O Amor é Presença – Lc 1, 26-38

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Aquele que vai nascer será chamado santo, Filho de Deus.”

Nosso Deus – Pai, Filho e Espírito Santo – ou seja, a “Santíssima Trindade”, é indefinível e inexplicável, porém há uma expressão que revela e resume toda a Sua grandeza e bondade: DEUS É AMOR! Com certeza, podemos afirmar que Jesus é o Amor em Pessoa, e vem habitar entre nós, porque o Amor é Presença e se faz presença. Segundo São João Evangelista, não se ama apenas com palavras, mas com gestos e atitudes concretas: “Filhinhos, não amemos com palavras nem com a língua, mas com obras e de verdade.” (1Jo 3, 18). Em nossa ótica cristã, há três questões importantes que poderão nos ajudar a compreender, um pouquinho melhor, toda esta história de AMOR:

  • Por que Jesus se encarna entre nós?
  • Para que Jesus se fez (faz) presença entre nós?
  • Como Jesus se revela entre nós?

POR QUE JESUS ENTRE NÓS?

À primeira pergunta, poderíamos responder, de imediato, com a seguinte passagem bíblica: “Porque Deus amou de tal forma o mundo, que entregou o seu Filho único, para que todo o que Nele acredita não morra, mas tenha a vida eterna.” (Jo 3, 16). Deus é Amor e não se esquece de nós! Em Isaías, este amor é comparado ao de uma mãe, a partir da seguinte indagação: “Mas pode a mãe se esquecer do seu nenê, pode ela deixar de ter amor pelo filho de suas entranhas? Ainda que ela se esqueça, eu não me esquecerei de você.” (Is 49, 15).

Nesta importante história do amor de Deus por nós, há dois verbos muito importantes: RESGATAR (libertar, salvar, recuperar) e REDIMIR (reparar, retratar, remir), porque Deus quer salvar a todos: “Ele quer que todos os homens sejam salvos e cheguem ao conhecimento da verdade. Pois há um só Deus e um só mediador entre Deus e os homens: Jesus Cristo, homem que se entregou para resgatar a todos.” (1Tm 2, 4-5), por isso, Jesus vem para nos redimir e resgatar para a verdadeira vida; pagando um alto preço com a sua própria vida.

É natural que nos perguntemos: Mas, que tipo de Pai é este, que envia seu próprio Filho para morrer?… Acontece que Deus (o Pai) não envia o seu amado Filho para “morrer”, mas para “amar” e nos ensinar a “amar” de verdade. A morte, a dor e o sofrimento são consequências deste grande ato de amor. Aqui na terra, como dizia São Francisco de Assis: “O Amor não é amado!”. Jesus Cristo e todos os seus seguidores (os santos) deram a vida por amor, foram perseguidos, maltratados, desprezados, banidos da sociedade e, muitas vezes, da própria família e igreja. Quem ama de verdade, jamais será compreendido e aceito, pois, infelizmente, ainda prevalece no nosso mundo o projeto da maldade, que gera egoísmo, ambição, arrogância, autossuficiência e negação do próprio Deus. O “Projeto Original” do Reino de Deus é de Vida Plena, Liberdade, Amor, Justiça, Paz, Fraternidade e tudo de bom que gera a verdadeira felicidade.

A vinda de Jesus é o ato da mais pura solidariedade para conosco, enchendo os nossos corações de esperança, pois traz a feliz e BOA-NOTÍCIA (Boa-Nova): Há SALVAÇÃO sim! Este projeto do Reino do Pai pode ser “restaurado” (recuperado) por Jesus e todas as pessoas de boa vontade; substituindo aquele do egoísmo, ambição, orgulho, presunção e autossuficiência (pecado original dos nossos primeiros pais), e que não terá a palavra final, não prevalecerá sobre o bem, está fadado ao fracasso! Este projeto do mal começa a ser desfeito no momento mesmo em que nasce porque, por sua bondade, amor, misericórdia e compaixão, nosso Deus já providencia a nossa salvação eterna, enviando-nos o seu próprio Filho, cuja encarnação é o maior e mais excelso ato de amor de todos os tempos.

Em vista desta encarnação (presença viva do Emanuel: Deus conosco), uma Nova Eva (Maria Santíssima) é preparada e preservada do pecado original, para gerar o Novo Adão (Jesus Cristo), Aquele que nos resgata para a verdadeira vida. “E a Palavra se fez homem e habitou entre nós.” (Jo 1, 14). Jesus vem, portanto, “resgatar” (recuperar) o projeto original do Pai: VIDA plena para todos e LIBERDADE verdadeira. “Eu vim para que tenham vida, e a tenham em abundância.” (Jo 10, 10), pois “Que adianta ao homem ganhar o mundo inteiro, se perde a própria vida?” (Mc 8, 36), vida esta que não se restringe apenas à existência aqui na terra, mas a um estado de espírito que gera Paz e Alegria verdadeiras.

Somente através de Jesus – CAMINHO, VERDADE e VIDA – poderemos retornar à Casa do Pai, aderindo ao seu Projeto de Vida, Amor, Justiça e Paz (Projeto do Reino. Somos Cidadãos do Infinito e, aqui na terra, Peregrinos, movidos pela Esperança de retornarmos à nossa verdadeira morada. Já estamos, digamos assim, “no caminho” da VIDA ETERNA, numa de suas fases, e ainda não em plenitude. Neste processo, por enquanto, temos o Livre Arbítrio: escolha entre o bem e o mal, possibilidade esta que surge a partir do momento em que houve a ruptura com o Criador; não temos, ainda, aquela LIBERDADE inicial, quando nosso olhar era totalmente direcionado para Deus e para o bem maior. O Amor (Jesus Cristo em Pessoa) vem nos resgatar, portanto, para a “Vida Plena” e a “Verdadeira Liberdade”.

PARA QUE JESUS ENTRE NÓS?

Há mais de 700 anos do nascimento de Jesus (entre 740-686 aC), Isaías já O anunciava: “Pois saibam que Javé lhes dará um sinal: A jovem concebeu e dará à luz um filho, e o chamará pelo nome de Emanuel.” (Is 7, 14). Realiza-se esta profecia (entre 6 e 4 aC): “Tudo isso aconteceu para se cumprir o que o Senhor havia dito pelo profeta: ‘Vejam: a virgem conceberá e dará à luz um filho. Ele será chamado pelo nome de Emanuel, que quer dizer: Deus está conosco.” (Mt 1, 22-23). Este Profeta é conhecido como o “Profeta do Messias”, anunciando não apenas o nascimento, mas também os milagres e até um Programa das atividades de Jesus: “O Espírito do Senhor Javé está sobre mim, porque Javé me ungiu. Ele me enviou para dar a boa notícia aos pobres, para curar os corações feridos, para proclamar a libertação dos escravos e pôr em liberdade os prisioneiros, para promulgar o ano da graça de Javé, o dia da vingança do nosso Deus, e para consolar todos os aflitos, os aflitos de Sião, para transformar sua cinza em coroa, seu luto em perfume de festa, seu abatimento em roupa de gala.” (Is 61, 1-3).

O Profeta Isaías é enviado para proclamar a Boa Notícia da libertação (profecia que se cumpre na pessoa de Jesus): “Jesus foi à cidade de Nazaré, onde se havia criado. Conforme seu costume, no sábado, entrou na sinagoga e levantou-se para fazer a leitura. Deram-lhe o livro do profeta Isaías. Abrindo o livro, Jesus encontrou a passagem onde está escrito: “O Espírito do Senhor está sobre mim, porque ele me consagrou com a unção, para anunciar a Boa Notícia aos pobres; enviou-me para proclamar a libertação aos presos e aos cegos a recuperação da vista; para libertar os oprimidos e para proclamar um ano de graça do Senhor.” (Lc 4, 16-19). Esta passagem constitui, conforme Lucas, o programa de toda a atividade de Jesus. Ele aplica a passagem a si mesmo, assumindo-a no hoje concreto em que se encontra. “Então Jesus começou a dizer-lhes: Hoje se cumpriu essa passagem da Escritura que vocês acabam de ouvir.”

A vinda de Jesus, como ungido do Pai e conduzido por seu Santo Espírito, é para pôr em prática estas atividades profetizadas por Isaías e descritas no Evangelho de Lucas, deixando-nos, portanto, um exemplo a seguir. Estamos aqui, também, para esta missão, que poderia ser resumida numa única palavra: AMAR. Quando nos fala das BEM-AVENTURANÇAS (Mt 5, 1-12) e nos ensina o PAI NOSSO (6, 7-13), Ele nos dá o roteiro seguro de como viver este amor, nesta grande família humana. Todos somos convidados a entrar nesta dinâmica – a dinâmica do Reino de Deus – no entanto, geralmente são os pobres (pobres em espírito) que se abrem a esta novidade de viver, realmente, a fraternidade e a partilha, considerando a todos como irmãos e irmãs. Jesus nos encaminha, portanto, para uma situação de reconciliação e partilha, tornando possível a igualdade, a fraternidade e a comunhão entre todos nós.

COMO JESUS SE REVELA ENTRE NÓS?

O Espírito Santo é Luz e puro AMOR! Ele revela a presença de Jesus entre nós! “Nisto reconhecemos que permanecemos com Deus, e Ele conosco: Ele nos deu o seu Espírito” (1Jo 4, 13).

O Espírito Santo (ou a divina RUAH) revela a presença constante de Jesus entre nós: nos acontecimentos do dia a dia, mas, especialmente, na Santa Palavra, na Comunhão Fraterna e na Pessoa dos Irmãos e Irmãs. A cada Liturgia, repetimos “Ele está no meio de nós!”, confiantes na Sua Palavra: “Eu sou o pão vivo que desceu do céu. Quem come deste pão viverá para sempre.” (Jo 6, 51). Entrar em comunhão com Jesus (na Eucaristia) é também entrar em comunhão com todas as pessoas, especialmente, aquelas mais sofridas. “Ninguém jamais viu Deus. Se nos amamos uns aos outros, Deus está conosco, e o seu amor se realiza completamente entre nós” (1Jo 4, 12).

A prática do AMOR – centro da vida – é o sinal visível da presença de Deus entre nós. Podemos discernir se um projeto (pessoal, familiar, educativo, político, econômico, e mesmo religioso) é realmente bom, se está de acordo com a prática de Jesus, ou seja, de acordo com o Projeto de Deus, que gera e promove a vida digna, a justiça e a liberdade para todos. Não basta dizer que ama a Deus, pois “Se alguém diz: “Eu amo a Deus”, e, no entanto, odeia o seu irmão, esse tal é mentiroso; pois quem não ama o seu irmão, a quem vê, não poderá amar a Deus, a quem não vê.” (1Jo 4, 20).

O AMOR, portanto, gera vida, “entusiasmo” (Deus em movimento dentro de nós), gera ânimo, coragem, alegria verdadeira e nos impulsiona sempre à prática do bem. Foi o que ocorreu, por exemplo, com Maria Santíssima: após a anunciação do anjo, de que seria a Mãe do nosso Salvador, sem medir esforços, mesmo estando grávida, sai por aquela região montanhosa e vai ao encontro da prima Isabel – porque o amor é presença – a fim de com ela se solidarizar, mas, sobretudo, alegrar-se “Minha alma proclama a grandeza do Senhor, meu espírito se alegra em Deus, meu salvador…” (Lc 1, 46-47). Alegria por tantas maravilhas que faz o Senhor, vindo ao nosso encontro, para nos libertar de todo o mal e nos resgatar para a verdadeira vida! Tudo isto porque “O Seu nome é Santo, e sua misericórdia chega aos que o temem, de geração em geração.” (Lc 1, 49-50).

De acordo com a Primeira Carta de João: “Ninguém jamais viu Deus. Se nos amamos uns aos outros, Deus está conosco, e o seu amor se realiza completamente entre nós. Nisto reconhecemos que permanecemos com Deus, e Ele conosco…” (1Jo 4, 12-13). Na verdade, o Senhor permanece “em” e “entre” nós “através” do Amor!

Onde reina o Amor, fraterno Amor,
onde reina o Amor, Deus aí está.”

PerYaçu
“Peregrina da Esperança”
“Irmã do Fraterno Amor”

Bananeiras-PB: 15 de dezembro de 2024

Vera Periassu (PerYaçu) é Educadora Popular, professora aposentada da UFPB(Campus III). Escreve Poesias, Contos, Crônicas e também Cordel.
E-mail: veraperiassu@gmail.com

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