentes de três nações africanas: Quênia, Uganda e República Centro-Africana, com suas marcas comuns e com suas singularidades, inclusive do ponto de vista conjuntural.

Nesses cinco dias de encontros, assumiu e cumpriu uma agenda diversificada, incluindo discursos de saudação, encontros com autoridades civis e religiosas, clero, lideranças religiosas, celebrações litúrgicas, encontros diversos com pessos das respectivas nações.

Durante esses dias, também cuidamos de estar atentos, ainda que “de longe” (via internet), a gestos, palavras e escritos do Bispo de Roma. Para essas notas, além de várias apresentações diretas, acompanhadas pela internet, socorremo-nos de um “link” que fornece um conjunto de discursos seus: http://www.toscanaoggi.it/Documenti/Papa-Francesco/I-discorsi-del-papa-nel-suo-primo-viaggio-in-Africa
tendo complementado com outros, como, por exemplo, sua última homilia, na Catedral de Bangui, na República Centro-Africana, cf.
http://it.radiovaticana.va/news/2015/11/29/testo_integrale_omelia_del_papa_nella_cattedrale_di_bangui/1190764
e com a íntegra de sua entrevista concedida a jornalistas, ainda a bordo, na viagem de volta da África, cf.
http://it.radiovaticana.va/news/2015/11/30/colloquio_del_papa_con_i_giornalisti_in_aereo_ampia_sintesi/1191074

1. De seus gestos

Desde o voo Roma-Nairobi, acompanhado de dezenas de jornalistas, de várias partes do mundo, inclusive do Quênia, é visível seu cuidado de um tratamento profundamente ético, isonômico para com todos, para com todas. Isto se manifesta, de vários modos. Um deles: seu empenho em, primeiro, ouvir, ouvir e ouvir, e só depois pronunciar-se, sempre partindo das questões levantadas, mas indo além delas. O exemplo de seu encontro com a Juventude, em Nairobi, é um atestado inequívoco dessa atitude que lhe é habitual. Nela reside o que de mais fundamental há como condição para um verdadeiro diálogo.

Outro gesto eloquente: seu conhecido desassombro diante de situações de risco à sua integridade física. Repetidas vezes, deu e continua dando provas de não ceder ao medo de estar no meio do povo, a qualquer custo. No Brasil, nas Filipinas, na América Andina, no Caribe, nos Estados Unidos, na África, na Europa, no Vaticano, faz questão de estar cercado de gente, de abraçar a todos, até de provar um chimarrão recebido de uma pessoa do povo, em plena rua. Não se deixa abater por situações de ameaças, entrega-se, confiante, à Providência, do que resultam mais autênticas seus constantes apelos públicos: “Não tenham medo!”

Sem ceder a truques de publicidade, espontaneamente atende a todos, em especial às pessoas mais simples, como as crianças. Em várias oportunidades, tem dado provas disto.

Cônscio dos riscos de retaliação por parte dos “grandes” deste mundo, não se cansa de denunciar – e o faz pela raiz! – as grandes chagas sociais e socioambientais do nosso tempo, sempre apontando para a raiz do problema: e economia de morte, o modelo tecnocrático hegemônico. Razão por que, em busca de superar o mal pela raiz, não põe nos “grandes” sua esperança de superação. Faz questão de recorrer aos mais desvalidos, como o tem feito, ao convocar representantes de movimentos populares de todo o mundo, para ouvi-los e com eles dividir suas melhores esperanças, como o fez ainda recentemente, por ocasião do II Encontro Mundial de Movimentos Populares, em Santa Cruz de la Sierra – Bolívia: cf.
https://www.youtube.com/watch?v=kxWELE-5bdM

Uma postura-chave sua tem sido a de apresentar-se como uma pessoas entre outras (fazendo-nos remeter a uma passagem do Evangelho: “Estou entre vocês como alguém que se põe a serviço.”), alguém simples, como os outros. Dois exemplos convincentes dessa postura sua: reconhecendo-se pecador, costuma pedir que as pessoas rezem por ele: “E não se esqueçam de orar por mim”… Ainda recentemente, após falar à(o) Catequistas, não hesitou em pedir-lhes que orassem por ele, e que, também, pedissem que as crianças fizessem o mesmo…

Com respeito a quem pense diversamente dele, o Papa Francisco se mostra sempre claro e firme, em suas posições, inclusive diante de autoridades mundialmente respeitadas. Prefere a verdade, por dura que se apresente, ao discurso fácil, incolor, insípido, inodoro…

2. De suas palavras –

Chama a atenção sua coerência, também no âmbito da fala, sobretudo quando cotejada com seus respectivos gestos. Faz-se, também aí, facilmente reconhecível, por meio do seu vocabulário característico, envolvendo palavras-chave amplamente recorrentes em suas intervenções, tais como: “alegria”, “misericórdia”, “compaixão”, “ternura”, “proximidade”, “reconhecimento de nossa condição de pecadores”, “conversão”, “diálogo”, “cultura do encontro”, “evangelização em saída missionária”, “periferias existenciais”, “centralidade dos pobres”, “buscar a unidade na diversidade”, “sociedade inclusiva”, “psicologia principesca” (referindo-se à arrogância clericalista) … Trata-se de algumas das expressões-chave de seu universo vocabular, que ele costuma externar em seus rotineiros pronunciamentos, em audiências públicas, em entrevistas, em atos religiosos, em diferentes ocasiões de viagens pastorais…

Ao tomarmos em conta tal universo vocubular, seja em seu conjunto, seja cada expressão, de per si, somos provocados a analisar tal vocabulário, sob distintos aspectos. Um deles: a partir dessas expressões, onde o Papa Francisco busca inspirações? Em que fontes ele bebe? Eis algumas. Sua espiritualidade evangélica, seu apreço por alguns dos chamados “Padres da Igreja” (a exemplo de João Crisóstomo, Basílio e outros), bem como, ainda que sem citá-la expressamente, na Teologia da Libertação. Apenas para ficarmos em três exemplos dentre outras fontes em que busca inspiração.

Também nessas recentes viagens suas, isto aparece, ora mais explicitamente, ora de forma subliminar. No caso da fonte bíblica, mui especialmente os Evangelhos, trata-se de uma constante nele. Reiteradas vezes, tem recomendado, inclusive que se obtenha e se porte no bolso e unma bolsa, um pequenos exemplar do Evangelho, para ser lido, com frequência. Suas reflexões, não apenas suas homilias, se acham atravessadas e prenhes de inspirações evangélicas, que lhe inspiram até o modo de expressar-se por meio de casos (“parábolas”) do cotidiano, do seu vivido e de sua gente. Em não poucas ocasiões, dadas as fontes em que se inspira, seus pronunciamentos ganham tal força, que, ouvintes/leitores, leitoras que não tenham familiaridade com essas fontes, estas lhes soam como palavras vindas de um “comunista”. Pelo que dele se sabe, está longe de tratar-se de um iniciado em leituras marxistas ou do gênero. Sua inspiração é profundamente evangélica, lastreada, aliás, por algumas figuras de grandes teólogos dos primeiros séculos da Igreja. Suas reiteradas denúncias contra o “deus dinheiro”, por exemplo, se não estiverem conectadas com as fontes em que, de fato, se inspira, podem ressoar como sendo palavras de um papa “esquerdista”. Ao consultarmos essas fontes, porém, concluímos facilmente donde vem a força de suas denúncias proféticas.

Recobrando passagens do pensamento de João Crisóstomo, por exemplo, deparamo-nos com afirmações do tipo:
“Queres honrar o corpo de Cristo? Após o teres honrado na igreja, não o desprezes quando o encontrares maltrapilho, fora da igreja. Aquele que disse: “Isto é meu corpo” também disse: “Esta é minha fome”. Que importância há se a mesa do Senhor se acha cintilando com cálices de ouro, se Ele está a morrer de fome?” cf.
http://le-citazioni.it/autori/giovanni-crisostomo/

E aqui não se trata de uma frase pinçada, desconectada do espírito da crítica de Crisóstomo. Trata-se de um exemplo ilustrativo de sua conhecida posição acerca da destinação universal das riquezas para o bem comum. Algo, aliás, bem fundamentado, inclusive, na Constituição Pastoral “Gaudium et Spes”, do Concílio Vaticano II, acerca do tema. Veja-se, por exemplo, a este mesmo propósito, a entrevista do Papa Franfcisco, publicada nas páginas do IHU:
http://www.ihu.unisinos.br/noticias/538861-cuidar-de-quem-e-pobre-nao-e-comunismo-e-evangelho-entrevista-com-o-papa-francisco

Conferindo diversas intervenções que o Papa Francisco fez em suas recentes visitas ao Quênia, a Uganda e à República Centro-Africana, podemos observar a coerência de seus pronunciamentos: o mesmo horizonte de alternatividade ao sistema “que mata”; a mesma convicção de que as mudanças se dão desde baixo, desde os mais fragilizados, quando ousam assumir seu protagonismo; os mesmos caminhos de uma libertação que passa pela observância das práticas de paz e de justiça.

3. De seus escritos

As viagens recém-encerradas propiciaram, também, considerável difusão de alguns escritos do Papa Francisco, em especial, duas de suas recentes contribuições: sua Exortação Aposólica “Evangelii Gaudium” e sua Encíclica Social “Laudato si´”, além de textos seus, lidos ou escutados, especialmente, por representantes de movimentos populares.

Uma de suas características (também) nesses escritos é a ênfase pastoral inconfundível em relação à centralidade dos pobres, não tanto como alvo de políticas sociais, mas sobretudo como protagonistas de mudanças sociais. Como não lembrarmos a força de seu discurso dirigido, por cerca de uma hora, aos participantes do II Encontro Mundial de Movimentos Populares, em Santa Cruz de la Sierra (Bolívia)? De modo semelhante, em suas intervenções e diálogos com as gentes da África, em distintos momentos, isto voltava à tona, ao seu modo. Por exemplo: ao fazer questão de reconhecer, de público, e com bastante ênfase, as grandes potencialidades daquelas gentes. E o fazia, não apenas para encorajá-las, com sua palavra de pastor, mas, antes, para despertar naqueles povos a consciência de suas potencialidades transformadoras. Francisco os provoca, os convoca ao protagonismo, a partir do despertar e do assumir de suas potencialidades de cidadã(o)s.

Sempre demonstrando um profundo respeito e apreço pela sua cultura, e partindo dos valores que também lhes são comuns, a exemplo do reconhecimento e promoção da dignidade dos seres humanos e do Planeta, o Papa Francisco, também nesse terreno, cuida de defender e promover os direitos daqueles segmentos mais fragilizados: mulheres, crianças, idosos, convocando especialmente os jovens para assumir seu protagonismo, nessa direção.

Com relação ao tratamento ecumênico e ao diálogo inter-religioso, tratou, de um lado, de conclamar as lideranças religiosas a assumirem um papel mais destacado com relação ao combate às mais diversas formas de apelo à violência, enquanto, por outra parte, cuida de testemunhar, junto com outras lideranças e bases de outras denominações, um “ecumenismo de sangue”, isto é: inspirado no exemplo dos mártires.
Ainda estando no voo, de volta ao Vaticano, em entrevista concedida a jornalistas, não perdeu a chance de pronunciar uma mensagem de alerta aos chefes de Estado e de Governo, bem como às delegações participantes da ECO 21, terreno em que se notabilizou pela sua densa contribuição, oferecida na ainda recente “Laudato si´”.

Uma leitura avaliativa da gesta do Papa Francisco, desta vez, em terras e junto a gentes da Mãe-África, permite-nos respirar aliviados, diante de uma testemunha e de alguém portador, por gestos, palavras e escritos, de fecundas sementes de alternatividade ao sistema de norte ainda hegemônico, justamente num tempo em que esse mesmo sistema dá sinais efetivos de caducidade, enquanto percebemos os sinais de um mundo que está a nascer, nessas experiências moleculares espalhadas por todo o mundo…

Que tomemos a sério nossa vocação histórica de oarteuris e oarteuras de um novo mundo, de uma nova história, a partir de gestos moleculares grávidos de alternatividade!

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