
Hoje, o local em que o Mar costumava ficar se transformou num cenário árido e repleto de areia, com resquícios de sal, cascos de navios “afundados” no nada.
Por: Anne Silva / Revista Forum, 20/01/2026 – às 15h11 | Atualizado: 20/01/2026 – às 14h18
Antes da década de 1960, o Mar de Aral, corpo d’água centro-asiático posicionado entre o Cazaquistão e o Uzbequistão, era considerado o quarto maior lago do mundo, com cerca de 68 mil quilômetros quadrados e uma profundidade que podia chegar a 40 metros.
“Aral”, termo turcomeno que designa “mar das ilhas”, fazia referência às mais de cem pequenas ilhas espalhadas pela superfície do lago, que era alimentado pelos rios Amu Dária, nascido nas montanhas do Tajiquistão, e Syr Dária, no Quirguistão.
Com uma extensão territorial significativa, o Mar de Aral, um lago salgado, era rico em biodiversidade e servia como fonte de subsistência para cidades que se constituíram no seu entorno. Segundo dados da antiga União Soviética, datados da década de 1950, era possível extrair mais de 40 mil toneladas de peixe anualmente, que movimentavam a economia e alimentavam as indústrias locais.
Hoje, o local em que o Mar costumava ficar se transformou num cenário árido e repleto de areia, com resquícios de sal, cascos de navios “afundados” no nada e fragmentos isolados de água que não formam mais um corpo único.
A transformação desse ambiente natural, que também funcionava como regulador climático regional (amenizando as temperaturas mais extremas da Ásia Central), é considerada uma das maiores catástrofes ambientais antropogênicas do mundo.
O Mar que virou deserto

Mar de Aral antes e depois, visto em imagens de satélite. | Créditos: Wikipedia
O panorama do Mar de Aral começou a se transformar ao longo da década de 1930, durante a União Soviética.
A ideia de Moscou era transformar a região do entorno do Mar, além de outros lugares da Ásia Central conhecidos por seu cenário desértico e de baixa produtividade, em polos de produção agrícola e industrial. O governo soviético queria expandir sua produção de algodão, principal insumo da indústria têxtil, e isso requeria expandir, também, sua área de plantio.
Uma grande obra de engenharia foi planejada para desviar as águas dos rios Amu Dária e Syr Dária, os responsáveis por abastecer o Mar de Aral, e instalar milhares de quilômetros de canais em rede para infiltrar os solos e permitir a plantação do algodão.
Segundo informações da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura (FAO), no entanto, até 60% da água desviada pelo grande projeto se perdia por vazamentos e pela evaporação, em razão de uma estrutura de canais considerada precária.
O volume de captação de água dos rios crescia anualmente, até que, em 1961, pesquisadores da antiga URSS passaram a identificar uma queda acentuada no nível do Mar, de cerca de 20 centímetros por ano.
O processo de decaimento das águas do Mar de Aral, que inicialmente parecia reversível, foi apenas ampliado ao longo dos anos. Em 1980, a queda já chegava a 60 centímetros; e, na década seguinte, alcançou 70 centímetros anuais, o que levou ao colapso generalizado do lago e ao desequilíbrio entre a reposição hídrica e a evapotranspiração.
Imagens de satélite analisadas pela NASA, a agência espacial norte-americana, e pela Agência Espacial Europeia indicam que, num período de 40 anos, o Mar foi drenado de aproximadamente 75% de sua área inicial, apesar de a produção de algodão continuar a todo vapor nos campos do Uzbequistão, que se tornou um grande produtor mundial do insumo.
O decaimento do Mar de Aral gerou consequências significativas para as comunidades que sobreviviam da pesca.
O nível de salinidade, por exemplo, chegou a superar em até três vezes o dos oceanos, o que fez com que as espécies naturais do habitat do lago desaparecessem em poucos anos.
A atividade pesqueira era fundamental, além disso, para a manutenção de atividades produtivas locais: o fim da economia de subsistência baseada na pesca levou ao fechamento de fábricas e à migração forçada de milhares de trabalhadores.
Quando o lago foi drenado em volume significativo pela ação combinada da erosão e da evaporação, ele se tornou um grande deserto. Os cascos dos antigos navios permaneceram, compondo uma paisagem apocalíptica.
O deserto de Aralkum, como foi chamado, é considerado, hoje, um dos desertos mais jovens do mundo, formado no antigo leito do Mar de Aral pela mistura entre areia, sais e resíduos químicos provenientes da agricultura intensiva da região.
Hoje, uma iniciativa tenta salvar o antigo ecossistema do mar em passos lentos, mas constantes: o Projeto de Restauração Ambiental do Mar de Aral, nascido no Cazaquistão, atua desde 2021 para plantar saxauls negros, um arbusto nativo de regiões desérticas da Ásia Central, ao longo de um terreno de 500 hectares no lugar onde um dia foi o Mar.
A intenção é tornar o deserto menos árido e barrar parte dos efeitos negativos trazidos pela intensificação das mudanças climáticas.
A região é conhecida pelas tempestades de poeira e pelos impactos da erosão no solo, e pouquíssimas espécies de plantas conseguem sobreviver ali. Uma delas é o arbusto plantado pelos integrantes do projeto, apelidado de “Projeto Oásis”.
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