O PT poderia ter seguido outro caminho?

“(…) Lula e o PT tinham uma escolha: eles poderiam aceitar as ‘regras do jogo’ fundamentais, estabelecidas pelos sistemas de poder dominantes do mundo e tentar fazer o melhor possível dentro delas; ou eles poderiam rejeitar essas regras e sofrer as consequências.

As regras foram feitas de maneira a impedir a ameaça da democracia, submetendo os governos à disciplina do ‘parlamento virtual’ dos investidores e credores, os quais podem destruir uma economia de várias maneiras, entre elas com a fuga de capitais e ataques espetaculares às moedas, caso a política de governo for ‘irracional’ – ou seja, dedicada às escolas e à saúde em vez de ao lucro das empresas.

(…) Talvez fosse possível para Lula e o PT seguirem o segundo caminho, como a Argentina de certa maneira fez, e talvez tivesse tido sucesso. Mas os riscos para as pessoas do Brasil não seria desprezíveis, e deve-se pensar nisso com muito cuidado antes de recomendar essa escolha.

Minha impressão, se é que ela vale alguma coisa, é que isso podia ser feito. Mas essas não são propostas que podem ser feitas levianamente e certamente não podem ser feitas em termos doutrinários e ideológicos, sem uma consideração cuidadosa das consequências, no mundo tal como é, e não como gostaríamos que fosse.

(…) As medidas social-democratas instituídas pela pressão popular dentro de sistemas parlamentares atingiram, inquestionavelmente, resultados não insignificantes para pessoas reais que enfrentam problemas reais. Devemos, portanto, apoiar essas medidas, e se nos recursarmos, baseados em algum suposto princípio, podemos estar certos de que aqueles que tiveram as vidas melhoradas não vão nos levar a sério, e com razão.”

Noam Chomsky, 2004, disponível em “Notas sobre o anarquismo” (SP: Hedra, 2011), p.157-158.

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