
“Escutem! Um homem saiu para semear… (Mc 4, 3)
A fim de que o povo compreendesse melhor a sua mensagem, Jesus Cristo costumava recorrer às Parábolas, ou seja, narrativas alegóricas que transmitiam uma mensagem indireta, por meio de comparações ou analogias. Sempre utilizando elementos familiares à cultura e aos costumes do seu povo, o Mestre de Nazaré usa a Linguagem Literária (conotativa ou figurada) para falar a respeito de assuntos muito profundos; mas de forma leve, descontraída e informal. Uma de suas parábolas mais conhecidas é, exatamente, a “Parábola do Semeador”, presente nos Evangelhos de Mateus, Marcos e Lucas, de forma semelhante ou paralela e, por isso mesmo, dito “Sinóticos”.
Às multidões, Jesus falava sempre com Parábolas, mas quando estava a sós com seus discípulos, costumava explicar o significado de cada palavra ou frase. Seguir a Jesus, e ouvir o seu Santo Espírito, mellhor dizendo, ser seu Discípulo ou sua Discípula, ajuda bastante a ficar, digamos assim, “por dentro” da sua missão. De modo geral, os que não o seguiam de verdade ficavam meio que “por fora”, achando tudo muito confuso e sem compreender bem aquelas mensagens. Será que essa situação também se repete nos dias de hoje?…
Entendendo que o discipulado parte sempre da ESCUTA – uma forma mais elaborada e profunda de OUVIR – Jesus inicia esta história pedindo que todos “Ouçam bem: certo homem foi semear” (Mc 4, 3), e ainda acrescenta ao final da parábola: “Quem tem ouvidos para ouvir, ouça!” (Mc 4, 9). Na verdade, o SEMEADOR por excelência é o próprio Jesus Cristo, que SEMEIA a Palavra da Vida e se estivermos, de fato, “Nele, com Ele e por Ele” poderemos também ser esses “Semeadores” do Reino de Deus. Vale a pena prestar atenção a alguns termos indefinidos: “Um homem…” ou “Certo homem…”, que bem poderão se referir a cada um de nós (de forma particular) e a todas as pessoas, de modo geral. Somos, portanto, seguidores e imitadores do Grande Semeador – nosso guia e referência maior para o ato de “Semear” vida afora: “Meu modelo é Jesus Cristo”, já nos dizia Pierre Bonhomme, em seus textos tão inspirados.
Semear é um ato de Amor – implica movimento – a partir de uma “Saída”, ou desinstalação do comodismo: “…saiu para semear” (Mc 4, 3), pois o Amor é sempre uma ação concreta, é atitude firme e constante; não se tratando de meras palavras, discursos, teorias, nem mesmo de práticas religiosas, pois segundo o próprio Jesus: “Nem todo aquele que me diz ‘Senhor, Senhor’, entrará no Reino do Céu”, e ainda acrescenta: “Só entrará aquele que põe em prática a vontade do meu Pai que está no céu” (Mt 7, 21). O mesmo Pai do Céu que chama Abraão a sair da sua terra natal, em busca de uma terra prometida; chama também todos os outros patriarcas e profetas; chama, inclusive, seu próprio Filho Amado – o genuíno Semeador – a lançar as sementes do Reino… E continua nos chamando a todos e todas para “semear as sementes do amor”, conforme nos diz Gilvanisa Maia, em sua canção “A Semente”:
“O meu Pai me convidou
pra semear a semente do amor.
E eu ouvindo seu chamado respondi:
– Meu Pai, aqui estou!”
Este “Sair” não se restringe apenas a percorrer distâncias geográficas, mas, sobretudo, a abandonar (largar de vez) o nosso egoísmo (egocentrismo), a nossa indiferença e acomodação em relação a nós mesmos, à vida e ao mundo. Buscar o nosso coração é buscar a nossa própria essência.Segundo o pensandor francês Thomas Merton, “A distância mais longa é aquela entre a cabeça e o coração”. Não é mesmo fácil “sair” de nós mesmos (as), deixando as “multidões” e este mundo de “aparências”, em busca de autenticidade e autoconhecimento, numa procura incessante e constante de vida interior. Na verdade, esta busca do próprio EU é uma espécie de parto: muitas vezes gera dor, sofrimento, angústia…, mas vale a pena porque vai nos surpreendendo no dia a dia com as novidades da vida, o valor das pequenas coisas e dos simples gestos.
Parece mesmo parodoxal, mas na verdade, a “saída de si” implica numa “volta a si”. Trata-se de sair da alienação a respeito de si mesma, de si mesmo, nessa busca persistente de SER e EXISTIR como pessoa humana singular, cuja “essência” vai muito além das “aparências”; comparável a um simples “grão de mostarda”, que desabrocha em esplendorosa árvore, onde “os pássaros do céu podem fazer ninhos em sua sombra” (Mc 4, 31-32). Esta passagem bíblica apresenta a grandiosidade do Reino de Deus contida numa simples e humilde semente, aliás, segundo o próprio Jesus, “a menor de todas as sementes da terra”. Sendo assim, não basta simplesmente ver e ouvir. “Se alguém tem ouvidos para ouvir, ouça!” (Mc 4, 23). É preciso abrir os olhos da alma e do coração para ENXERGAR além da aparente “pequenez”, e também ouvidos para ESCUTAR o que realmente importa.
A Parábola do Semeador nos leva a profundas reflexões a respeito do que realmente importa em nossas vidas. As sementes do bem, da justiça, da verdade, da fraternidade e de todas as outras virtudes já contêm em si mesmas a beleza e a grandiosidade do Reino da Paz; no entanto, precisam ser lançadas (semeadas) constantemente, a começar pelo nosso próprio chão ou terreno. O AMOR consiste neste “SEMEAR” paciente e persistente, e num “CUIDAR” perseverante desse terreno do nosso ser. Quando nos abrimos ao “amor”, estamos possibilitando o germinar do bem em nós mesmos, nos outros e no mundo, tornando assim o nosso terreno sempre fecundo e bastante produtivo. Neste caso, a Palavra-Semente sempre vinga e rende muitos e muitos frutos; quando, ao contrário, agimos com “desamor”, deixando-nos levar por nossos instintos egoístas, colaboramos para a infertilidade do solo. Sendo assim, teremos um terreno frágil, fraco, vulnerável, cujas sementes “caíram à beira do caminho e os passarinhos foram e comeram tudo” (Mc 4, 4).
Nosso indiferentismo e frieza diante da vida e do mundo poderão gerar também em nós um terreno pedregoso, árido e sem profundidade, colaborando assim para o surgimento de mais um campo infecundo, comparável a um outro terreno espinhoso, sufocante e impenetrável por causa das “preocupações do mundo, a ilusão da riqueza e todos os outros desejos, que sufocam a Palavra, e ela fica sem dar fruto” (Mc 4, 19).
Felizmente, nosso Deus-Semeador tem paciência conosco, não nos julga pelas “aparências”, pois conhece a fundo a nossa base ou fundamento e sabe que existe, no mais profundo de nós mesmos, um terreno fértil, uma terra boa, capaz de gerar frutos que compensem a escassez dos outros terrenos que não deram certo: “…aqueles que receberam a semente em terreno bom são os que ouvem a Palavra, a recebem e dão fruto: um dá trinta, outro sessenta e outro cem por um” (Mc 4, 20).
Por fim, esta Parábola nos leva a meditações profundas e constantes indagações: Que tipo de terreno somos nós? Qual “terreno” tem sido cultivado em mim com mais empenho e dedicação? Estou disposta(o) a procurar o solo fértil que há em mim e nos outros? Tenho me dedicado a “semear”, melhor dizendo, a amar? Que tipos de “sementes” guardo no celeiro do meu coração? Desejo mesmo “sair” em busca de mim mesma (o) e dos outros? O que aprendo com o “Grande Semeador”? Qual minha resposta ao seu projeto de vida, amor, justiça e paz?

“Vou sair pelo mundo semeando,
em todo chão uma semente eu vou plantar.
E vou pedir ao Meu Pai que sempre mande
mais operários pra semente cultivar.”
(A Semente, Gilvanisa Maia)
PerYaçu
“Semeadora da Esperança”
Bananeiras-PB: 23 de janeiro de 2022
Vera Periassu (PerYaçu) é Educadora Popular, professora aposentada da UFPB(Campus III). Escreve Poesias, Contos, Crônicas e também Cordel.
E-mail: veraperiassu@gmail.com
