
Fundado para combater a peste bubônica, instituto revolucionou a imunologia e produziu 51% das vacinas do Brasil.
Estevam Silva / Opera Mundi – Pensar a História / São Paulo, 23 de fevereiro de 2026, às 07:50
Há 125 anos, em 23 de fevereiro de 1901, era fundado em São Paulo o Instituto Butantan. A instituição é um dos principais centros de pesquisa biomédica do mundo e o maior produtor de soros e vacinas da América Latina.
O instituto responde por 51% dos medicamentos imunizantes e 56% dos soros de uso profilático e curativo fabricados no Brasil. A organização distribui mais de 100 milhões de doses de vacina por ano e possui um portfólio intelectual com mais de 40 patentes.
O Butantan teve papel central no controle das piores epidemias registradas no Brasil desde o início do século 20, auxiliando o país a superar crises sanitárias como a gripe espanhola de 1918 e a pandemia de Covid iniciada em 2020.
Erradicando epidemias
O Instituto Butantan foi fundado durante a gestão de Rodrigues Alves no governo paulista, com o objetivo de combater a epidemia de peste bubônica que havia atingido o Porto de Santos no fim do século 19.
A doença foi responsável por dizimar um terço da população europeia na Idade Média e seguiu assolando o mundo em surtos periódicos nos séculos seguintes, até que o bacteriologista suíço Alexandre Yersin conseguisse isolar o bacilo da peste, abrindo caminho para os primeiros soros e vacinas antipestosos.
Quando a epidemia ressurgiu no fim do século 19 e atingiu o Porto de Santos, as autoridades brasileiras tentaram encomendar o soro antipestoso, então produzido pelo Instituto Pasteur na França e pelo Instituto Messina na Itália, mas as duas instituições estavam destinando quase toda a produção para suprir a demanda dos países europeus. A solução, portanto, era produzir o imunizante no Brasil.
Em 1899, o governo paulista desapropriou a Fazenda Butantan, na Zona Oeste de São Paulo, e instalou um laboratório para produção de soro antipestoso no local. Em 1901, o laboratório, então vinculado ao Instituto Bacteriológico, tornou-se uma instituição autônoma, a princípio denominada Instituto Serumterápico e, posteriormente, Instituto Butantan.
O primeiro diretor do instituto foi o médico sanitarista e pesquisador Vital Brazil, que se consagraria como o primeiro cientista a descobrir o princípio da especificidade antigênica, revolucionando o desenvolvimento da imunologia e a produção de soros antiofídicos.
Em sua primeira década de existência, o Butantan teve papel fundamental no controle das epidemias de peste bubônica, tifo, varíola e febre amarela que atingiam São Paulo, produzindo imunizantes e coordenando as brigadas de combate e ações sanitárias. Também se destacou pela produção de soros contra picadas de cobras e animais peçonhentos.
Produtor de soros e vacinas
Em 1902, o Butantan já exportava soro para outros estados e países e iniciava sua trajetória como um inovador centro de pesquisas. Em 1906, passou a produzir o soro antidiftérico e em 1909 iniciou as pesquisas com o soro antitetânico, que começaria a ser produzido em 1915.
Em 1916, o Butantan foi pioneiro na criação do soro antiescorpiônico e também passou a produzir os soros antitífico e antidisentérico. Desenvolveu também o soro eumenico para tratamento de distúrbios menstruais, o soro hormônico para combater a epilepsia e um soro para tratar a pneumonia.
Em 1918, diante da crescente demanda, o instituto assinou convênio com a Casa Armbrust, que passou a comercializar os produtos do Butantan no exterior. Nesse mesmo ano, começou a fabricar medicamentos e insumos para combater a pandemia de Gripe Espanhola.
A capacidade produtiva do instituto foi bastante ampliada nos anos vinte. O Butantan desenvolveu suas próprias vacinas contra difteria, varíola e tuberculose (BCG), iniciou a pesquisa da vacina contra a hanseníase e criou o soro antigangrenoso e três novos medicamentos antiaracnídicos.
Afrânio do Amaral, diretor do Instituto Butantan, foi convidado pela Universidade de Harvard para assumir a direção dos serviços antiofídicos e fundar o Antivenin Institute of America, uma das primeiras organizações de produção de soros antiofídicos dos Estados Unidos, inspirada no Butantan.
Já renomado como um centro de excelência em imunologia, o instituto passou a atrair para seus quadros grandes expoentes da pesquisa biomédica internacional, tais como Karl Slotta e Heinz Fraenkel-Conrat, pioneiros do estudo da progesterona, do estriol e do uso terapêutico dos venenos, que passaram mais de uma década desenvolvendo pesquisas no Butantan.
Em 1935, o instituto enfrentou uma de suas maiores crises institucionais – o chamado “Caso Butantan”, motivado por disputas político-partidárias e conflitos de natureza interna, que culminaram com o pedido de demissão do diretor Afrânio do Amaral, após desentendimento com o governador Ademar de Barros.
Apesar disso, o instituto conseguiu se recuperar e lançou novos produtos, como o soro vacínico para tratamento de coqueluche, os soros neurotrópico e antihistólico, a vacina contra febre maculosa e antirrábica e iniciou as pesquisas da vacina contra a influenza.
Nos anos quarenta e cinquenta, o instituto criou novos laboratórios de bacteriologia, imunologia e anatomia patológica e inaugurou o Hospital Vital Brazil, especializado no tratamento antiofídico. Em 1952, o Instituto Butantan foi tema do documentário “A morte que espreita”, produzido pelo governo da Bélgica.
Em 1961, o Instituto Butantan iniciou a importação da vacina Sabin contra a poliomielite, produzida pela União Soviética. O instituto assumiu a responsabilidade pela distribuição do produto no Brasil, possibilitando o controle da epidemia nos anos seguintes.
Da ditadura à criação do SUS
O golpe de 1964 e a subsequente instalação do regime militar foram seguidos pela brusca redução dos investimentos em saúde pública. Entre 1968 e 1972, a fatia do orçamento destinada à saúde despencou de 2,21% para 1,40%, ao passo que o montante destinado às Forças Armadas subiu de 12% para 18%.
O Butantan sofreu com um severo corte dos investimentos em pesquisas, testemunhou a perseguição à comunidade científica e o desmonte das instituições públicas, além da omissão das autoridades diante dos surtos e epidemias, que voltaram a assolar o país — nomeadamente a grave epidemia de meningite que afetou São Paulo nos anos setenta.
Apesar das dificuldades, o instituto seguiu realizando suas pesquisas, inaugurando a produção da vacina tríplice bacteriana e das vacinas contra cólera e sarampo. Em 1969, tornou-se um dos dois centros de treinamento e pesquisa em imunologia das Américas certificados pela Organização Mundial da Saúde (OMS). Em 1977, mobilizou seus quadros para debelar o surto de encefalite no litoral paulista.
Após a redemocratização, o Instituto passou a ser um dos coordenadores do Programa de Autossuficiência Nacional em Imunobiológicos. Também teve papel importante no esforço para reabastecimento dos estoques de soro antiofídico na rede pública de saúde, sucateados durante o regime militar.
O Butantan participou da Conferência Nacional da Saúde, onde foram definidas as bases do Sistema Único de Saúde (SUS). Iniciou a produção do soro antibotulínico e o curso de pós-graduação em biotecnologia, em parceria com a Universidade de São Paulo (USP) e o Instituto de Pesquisas Tecnológicas de São Paulo (IPT).
Também desenvolveu com tecnologia própria a primeira vacina recombinante do Brasil, contra a hepatite B. Em 2002, o instituto estabeleceu parceria com a Sanofi Pasteur para produzir uma vacina nacional contra a influenza.
Tentativas de desmonte
As primeiras décadas do século 21 foram caracterizadas por uma crise sem precedentes no instituto. Subordinada à secretaria de saúde do governo paulista, a instituição foi alvo de uma campanha de desmonte e sucateamento empreendida pelas sucessivas gestões do PSDB e sofreu severos cortes orçamentários.
Em 2009, o Butantan teve de fechar sua biblioteca e vários laboratórios de produção de soros e vacinas, pois as edificações, deterioradas pela falta de manutenção, ameaçavam desabar. Em 2010, um incêndio no instituto destruiu a maior coleção científica de serpentes, aranhas e escorpiões do mundo.
O conjunto habitacional que abrigava o alojamento dos pesquisadores e funcionários foi demolido e o Hospital Vital Brazil por pouco não foi fechado. A produção de vacinas contra hepatite, difteria, tétano e do imunizante Onco BCG foi suspensa. Esses medicamentos são agora adquiridos de laboratórios privados a um custo por unidade até 30 vezes superior ao da produção própria.
Apesar do sucateamento e sucessivas tentativas de desmonte, o instituto segue dando valiosas contribuições para a ciência nacional. Em 17 de janeiro de 2021, o Butantan obteve autorização da Anvisa para uso emergencial da CoronaVac, o imunizante contra a Covid-19 desenvolvido em parceria com o laboratório chinês Sinovac, dando início à vacinação no Brasil.
Em 2025, o instituto desenvolveu a Butantan-DV, o primeiro imunizante contra dengue em dose única no mundo. Já aprovada pela ANVISA, a vacina demonstrou eficácia superior a 91% contra a dengue grave e 100% de eficácia contra as hospitalizações por dengue.
Em fevereiro de 2026, o governo Lula anunciou um investimento de R$ 1,4 bilhão de reais na ampliação da infraestrutura e da capacidade produtiva do Instituto Butantan. Parte dos recursos será empregada para construir a planta de produção da vacina tetravalente contra o Papilomavírus Humano (HPV), um projeto estratégico e prioritário para o SUS.
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