O jornalista como profissional paradigmático da modernidade

O jornalista como profissional paradigmático da modernidade (Isabel Travancas)Foi lançanda este mês a quarta edição do livro “O mundo dos jornalistas”, da pesquisadora e jornalista Isabel Travancas, com nova capa e prefácio de Alberto Dines. Esta edição, revista, reproduz a dissertação de mestrado da autora em Antropologia, publicada originalmente em 1993.

Indicado na bibliografia dos melhores cursos de comunicação do país, este livro faz uma análise minuciosa da profissão de jornalista. Abordando a rotina do repórter e a construção da identidade desse profissional, a autora compõe um rico mosaico, enriquecido com o depoimento de grandes personalidades, como Jânio de Freitas e Zuenir Ventura. Fundamental para estudantes e profissionais.

O livro pode ser adquirido clicando aqui.

No artigo abaixo, Isabel Travancas fala sobre o tema central da obra.

O jornalista como profissional paradigmático da modernidade

Isabel Travancas

O mundo urbano tem características e particularidades que combinam e se misturam no jornalismo. Quando Simmel (1979) cita como características dos indivíduos da cidade superficialidade, anonimato, relações transitórias, sofisticação e racionalidade, é difícil não associá-las ao jornalista. Não que elas sejam exclusivas desta carreira, mas nela se expressam com intensidade. E por isso é possível estabelecer uma relação tão íntima entre este profissional e a cidade. A cidade, mais intensamente a metrópole, como afirma Simmel(op.cit), determina um novo modo de vida, novas relações sociais e ampliação das ocupações resultantes do desenvolvimento técnico associado ao transporte e à comunicação. Esta se modifica intensamente. Não há apenas novos e diferentes meios de comunicação, mas um processo que ocorre também, agora, a partir de meios indiretos. Com o telefone, o jornal, a televisão e mais recentemente a internet, o contato pessoal ficou mais restrito.

A vida urbana não se define apenas pela grande concentração populacional e variedade de atividades econômicas, mas pela complexidade e liberdade de circulação que possibilita, assim como pela intensidade com que o tempo é vivido. Jesús Martin-Barbero chama a atenção para as transformações sofridas pelas cidades. As ibéricas privilegiavam os espaços de interação humana, como as praças. Nas metrópoles contemporâneas a prioridade é o tráfego de veículos e não o encontro das pessoas. A seu ver, “são os veículos de comunicação de massa os que resgatam esse espaço de interlocução e essa possibilidade de interação perdidos na arquitetura das grandes urbes”(Martín Barbero, 1991, p.6).

O relógio, como salienta Simmel(op.cit), é um dos símbolos da ordem social no mundo urbano. Ele ajuda a controlar o espaço urbano que se caracteriza pela dessemelhança. Há uma gama heterogênea de povos e culturas, de modos de vida diferenciados que se comunicam minimamente, gerando ao mesmo tempo grande indiferença e maior tolerância. Os contatos primários são substituídos por secundários e as relações de parentesco se enfraquecem com o declínio do significado social da família produzindo uma corrosão da solidariedade social, como salientou Louis Wirth(1979). A cidade é ao mesmo tempo a conjunção de uma sociedade complexa com um espaço diferenciado. Ela assegura ao indivíduo uma grande liberdade, em contrapartida à solidão do anonimato e à superficialidade das relações sociais. Para Robert Park, um ex-jornalista, a cidade é entendida “como um ‘estado de espírito’, como uma mentalidade”(Park, 1990, p.52).

E se a cidade é o espaço da diversidade, do cruzamento de mundos e “tribos” diferentes, o jornalista vivencia com mais intensidade este fato em seu cotidiano. Transitar por distintas esferas da metrópole, desvendando territórios heterogêneos e construindo um mapa, para muitos desconhecido, é uma das funções do repórter – figura paradigmática do jornalismo – que, com as suas tarefas de apuração dos fatos e redação da notícia, se torna uma espécie de cidadão do mundo. O jornalista atravessa fronteiras e tem acesso livre à quase todos os lugares. Dos meios oficiais aos marginais e perigosos. Essa convivência e proximidade com inúmeros segmentos da sociedade num alto grau de heterogeneidade gera no repórter um certo “ar blasé” diante da vida do qual fala Simmel(op.cit) ao descrever o indivíduo da cidade. Recebendo uma grande quantidade de estímulos, entrando em contato com diferentes realidades e diferentes pessoas a cada dia, o jornalista precisa se proteger desse excesso de estímulos produzido pela metrópole e pela sua experiência profissional.

Não é à toa que ele é confundido pelo público com a notícia que ele cobre e as regiões que freqüenta. Ao ser responsável pela cobertura de polícia, um repórter precisará estabelecer relações com os habitantes deste mundo e terá seu nome fatalmente associado ao crime e à violência. Da mesma maneira, o jornalista que trabalha na chamada “imprensa marron”, tipo específico de jornalismo baseado no sensacionalismo, que age sem ética e se utiliza de chantagem e corrupção para atingir seus fins, possui uma determinada imagem junto ao leitor. E se o mundo urbano é o local privilegiado do anonimato em oposição ao campo ou à cidade pequena, para o jornalista esta vivência se torna marcante para a obtenção de sucesso e status. O jornalista está atrás de um “furo” que nada mais é do que a possibilidade de diferenciação dentro da profissão, de individualização, de conquista de notoriedade e, portanto, de escape do anonimato, o que significará ter seu nome impresso na primeira página do jornal e ser reconhecido pelos colegas e pela sociedade.

2-ENTREVISTANDO JORNALISTAS

Realizei na década de 90 uma pesquisa (1993) com cerca de 50 jornalistas do Rio de Janeiro e de São Paulo, empregados em diferentes tipos de veículo de comunicação. Meu objetivo foi entender como se constitui a identidade deste profissional e em que ela está ancorada. Para isso, realizei muitas entrevistas e acompanhei jornalistas em suas jornadas de trabalho e em festas. Fui percebendo, ao longo do trabalho, como estes profissionais têm uma relação intensa com a carreira e como esta é fundamental em suas vidas, principalmente, na percepção dos seus lugares no mundo. Lidei com pessoas que fazem parte do universo de camadas médias urbanas e como tal apresentam muitas semelhanças. Também pude avaliar a partir dos depoimentos qual é a imagem que o jornalista tem na sociedade, oscilando entre herói e bandido. O que se repetirá um pouco quando analisar algumas produções cinematográficas. Ou o jornalista é visto como alguém que tem prestígio e poder, ou é tido como um marginal ou mesmo um elemento perigoso. Esta dicotomia aparece com frequência nos discursos.

Uma questão estrutural do jornalismo é sua relação com o tempo. A base da imprensa moderna é a notícia, produto comercializado no jornal-empresa e elaborado por profissional assalariado. E se a notícia possui inúmeras definições diferentes, ela está sempre associada ao tempo e à questão do novo, da novidade. Atrás deste tempo que passa mais rápido na cidade, corre o jornalista. Aqui o meu interesse maior é discutir em que medida esta busca constante pelo novo, que implica numa luta diária contra o tempo, define um estilo de vida particular dos jornalistas. Este trabalhador explicita a dimensão do tempo com sua produção, apuração e redação de notícias.

Há uma cobrança implícita, se não explícita, de que ser jornalista significa ser jornalista 24 horas por dia e não só quando se está no jornal ou fazendo matéria de rua. Um repórter não tem hora definida para sair de uma redação, mas tem para chegar. Não existe jornalismo com cartão de ponto ou horário rígido de saída. Isso me parece um traço importante da profissão, e mesmo inerente a ela. O jornalista, de certo modo, não é “dono” do seu próprio tempo: este não lhe pertence, e sim à carreira. E neste sentido pode-se estabelecer um paralelo com os médicos, que também não podem dispor à vontade de seu próprio tempo.

Até as expressões se assemelham: trabalhar nos fins de semana ou feriados em jornal é “dar plantão”, e não trabalhar nesses dias significa “ter folga”. Sem falar no fato de que deve estar ligado à redação o tempo todo. As greves de transporte, por exemplo, ilustram bem este aspecto, assim como a relação estreita entre fatos nacionais e internacionais e a vida pessoal destes profissionais. Um jornalista lembrou em seu depoimento as férias tão planejadas e sonhadas com a família, que foi obrigado a largar no meio, quando estourou a Guerra do Golfo em 1991.

Os jornalistas parecem viver dentro de “um outro tempo”, como se seu relógio funcionasse bem mais rápido e em outro ritmo. Não é o tempo do dia e da noite, dos dias de trabalho ou dos fins de semana, mas sim o tempo do trabalho e o tempo do não-trabalho. Pois se trabalha de dia e de noite, todos os dias da semana, sem grandes distinções. E como salienta Roberto Da Matta (1987), muitas sociedades têm o tempo regulado por rituais ou festas cerimoniais, estas não existem no calendário de um jornalista. Elas são notícia, mas não alteram sua rotina pessoal.

Nesta linha de pensamento, poder-se-ia encarar o tempo do jornalista também como um tempo cíclico e intenso. Um ciclo que começa e termina todo dia. Inicia-se com sua chegada à redação e termina com sua ida para casa. Todos os outros aspectos da sua vida, como família, amigos e outras atividades ficam “suspensos” pelo tempo do trabalho. Neste sentido, à luz das idéias do pensador A. Schutz(1979) poderíamos afirmar que os jornalistas estariam totalmente voltados para o trabalho. O jornalista estará o tempo todo dividido entre a durée, ou seja, o tempo interior e subjetivo, e o tempo exterior, medido pelos relógios.

O trabalho ocupa um grande espaço na vida destes jornalistas, ele adquire uma enorme dimensão em seu modo de viver, o que ficou evidente não apenas nas entrevistas, como nos longos períodos em que permaneci nas redações e quando acompanhei três jornalistas ao longo de um dia inteiro. Esta ocupação os obriga a circular pela cidade, apurando notícias sobre os mais variados temas, principalmente os repórteres de cidade e/ou local. Com um dos repórteres estive em uma delegacia de polícia no início da tarde e no final do dia fui para uma assembleia de ferroviários. Faz parte também desse ofício desenvolver um certo sentimento de familiaridade com todos os locais e acontecimentos, como demonstrou meu informante ao entrar na delegacia com desenvoltura e em clima de intimidade. O que me lembrou a definição de R. Sennett(1998) de cosmopolita como “homem que se movimenta despreocupadamente em meio à diversidade, que está à vontade em situações sem nenhum vínculo paralelo com aquilo que lhe é familiar. Por causa dos novos hábitos de se estar em público, o cosmopolita tornou-se o homem público perfeito”(Sennett, 1988, p.31). E eu arriscaria afirmar que o jornalista seria o cosmopolita perfeito.

A noção de paixão em relação à profissão é outro ponto a ser destacado. Paixão surge com força e de forma repetitiva em quase todos os depoimentos. Ela é o sentimento que associam ao trabalho como jornalista. Paixão que costuma ser pensada como um sentimento da ordem do afetivo, do emocional. Percebe-se que a carreira é emparelhada com o objeto de amor, e pode ser tomada como tal. Com ela se estabelece uma relação que sai da esfera do racional e da sobrevivência e atinge a dimensão do prazer. Para muitos, esse sentimento é uma exigência ou mesmo condição para um bom desempenho profissional. Não foram poucos os que disseram que sentiam uma enorme paixão pelo trabalho, que não se viam fazendo outra coisa e que, apesar dos baixos salários e da carga horária excessiva, não largariam o jornalismo, vivido também como um vício.

E se meus entrevistados vão lançar mão do termo paixão, utilizarei a idéia de adesão (Becker,1977, p.207) para tentar compreender seus envolvimentos e relação com a profissão. Adesão significaria, portanto, um envolvimento da profissão na vida da pessoa de tal forma que levaria a uma sujeição dos outros aspectos da vida. Geraria uma visão de mundo particular, não sendo condição essencial um sentimento emocional. Ou seja, a adesão não se dá apenas em função do número de horas que se trabalha. O que está em jogo é o fato de estarem vinculados ao trabalho além e independentemente do tempo gasto em seu exercício. Esta adesão implicará numa percepção da realidade através do jornalismo. Pierre Bourdieu afirma que “os jornalistas têm óculos especiais a partir dos quais vêem certas coisas e não outras.”(Bourdieu, 1997, p.25).

Seguindo nesta direção, poderia dizer que os meus informantes “usam” estes óculos na medida em que se relacionam com os fatos e com o mundo a partir da idéia de notícia. Penso que a profissão funciona como estas lentes que estão mediando a realidade. O mundo passa a ser entendido como um “grande jornal” e precisa ser classificado, selecionado e apresentado como notícia. Uma repórter comentava comigo que, em várias ocasiões fora do trabalho, como festas, por exemplo, se dava conta que estava conversando com outras pessoas como se estivesse trabalhando. Apurando informações, checando dados, curiosa pelas novidades. Pensando sempre que aquela conversa “renderia” uma matéria. Aliás, a categoria nativa “render” é usada constantemente quando os jornalistas se referem a um fato que pode virar uma matéria de jornal.

3-DOIS JORNALISTAS NO CINEMA

A indústria cultural e particularmente o cinema são um campo privilegiado de produções simbólicas e mitos modernos. E o jornalista foi e continua sendo protagonista e tema de diversas películas ao longo da história do cinema1. É possível afirmar que o cinema colaborou com a construção de uma imagem, ou melhor, de representações do jornalista. Herói e bandido estiveram presentes em diferentes filmes e períodos. O vilão é representado pelo profissional que não mede esforços para conseguir seus objetivos e dar um “furo” de reportagem. Sem caráter e trafegando pelo submundo do crime, ele não hesita em colocar sua carreira na frente de tudo e todos. O herói identifica-se com os valores do mundo público e defende a verdade, a democracia, o bem comum. Nesse sentido pode-se dizer que o jornalista surge como o herói urbano do século XX. Não é à toa que Clark Kent, o Superhomem. é jornalista. Entendo aqui herói como Helal(1998). Aquele que ultrapassa os limites possíveis de um determinado contexto social e pessoal, significando muitas vezes “glória” para uma determinada sociedade. Todos os grupos sociais de alguma forma fabricam seus heróis.

No filme No silêncio da cidade do cineasta austríaco Fritz Lang a importância do mundo urbano está presente desde o título em português ou em inglês While the City sleeps. O enredo trata da disputa pelo poder dentro do jornal Sentinela de Nova York, cujo proprietário acaba de falecer. O herdeiro do jornal coloca como missão desvendar uma série de assassinatos que vem acontecendo na cidade praticados por um criminoso denominado pela imprensa “o assassino do batom vermelho”, por matar jovens mulheres. Os quatro concorrentes são: Mark Loving, diretor da agência de notícias; Kyne Griffith, redator chefe; Harry Kritzer, chefe do departamento de fotografia e Edward Mobley, o editorialista. Mobley, um jornalista sem grandes ambições, se esquiva inicialmente da competição, mas sua noiva pede a ele que ajude Loving, que lhe parece o mais honesto dos participantes. O filme narra o desenrolar da disputa, o envolvimento cada vez maior de Mobley – que chega a criar uma armadilha para o assassino usando sua noiva como isca -, até a descoberta e captura do criminoso e a entrega do cargo de redator-chefe do Sentinela a Mobley como prêmio.

Há vários pontos importantes nesse que é um dos últimos filmes de Lang feito nos Estados Unidos em 1956. Ele pode ser considerado um verdadeiro filme noir e não apenas pelo jogo de claro-escuro, pela luminosidade característica de filmes deste tipo. Um dos aspectos importantes que o tornam um filme noir é o destaque dado aos acontecimentos noturnos e à vida da cidade à noite. É a redação funcionando de noite, são os bares e clubes, os crimes que acontecem e as delegacias de polícia que os jornalistas freqüentam, mais especialmente Mobley que tem estreitas relações com policiais e delegados.

Aliás, esta é uma questão chave na história. O diretor não apresenta seus personagens de maneira maniqueísta e rígida, Mobley – o protagonista da narrativa – aparece com fraquezas e defeitos, como um anti-herói. É este jornalista quem vai, mais do que cobrir os acontecimentos, interferir neles, provocando o bandido e sugerindo estratégias para a própria polícia. Vemos aí, como os interesses pessoais do jornalista, que envolvem a descoberta do criminoso, estão associados aos interesses maiores da própria sociedade, como o fim dos assassinatos que vem chamando a atenção do público e recebendo destaque nos jornais. O assassinato sai do domínio exclusivo da esfera policial e entra na esfera jornalística. É o repórter interferindo na realidade, transformando-a e não com a sua cobertura, mas com a sua influência direta.

Não é por acaso que o prêmio do jornal será dado ao jornalista que descobrir o autor dos misteriosos assassinatos. É o personagem do jornalista sendo construído intimamente ligado ao papel e à função do policial, do investigador, associação freqüente na representação do jornalista no cinema. Ele enfatiza assim que esta é também a missão do jornalista, principalmente se os motivos da busca não são a vaidade pessoal e a obtenção de sucesso, fama e dinheiro, mas ajudar a sociedade na solução de seus problemas. O que, se analisarmos com atenção, é extremamente discutível, uma vez que não é dada esta autorização ao jornalista. Ele não pode representar a lei ou se colocar acima dela quando a justiça ou a polícia não se mostram capazes. Esta imagem do jornalista-investigador ou detetive é uma matriz da idéia emblemática da imprensa como quarto poder.

O envolvimento com a profissão, que denominei de adesão, também aparece com realce no filme – desde o empenho extremo de cada um dos concorrentes em não aceitar limites para conquista do cargo até falas como a de Mobley: “Dia de folga me mata”. Tudo isto só reforça a idéia do jornalista como um profissional em tempo integral, o que gera também dificuldades no seu relacionamento afetivo. A noiva de Mobley, Nancy, se queixa da sua pouca atenção e do seu envolvimento excessivo com o jornal e com as notícias, o que o faz adiar sempre o desejado casamento. Não é à toa que o filme termina com os dois em lua de mel e o telefone tocando do jornal para informar a Mobley que ele foi o vencedor da competição e será o redator chefe do Sentinela.

O contraste da metrópole com a cidade pequena é um dos temas abordados no filme de Billy Wilder. A Montanha dos Sete Abutres conta a trajetória do jornalista Charles Tatum a partir do momento em que chega à cidade de Albuquerque em busca de um emprego. É contratado pelo pequeno jornal local e sofre com a lentidão da cidade e do próprio jornal. Acompanhado de um “foca” parte para fazer uma reportagem fora da cidade, quando no caminho descobre que um homem está soterrado na montanha dos Sete Abutres. Tatum decide transformar aquele fato em um acontecimento de grandes proporções midiáticas, com o objetivo de reconquistar o lugar que havia perdido na grande imprensa devido a sua desmedida ambição. Ele comanda as operações de resgate, estabelecidas a partir de critérios políticos e pessoais, com pouca preocupação com o efetivo salvamento de Leo Mimosa. O desenrolar do processo toma outros rumos e Mimosa morre antes do resgate, o que prejudica os planos de Tatum, que acaba tendo também um desfecho trágico.

Penso que esta obra é um marco na história dos filmes sobre o jornalista e a imprensa. Isto por motivos que vão além da qualidade que caracteriza os filmes dirigidos por Billy Wilder. Na realidade, esta é talvez, a primeira de inúmeras produções cinematográficas que criticaram contundentemente o papel e o poder da mídia nas sociedades contemporâneas. Wilder não poupou o jornalista. O repórter que ele constrói é um indivíduo extremamente ambicioso, sem caráter nem limites, cuja única preocupação é obter o furo jornalístico, e consequentemente seu sucesso pessoal. Não foi à toa que Giba Assis Brasil ao analisar o filme, comentou que sua recepção não foi positiva, nem por parte do público, nem por parte da imprensa. Assis Brasil cita a resenha do jornal Hollywood Reporter: “Um despropositado tapa na cara de duas respeitadas e freqüentemente eficientes instituições americanas- o governo democrático e a imprensa livre. O filme parte do princípio de que os norte-americanos são um bando de bobos, facilmente enganáveis e vítimas de histeria de massa.”(Berger, 2002, p.48)

A montanha dos Sete Abutres expressa a visão crítica de Billy Wilder da sociedade americana e dos meios de comunicação. Penso que a perspectiva de Wilder neste filme em muito se assemelha à idéia de Adorno e Horkheimer(1991) da indústria cultural como uma indústria da diversão cuja ideologia é o lucro. Quando o filme exibe o “circo” criado em torno da montanha, formado por visitantes das mais diversas regiões do Estados Unidos, que vieram “participar” e se divertir com o salvamento de Leo Mimosa; assim como quando Charles Tatum decide que o resgate do mineiro será feito com uma broca, o que levará mais tempo e permitirá aos envolvidos – ele, o xerife e a esposa de Leo – lucrarem mais, é inevitável a associação com os dois autores. Adorno e Horkheimer não acreditam em saída para a indústria cultural.

Os jornais visam o lucro e os jornalistas buscam o furo e a notoriedade. E quanto a isso não farão concessões. Por outro lado, o filme faz uma crítica à sociedade consumidora destes produtos, destas notícias sensacionalistas redigidas com o único objetivo de vender jornal. O diretor intensifica seu ponto de vista no desenrolar da trama, onde tudo é exagerado. O repórter interpretado por Kirk Douglas, um jornalista inteiramente obsecado pela profissão, não tem seus defeitos amenizados pelo filme.

Um aspecto interessante revelado pelo filme é a conceituação de notícia. Ao lado da conhecida expressão “Good news is no news”, Tatum afirma que toda notícia para ser atraente, precisa ter interesse humano, e é isso que ele busca criar com o soterramento. Durante os dias em que Leo Mimosa esteve soterrado as notícias sobre ele foram mercadorias em alta com um público imenso interessado nelas. E Tatum sabe, mais do que noticiar, fabricar a notícia, embora afirme ”Eu não faço as coisas acontecerem, só escrevo”. Não é o que vemos na tela. Ele transforma o espaço real – a Montanha dos Sete Abutres – num espaço simbólico.

Há inúmeros conceitos de notícia. Dois deles enriquecem a análise das práticas profissionais presentes nos filmes e discursos. Ciro Marcondes Filho define notícia como “informação transformada em mercadoria com todos os seus apelos estéticos, emocionais e sensacionais(…)”(Marcondes Filho, 1986, p.13). Essa leitura da notícia a vincula diretamente à lógica capitalista e portanto à produção do noticiário adequado aos padrões do mercado. R. Park(1967)salienta que a função da notícia é orientar o homem e a sociedade num mundo real. E quando isso acontece a sanidade mental dos indivíduos está preservada. E ela é uma das mais antigas e elementares formas de conhecimento que não está relacionado com o passado nem com o futuro, mas apenas com o presente.

Diferentemente do que ocorre em No silêncio da cidade, ainda que Mobley interfira no acontecimento – a série de assassinatos – sua influência é moderada e extremamente positiva em relação ao desfecho da narrativa. Sabemos que Tatum em A montanha dos sete abutres não enterrou Leo Mimosa, mas tomou a frente dos acontecimentos e adiou ao máximo seu salvamento, provocando sua morte. O jornalista transformou aquele povoado no meio do deserto em um “parque de diversões”, comandando ele próprio o espetáculo.

4-CONCLUSÃO

É interessante analisar o jornalista a partir de duas visões distintas. Primeiro, ele exerce a função de homem público, preocupado com o funcionamento da sociedade e com o bem comum. Não foram poucos os entrevistados que destacaram a função transformadora do jornalista. E o quanto esta função foi um dos fatores na escolha desta profissão. De outro ponto de vista também emerge a figura do jornalista como um ser moderno, blasé e voltado para a sua intimidade e realização. Através dos discursos, o que se depreende é que o jornalista vive uma tensão entre a vida privada e a pública. A pública expressa e representada por sua atuação profissional; e a vida privada através da família e dos amigos.

Por outro lado, esta profissão exige de quem a escolhe um envolvimento e uma dedicação particulares e pelo fato de significar bem mais do que uma atividade ou emprego na vida de seus profissionais, ela gera um estilo de vida e uma visão de mundo específicos. Cada um dos entrevistados da pesquisa, assim como os protagonistas dos dois filmes discutidos, apresenta um estilo de vida totalmente impregnado pela profissão. Eles têm suas rotinas determinadas pelo trabalho, seus hábitos de consumo de bebida e cigarro associados à tensão da profissão, suas relações afetivas profundamente contaminadas pela carreira, seu tempo completamente controlado pelo jornal. Ainda que sejam fruto de sociedades modernas e individualistas, não aparecem como donos do seu tempo, mas subordinados à engrenagem da redação e da notícia, trabalhando de dia e de noite, na intensidade do fato.

Quanto à visão de mundo específica dos jornalistas, creio que os profissionais pesquisados demonstram em seus discursos esta particularidade que é ilustrada pelos personagens de No silêncio da cidade e A montanha dos Sete Abutres. Mobley está preocupado com a captura do assassino dentro da lógica jornalística e da influência da imprensa nesta captura; Tatum não consegue olhar para Leo Mimosa como uma vítima de um acidente, mas como o elemento-chave para a construção de uma grande reportagem. Nos dois casos apurar a notícia, transformá-la em realidade através das matérias é a possibilidade de estar no mundo, de ganhar visibilidade.

Penso que o jornalista com seu dia-a-dia agitado, seu envolvimento com fatos diversos e sua possibilidade de interferência na realidade continuam fascinando os realizadores. Se fosse possível fazer uma análise quantitativa com as profissões mais presentes no cinema, perceberíamos que os jornalistas e, mais recentemente, os advogados são os preferidos. Esta construção do herói está muito ligada à relação do jornalista com a profissão. Herói é também aquele que esquece de si, das suas necessidades pessoais, de seus problemas particulares em função de uma causa maior, nobre. O jornalista ideal, enfatizado nos depoimentos e mostrado nos dois filmes, é aquele profissional de dedicação integral ao trabalho e à notícia. Com caráter ou não, com fins escusos ou não, neles vemos a apuração da notícia acima de tudo.

5-REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

ADORNO, T. & HORKHEIMER, M. Dialética do esclarecimento. RJ: Jorge Zahar, 1991.

BECKER, Howard. “Notes on the concept of commitment”. IN: BECKER, H. Sociological Work, method and substance. Chicago: Northwestern University, 1977.

BERGER, C.(org). Jornalismo no cinema. Porto Alegre, Ed.UFRGS, 2002.

BOURDIEU, P. Sobre a televisão. RJ: Zahar, 1997.

DA MATTA, R. A casa & a rua. RJ: Guanabara, 1987.

HELAL, R. “Cultura e idolatria: ilusão, consumo e fantasia”. IN: ROCHA, E.(org) Cultura e imaginário. RJ: Mauad, 1998.

MARCONDES FILHO, C. O capital da notícia – jornalismo como produção social da Segunda natureza. SP: Ática, 1986.

MARTÍN-BARBERO, J. “Em busca do sujeito da recepção”. IN: Comunicações e Artes, ano 15, nº 26, julho-dezembro, 1991.

PARK, R. On social control and collective behavior. Chicago: The University of Chicago Press, 1967.

PARK, R. “La ville comme laboratoire social” IN: GRAFMEYER, Y. & JOSEPH, I.L´ Ecole de Chicago. Paris, Aubier, 1990.

SCHUTZ, A. Fenomenologia e relações sociais. RJ: Zahar, 1979

SENNETT, R. O declínio do homem público. SP: Companhia das Letras, 1988

SIMMEL, G. “A metrópole e a vida mental” IN: VELHO, Otavio(org). O fenômeno urbano. RJ: Zahar, 1979.

TRAVANCAS, I. S. O mundo dos jornalistas. SP: Summus Editorial, 1993.

WIRTH, L. “O urbanismo como modo de vida” IN: VELHO, Otavio(org) O fenômeno urbano. RJ: Zahar, 1979.

Um comentário sobre “O jornalista como profissional paradigmático da modernidade”

  1. Pingback: Hoje: Reflexão sobre o jornalismo; Covardia contra os bombeiros; Aécio Neves e Lula « GBlog

Deixe uma resposta