O que está por trás do ‘encolhimento’ da maior ilha do mundo

Groenlândia. Créditos: Unsplash

A maior ilha do mundo tem mais de 50 mil habitantes e é 80% composta por gelo; agora, cientistas notam que tem sido comprimida e expandida.

Anne Silva

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Um estudo liderado por pesquisadores da Technical University of Denmark (DTU) demonstra, com base em um modelo de dados que integra 26 mil anos de história geológica, como a maior ilha do mundo, a Groenlândia, está sendo “comprimida” sobre a crosta terrestre, o que leva a uma redução de seu território, além de provocar elevações, afundamentos e movimentos horizontais que a “esticam” em outras partes.

De acordo com o estudo, a ilha se desloca cerca de 2 cm por ano para noroeste, e certas áreas já registram uma tendência de encolhimento. Foram usadas 58 estações GNSS/GPS espalhadas pela costa da ilha, uma região autônoma entre o Atlântico Norte e o Oceano Ártico, em um modelo temporal de mais de 20 mil anos, que mostra como o derretimento gradual do gelo e a resposta isostática da Terra ocasionam seu deslocamento.

O movimento, no entanto, não é o único fenômeno: a instabilidade também gera movimentos expansão em algumas regiões da ilha, uma resposta elástica à queda no volume de gelo das últimas décadas, que faz com que a pressão sobre o solo diminua e o leito rochoso se eleve.

O efeito é sentido de forma local, mas demora anos para se manifestar. Foram, mais especificamente, milhões de anos que deram à Groenlândia suas grandes camadas de gelo, surgidas durante as eras glaciais da Terra.

Essa reação gera fluxos no manto terrestre que impulsionam movimentos horizontais e verticais, mas que agora têm se tornado mais frequentes e evidentes devido à perda de volume da ilha.

O estudo tenta, em alguma medida, separar essas reações de longo período histórico (a tendência pré-histórica da Terra a expandir e comprimir as áreas) e suas manifestações mais recentes, influenciadas pelas mudanças climáticas. O levantamento mostra que novas áreas de terra emergem em locais em que o leito sobe mais rápido, enquanto regiões com mais gelo tendem a afundar.

O padrão não é uniforme: com o derretimento acelerado das geleiras, é possível que a resposta elástica se intensifique e gere ainda mais elevações no leito rochoso da ilha, o que pode alterar o equilíbrio entre as regiões que encolhem e as que crescem.

De maneira geral, a resposta viscosa, apelidada pela sigla “GIA” (Glacial Isostatic Adjustment), que é responsável por moldar os movimentos da crosta, vai continuar em atividade, e pode ser afetada pelo derretimento rápido do gelo. Isso, por sua vez, levará a modificações na cartografia da região, no planejamento da infraestrutura local e a um aumento do nível do mar.

De acordo com estimativas de 2024, há cerca de 56.836 habitantes na Groenlândia, cujo território é até 80% coberto por gelo. Estima-se que a camada de gelo tenha perdido até 5.091 km² de área entre 1985 e 2022, o que reduziu significativamente a pressão no subsolo. A ilha também abriga algumas das rochas mais antigas do mundo, datadas em até 3,8 bilhões de anos.

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