
Por Fabio Nogueira e Celso Sanchez, (*)
Como se não bastasse ser a nação mais pobre das Américas, o Haiti sofreu outro duro golpe da natureza. Um furacão devastou todo o país, que não possui quase ou nenhuma estrutura para se reerguer devido ao outro terremoto que assolou a nação em 2010. Calcula-se que o número de mortos do terremoto ultrapassou 300 mil vítimas, que hoje somam-se às vítimas do furacão Matthew.
Os desastres naturais na região do Caribe e sul dos Estados Unidos, infelizmente não são raros. A área é de extrema sensibilidade ambiental. Há sem dúvida uma intensificação de eventos climáticos extremos como consequência direta do aquecimento global e da cultura de consumo baseada no carbono. Tal evento evidencia a desigualdade dos efeitos desastrosos que incidem desproporcionalmente sobre os mais pobres, tornando-os mais vulneráveis ambientalmente. O Haiti além de vítima de terremotos e furacões, é também vítima da carência de políticas e ações concretas de prevenção de acidentes e riscos. O país é antes de tudo vítima de uma sociedade global que o considera invisível. Um país sem consumidores, simplesmente não existe. Por estar descartado do mercado global, não veremos o facebook inundado de “hastags pray for Haiti”.
Há mais de 200 anos esta nação construída por mãos de homens e mulheres que sonharam e lutaram pela liberdade, vem sendo massacrada pelas ex-colônias e aliados dos franceses. O Haiti não é um país miserável à toa, houve um processo histórico que promoveu a primeira rebelião liderada por homens e mulheres escravizadas e pôs por fim ao domínio da França na Ilha do Caribe. Embalada pela Revolução francesa, não cabia aos moldes das colônias. A opressão era forte, mas mesmo assim o Haiti venceu a mais poderosa nação imperialista de seu tempo: a França, apesar das traições, de Napoleão e todo tido de tiranos, genocidas e párias da época. Veja aqui um programa sobre a história do país.
A Revolta dos negros haitianos serviu de inspiração para a Revolta dos Malês, que foi realizada por escravos de origem Islâmica em Salvador, capital da Bahia. Ao contrário do que pensavam, esse grupo de intelectuais islâmicos negros tinha o domínio da leitura e da escrita ( para ler o Alcorão tinham de ser alfabetizados e estudar nas escolas especializadas). A Revolta durou poucos dias, porém deixou os senhores de engenho apavorados com medo dos levantes negros. A luta de Zumbi não tinha acabado.
Voltando ao Haiti. A independência foi sangrenta, e o colonizador Francês foi expulso e humilhado. Todavia, como vingança o governo da França inconformado com a derrota transferiu toda dívida que contraiu com os norte-americanos e puniu economicamente os haitianos. A guerra econômica perdurou por todo século XX e entrou no século XXI fazendo suas vítimas silenciosas, aniquilando sonhos, projetos de futuro, desejos e deixando consequências enraizadas no solo haitiano. O resto da história o tempo se encarregou de fazer.
Por mais de três décadas a família Duvalier foi mantida pelas potências franco-americanas. Os direitos humanos eram e são constantemente violados. A oposição não tinha vez, a família recebia regalias dos dois governos, enquanto os mesmos faziam vista grossa às violações aos cidadãos. Afinal de contas, são aliados das nações democráticas e tudo é permitido em nome da “democracia” e “liberdade” mesmo através de banhos de sangue de inocentes. E foi neste contexto de caos social que o Haiti mergulhou após sucessivas mudanças políticas na entrada da MINUSTAH (Missão das Nações Unidas para Estabilização do Haiti, capitaneada pelo Brasil).
Claro que o país não errou em escolher a independência por via armada, não havia outra saída. Mas, por isso paga até hoje um preço cruel por esta escolha. A colônia humilhou a matriz, e isso é inadmissível.
Enquanto o Haiti for o invisível palco de tragédias políticas e naturais, os aproveitadores de plantão, os usurpadores e oportunistas, vão aparecer como bons samaritanos. Mesmo com parcos recursos o país não precisa de tropas militares da MINUSTAH, precisa sim de necessidades básicas comuns ao ser humano: saneamento básico, educação, saúde e infra estrutura. Mas antes de tudo precisa de dignidade, respeito e solidariedade. O Haiti precisa de todas e todos nós.
Nós do GEASur estamos apoiando as ações do coletivo de mulheres afrocaribenhas, COMUNA CARIBE, de Porto Rico, que atua no Haiti
Dedico este texto às vitimas do furacão Mathew, e pedimos o fim da MINUSTAH
(*) Fábio Nogueira é estudante de história da Universidade Castelo Branco e Militante da Educafro. Celso Sanchez Professor de Biologia da UNIRIO e Membro do Geasur
