Nota em resposta a Luiz Augusto Candiota

Na quinta-feira passada, dia 21, a Folha de São Paulo publicou o artigo “Agenda capitalista moderna para o Brasil”, assinado por Luiz Augusto Candiota, ex-diretor de política monetária do governo Lula. Em seu texto, curto porém direto, Candiota defende a atuação do Estado apenas na saúde, na educação e na segurança – embora afirme com rigor que caso o setor privado ofereça serviços “superiores” nessas áreas, deve substituir a infra-estrutura estatal. Segundo ele, o Brasil, hoje, precisa de “um capitalismo verdadeiramente competitivo, que estimule a abertura total de nossa economia e promova a produtividade, retirando por completo do Estado a participação em determinados setores”.

Muitos foram os trechos que chamaram minha atenção, mas me parece que um em especial deve ser esclarecido. “Não devemos temer aqueles que dizem ser o capitalismo concentrador de rendas e ampliador de desigualdades”, afirma Candiota. “Não há exemplos concretos de que isso seja verdade em regimes abertos, democráticos e de sociedades pluralistas, ou que tal regime tenha gerado frutos, em seu conjunto, mais prejudiciais do que o que praticamos por aqui”, explica.

Lendo o trecho acima, me pergunto, sinceramente, se a afirmação de Candiota provém de uma ignorância sobre a história mundial e brasileira ou, então, se é fruto do desejo de apoiar uma política econômica que certamente o favorece espetacularmente – ainda que, para isso arrase com a vida de milhões (sim, milhões) de pessoas. Afinal, o resultado de um Estado completamente ausente aliado à desregulamentação do mercado não só não é uma opção democrática, como traz inúmeros revezes às sociedades.

Exemplos claros disso são o Chile de Pinochet, a África do Sul de Mandela e Thabo Mbeki, a Rússia de Yeltsin e Putin, a Polônia do Solidariedade, o Iraque pós-ocupação estadounidense, a China de Deng Xiaoping e a Bolívia das décadas de 80 e 90. Em todos esses países, só para citar alguns, foram implantados conjuntos de políticas econômicas que tinham, em seu cerne, três pontos principais: privatizações em massa (com ampla liberdade às corporações e às remessas de lucros), desregulamentação governamental (fim de subsídios e do controle de preços, enfraquecimento da esfera pública etc.) e cortes profundos nos gastos sociais.

Em todos os casos, no entanto, a adoção dessas políticas não trouxe melhoria na qualidade de vida da população mas, pelo contrário, alianças promíscuas entre grandes conglomerados de corporações e políticos e empresários locais influentes. No fim, o que se observou, de forma geral, foi um aumento da desigualdade social. No Chile, o desemprego alcançou 30% (em comparação com a taxa de 3% no governo Allende) e as crianças não tinham mais leite para tomar nas escolas públicas, já que uma das primeiras medidas da desregulamentação estatal foi cortar o programa do leite. Na Bolívia de Víctor Paz, 28 mil trabalhadores foram demitidos, os salários perderam 70% do seu valor real e o número de bolivianos que usufruíam de seguridade social caiu 61%. Na África do Sul, desde 1994, quando Mandela chegou ao poder, o número de pessoas que vivem com um dólar por dia dobrou, chegando a 4 milhões, enquanto a população que vive em barracos aumentou 50%.

Apesar disso, na maioria dos casos não só a inflação cedeu, como o PIB aumentou e houve crescimento econômico. Não houve, porém, nenhuma distribuição da riqueza. As estatísticas médias da renda per capita escondem, invariavelmente, grupos de milhões de pessoas que vivem abaixo da linha da pobreza e da miséria. E por que? Simplesmente porque quando impera o livre comércio ortodoxo da Escola de Chicago de Milton Friedman (que Deus não o tenha, por sinal), a lógica da maximização dos lucros impede qualquer tipo de avanço social significativo.

E por isso mesmo, aliás, não é democrático. Se existe uma camada ampla e majoritária da população que é empobrecida, logicamente espera-se que essas pessoas votem por políticos que tenham como plataforma a real distribuição da riqueza (o que não tem nada a ver com a cooptação petista dos movimentos sociais). No entanto, em todos esses casos citados, das três uma: ou as demandas populares foram suprimidas por violências cruéis que acabaram com as liberdades civis (Chile, Iraque e China), ou a ajuda financeira internacional engessou os governos eleitos a partir de cartilhas econômicas do FMI, do BID etc. (África do Sul e Polônia) ou políticos populares eleitos, uma vez no poder, cederam a essa promiscuidade corporatista (Bolívia e Rússia). E, quando digo “corporatista”, falo de um Estado policial e corrupto que, aliado às grandes corporações, combate e oprime os trabalhadores, a classe que, afinal, sustenta a economia do mundo inteiro.

Os dados estão todos aí, e vêm de estatísticas de organismos internacionais e de documentos que foram tornados públicos por comitês de investigação. Não, não se trata de teoria da conspiração. Para a jornalista Naomi Klein, trata-se da ascensão do “capitalismo de desastre”.

(*) Ricardo Cabral é jornalista. Entre em contato com o autor pelo @_ricardocabral

Um comentário sobre “Nota em resposta a Luiz Augusto Candiota”

  1. Gostaria de acreditar que os disparates colocados no artigo de Candiota são fruto de mera ignorância, mas não vejo neste nada além de hipocrisia. Exemplos concretos da existência de um capitalismo “concentrador de rendas e ampliador de desigualdades” saltam aos nossos olhos todos os dias, desafiando todas as máscaras e falácias que sustentam-ou tentam sustentar- esse sistema.

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