O Maracanã é de quem, afinal?

“O Maraca é nosso?”, evento realizado no auditório da Uerj. Foto: Comitê Popular Copa e Olimpíadas Rio.

O Maraca é nosso? Esse foi o questionamento levantado por movimentos populares do Rio de Janeiro em relação às obras do estádio mais conhecido do Brasil, no evento realizado na noite de ontem (25) na Universidade Estadual do Rio de Janeiro (Uerj). Organizada pelo Comitê Popular da Copa e Olimpíada do Rio de Janeiro, a atividade contou com a participação massiva dos estudantes da universidade, que lotaram o auditório.
Em respeito à Aldeia do Maracanã, chamaram Carlos Tucano, uma das lideranças da ocupação no antigo Museu do Índio, ao lado do Maracanã. Ele relatou a chegada em 2006 de diversas etnias, representadas por cerca de 30 índios, no edifício histórico para a luta indigenista no Brasil. Tucano trabalhou 5 anos na Funai em Manaus, e prestou serviço no atual Museu do Índio, no Rio, durante 10 anos. Carlos disse que anunciaram a venda do prédio por R$ 67 milhões no dia 17 de julho, e os índios entraram com uma ação, por meio da defensoria pública, contra a Conab, proprietária do imóvel. Veja a reportagem completa sobre a reivindicação dos índios realizada pela revista Caros Amigos.
“Não sabemos ainda se vai ser shopping ou estacionamento, aquele prédio abriga a memória dos povos indígenas. Nosso objetivo é ter um centro cultural, da legítima cultura brasileira. Mas já ouvimos que a qualquer momento a polícia pode nos tirar dali. Várias leis internacionais nos dão direito, além da questão do patrimônio histórico do edifício. Temos instituições indígenas representativas aqui no Rio, queremos um local para divulgar o nosso trabalho. Não somos contra a alegria do povo brasileiro, queremos ganhar a copa, mas não adianta gastar bilhões ali à toa”, afirmou o indígena.
Para iniciar os debates sobre a reforma do Maracanã foi exibido o documentário Geral, de Anna Azevedo, que mostra os torcedores nos últimos 5 jogos antes de fechar a famosa geral. Esse era o espaço mais popular do estádio, com ingressos baratos e sem assentos, ao lado do gramado. Sua destruição em 2007, em função das exigências da Fifa para a realização do Pan Americano, é considerada por muitos o auge da elitização do futebol que vem ocorrendo nos últimos anos.
Erick Omena, pesquisador do Observatório das Metrópoles do IPPUR/UFRJ. Foto: Comitê Popular.

Para contextualizar o que está ocorrendo hoje com as atuais obras, Erick Omena, pesquisador do Observatório das Metrópoles do IPPUR/UFRJ, resgatou toda a história do Maracanã desde sua construção. Segundo ele, há fatos históricos que indicam o caráter dessa mutação do estádio, que desde a década de 90 é alvo da ganância de empresários. Ele mostrou um gráfico que compara o preço dos ingressos com o valor do salário mínimo a cada época, e essa relação nunca foi tão alta como a partir de 2005, o que também é um sinal dos tempos.
O Maracanã, segundo o pesquisador, teve três grandes projetos discutidos à época de sua construção, em 1950. Suas pesquisas, em parceria com a Biblioteca Nacional, para um livro que será lançado ainda este ano, mostram um intenso debate na sociedade e divulgação na mídia sobre o estádio carioca. Derrotando as propostas de Carlos Lacerda, que primeiro tentou levar o estádio para a Barra da Tijuca e depois Irajá, para gerência da iniciativa privada, venceu o projeto municipal no atual local. A ideia era construir um estádio com grande capacidade, popular, gerido pelo governo, e financiado por cadeiras cativas (aproximadamente R$ 6,5 mil por 5 anos) e cadeiras perpétuas (equivalente a R$ 25 mil). O jornalista Mario Filho, que virou nome do estádio, e Ary Barroso foram duas personalidades que se destacaram na defesa do projeto vitorioso.
“Houve uma pesquisa do recém criado Ibope, e o projeto popular municipal com a capacidade para 150 mil pessoas venceu. Foi construído através do debate, com influência da opinião pública e o ideário de estádio popular. Mas agora na década de 90 é o ápice de expulsão dos pobres, e o público é considerado cada vez mais telespectador no estádio. Essa tentativa de concessão é a terceira tentativa de privatização do Maracanã. Vem sendo assediado pelos poderes privados sob justificativa de modernização, violentando sua história. Precisamos continuar lutando pela forma que o Maracanã foi pensado e se desenvolveu no tempo”, concluiu Erick.
Chris Gaffney, da escola de arquitetura e urbanismos da UFF, falando ao auditório lotado. Foto: Comitê Popular.

Apesar de gringo, Chris Gaffney, da escola de arquitetura e urbanismos da UFF, transmite sua paixão pelo Maracanã. Desde que chegou ao Rio ele foi várias vezes ao estádio, até seu fechamento para as atuais obras. Fala sobre o aspecto mítico do Maraca, que, segundo ele, era o maior estádio construído em 2 mil anos, desde o império romano. Nenhum estádio no mundo chegou a 170 mil de capacidade (registra-se público com mais de 200 mil), que durou até 1999, quando a Fifa exigiu adaptações (camarotes, retirada das rampas monumentais e assentos, por exemplo) para o Mundial de Clubes. Passou a receber 129 mil torcedores, número menor que o estádio no Irã. A pesquisa de Gaffney começou em 2004, e estudando a cidade logo percebeu que a localização do Maracanã é importantíssima para os cariocas, inclusive do ponto de vista de transportes públicos.
“Gente de todas as classes aflui à maior praça de esportes do mundo”, manchete do Jornal dos Sports (19/07/1950) sobre a inauguração do Maracanã.

“Mesmo implantado de cima para baixo, foi se entregando à história da cidade. O projeto arquitetônico é bem feito, ousado e deu certo, muito criativo. A rampa monumental é a única no mundo, e a acústica é muito boa. Qualquer pessoa famosa que vinha ao Brasil queria pisar no gramado, virou um espaço público. Era uma coisa mágica, o lugar tinha um espírito que todos construíram. Com a eliminação da geral, a separação das arquibancadas, em 2007 a capacidade caiu para 89 mil, gastando R$ 360 milhões do dinheiro público, sem audiência pública ou licitação.Tudo para matar a história e uma coisa que todos sabíamos que daria errado”, criticou.
Mesmo com a capacidade reduzida para 80 mil pessoas, Gaffney ressaltou que ainda havia a beleza arquitetônica. Mas agora com a reforma da Copa de 2014 destruíram o estádio, e para isso já foram gastos R$ 800 milhões dos cofres públicos. O projeto atual prevê 76 mil lugares, menos do que o estádio de futebol americano da sua faculdade nos EUA, ironizou. Nos últimos 7 anos foi investido mais de R$ 1 bilhão e agora está fechado, e querem privatizar como se não tivesse outra opção, complementou o pesquisador. Segundo ele, um dos principais problemas é a gestão no futebol, com destaque para o Eduardo Viana, conhecido como Caixa D’Água, e Ricardo Teixeira. Para exemplificar, lembrou que mesmo com menos capacidade os torcedores muitas vezes são obrigados a perder parte do jogo na fila para comprar ingressos, sem falar na dificuldade de comprar antecipado e a preços elevados, ou ficarem nas mãos da máfia dos cambistas.
Mauro César Pereira, jornalista da ESPN e colunista do jornal Marca. Foto: Comitê Popular.

O jornalista Mauro César Pereira, da ESPN e colunista do jornal Marca, tem criticado as obras do Maracanã publicamente na televisão a cabo. Ele observou que o Brasil não precisa de Copa do Mundo, e que nosso país está caminhando na mesma direção da África do Sul, país sede da última copa: elefantes brancos, pessoas sendo expulsas de suas casas por conta das obras, etc. Ele disse que a obra do Maracanã era facilmente evitável, lembrando que na copa da Alemanha a final não foi no estádio de Munique.
“Essa obra, que eu chamo de estupro, não tem o menor cabimento, é bizarra. E temos uma mídia omissa, covarde, muitos companheiros não têm liberdade de se expressar. Acho compreensível, mas tem muita gente que poderia se manifestar e não faz. Infelizmente é mais fácil para a Fifa vender sua ideia para os cartolas e políticos. Já que está sendo gasto esse dinheiro público, poderiam até retomar esse projeto da Barra porque a Olimpíada é da Barra e não do Rio de Janeiro. É muita especulação imobiliária. Por que não ampliaram o Engenhão, já que construíram o estádio?”, questionou.
O jornalista relatou sua experiência na cobertura da última copa, na África do Sul, ressaltando que os estádios lá estão quase desativados, sendo até utilizados para casamentos. Um estádio na cidade de Durban, que custou U$ 800 milhões, inclusive, já foi cogitada a possibilidade de sua destruição por conta dos gastos para mantê-lo sem atividade. Outro ponto destacado por ele é a mentira argumentada pela Fifa, que vende a ideia da visibilidade perfeita para os torcedores. Segundo ele, dependendo do ângulo e altura das placas de propaganda no gramado, a visibilidade fica pior que a da antiga geral do Maracanã, que foi destruída também sob essa justificativa.
“Eles mentem quando dizem que o estádio será perfeito, que o padrão Fifa é de excelência. É importante entender que a Copa do mundo não é fundamental, não nesses moldes. Nenhum empresário investiu nos estádios de Cuiabá e Manaus, não vai ter público para isso, por exemplo. A Marcia Lins, secretária de esportes no Rio, não me explicou em 2010 por que o Maracanã poderia ser privatizado. As cifras foram aumentando, alguém vai ter que assumir o estádio e continua o processo de elitização”, concluiu.

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