É a crônica da derrota anunciada para um desfecho que está aí. Talvez daqui a 40 anos a Globo, vertendo lágrimas de crocodilo, volte a reconhecer que “erramos” ao patrocinar um golpe midiático-parlamentar-judicial.
De Salvador-Bahia – Dificilmente uma pessoa independente e medianamente esclarecida deixará de reconhecer que Dilma Rousseff não cometeu o chamado crime de responsabilidade no exercício da Presidência, motivo claramente expresso na Constituição para que o impeachment da presidenta seja realmente impeachment e não golpe.
Ninguém, a não ser os que tentam ainda se esconder sob o manto da hipocrisia, diz levar a sério essa coisa de “pedalada” e manobras contábeis. Ninguém se atreve a abrir a boca para dizer que a presidenta roubou ou que é corrupta, muito ao contrário. Não se coloca em dúvida sua seriedade e honestidade.
Mas só a presença do supremo juiz Lewandowski sentado naquela cadeira da presidência do Senado já diz, simbolicamente, do endosso da chamada Suprema Corte ao cognominado “rito constitucional” do impeachment, em conformidade com a narrativa criada pela Globo e seus cúmplices dos monopólios da comunicação.
(Mesmo que tal narrativa não tenha convencido grande parte da intelectualidade brasileira, inclusive do meio jurídico; e, especialmente, tenha sido contestada por importantes meios da comunicação hegemônica dos Estados Unidos e da Europa).
É o caso de se perguntar: e o crime de responsabilidade? Não é justamente o Supremo Tribunal Federal, o STF, o órgão encarregado constitucionalmente de zelar para que a Constituição seja respeitada? Não já passou a hora e a vez do STF se manifestar respondendo esta singela e crucial indagação: é golpe ou não é? Quantas vezes o STF já foi provocado e deixou escapar as oportunidades de esclarecer tal indagação?
Que eu visse, explicitamente, publicamente – fora dos autos, como costuma fazer o ministro Gilmar Mendes em toda e qualquer campanha ou polêmica que pinta na mídia deste país -, somente Marco Aurélio Mello teve coragem de responder esta singela e crucial indagação: disse que é golpe, naquelas suas retórica e dicção inconfundíveis, duma maneira que qualquer brasileiro medianamente inteligente pode compreender.
Atrevido este ministro: como ousa contrariar uma narrativa e um imaginário criados e propagandeados pela Globo & Cia? Os outros nove ministros – dou Gilmar Mendes por impedido ideologicamente – sonhariam manifestar semelhante atrevimento?
E a maioria dos senhores senadores e senhoras senadoras? travestidos de juízes, tão amesquinhados e pequeninos diante da história… (que me perdoe uma minoria resistente, cuja bravura está consignada na cobertura da blogosfera progressista).
Tal maioria, que se guia basicamente pelos ditames da corrupção e do oportunismo, vai muito à vontade – e é mesmo conteúdo elementar – no discurso da Globo & Cia.
Combate à corrupção?! Só o império da hipocrisia pode tentar encobrir tamanha mentira quando se persegue gente como Lula, Dirceu e Dilma, enquanto se passa a mão na cabeça de gente como Cunha, Temer, Aécio e Serra.
O desfecho se dá de hoje para amanhã (desta terça para quarta). E não deverá ser outro, pois o chamado povão, a maioria dos trabalhadores, os verdadeiros perdedores não estão nem aí. Desinformados, ludibriados e desmobilizados. Nesta segunda, dia 29, a manifestação “Fora Temer” em Salvador-Bahia, na região do Iguatemi, atraiu apenas 250 pessoas.
Creio que os golpistas vencerão mais uma, como venceram em 1954 contra Getúlio (refiro-me ao Getúlio presidente nacionalista, não ao Getúlio ditador responsável por crimes de lesa humanidade) e em 1964 contra Jango, também sob a bandeira mentirosa do combate à corrupção. (A verdade é que não tivemos força e competência para reeditar uma campanha da legalidade, como o fez Brizola em 1961).
A vitória, no senso comum, mesmo maculada por misérias humanas e vilanias, tem o dom momentâneo de aquecer o coração e apaziguar a consciência.
Talvez daqui a 40 anos a Globo, vertendo lágrimas de crocodilo, volte a reconhecer que “erramos” ao patrocinar um golpe midiático-parlamentar-judicial; como o fez recentemente com referência à última ditadura, a “militar”, a iniciada com o golpe de 1964.
