Nos 55 anos de minha profissão de monge

Queridos irmãos e irmãs,

Hoje é para mim um dia importante. No 08 de dezembro de 1965, na igreja do Mosteiro de São Bento em Olinda, eu fazia meus primeiros votos de monge. Era um tempo de muitas esperanças de renovação para o mundo e para a Igreja. Naquele mesmo dia, em Roma, o papa Paulo VI e todos os bispos católicos do mundo encerravam o Concílio Vaticano II que colocou a Igreja em um caminho de renovação e de diálogo com a humanidade. E eu em Olinda, aos 21 anos, eu compreendia que se eu me comprometia a ser monge seria para testemunhar a espiritualidade ecumênica e humana decorrente do Concílio Vaticano II.

No dia 08 de dezembro, os católicos celebram a imaculada concepção da Virgem Maria, um dogma segundo o qual, tendo em vista os méritos do Cristo na cruz, Maria teria sido concebida sem pecado original. É uma crença nada ecumênica. O dogma foi proclamado pelo papa Pio XI em 1854 e precisa ser totalmente revisto e compreendido de forma nova.

Creio que a imaculada conceição ou concepção de Maria não é um privilégio próprio de Maria. É sim uma graça divina para todos nós.

A cada dia pela manhã, uma pequena equipe faz a nossa oração para a Comunidade Bremém, (Paulo Ricardo, Rose e eu). Na oração de hoje, a palavra de Deus que foi proposta para hoje era justamente a palavra de Paulo aos efésios: “Bendito seja Deus, o Pai de Jesus, nosso Senhor. Ele nos abençoou com todas as bênçãos do Espírito. Ele também nos escolheu antes da criação do mundo para que fôssemos pessoas de amor e de integridade na comunhão com Ele” (Ef 1, 3- 4).

Se é assim todos nós somos agraciados e benditos, purificados e santificados/as desde a nossa concepção. Já nascemos como filhos e filhas do amor e da ternura divina, expressa no amor de um homem e uma mulher e na relação humana que nos formou em uma família, um povo, etc.

Cada vez mais, a nossa profecia consiste em proclamar que a bênção e a pureza original (imaculada concepção) é maior do que qualquer pecado. Temos de crer que a orientação humana para o amor é mais forte do que a inclinação para o mal. Temos de retomar que se toda criatura – todo ser vivo e o próprio universo é reflexo da glória de Deus (salmos 8 e 19), de fato, Deus quis nos criar a nós seres humanos como imagem e semelhança divinas. De certa forma isso não deveria nos levar ao antropocentrismo, porque o universo inteiro tem a assinatura divina (salmo 8) e todas as criaturas refletem a glória, isso é, a presença divina (salmo 19). Enquanto isso o ser humano feito à imagem divina tem se tornar semelhança (isso é alguém que se parece com o modelo). Então, enquanto para as outras criaturas ser reflexo divino já é realidade, no ser humano há uma realidade (imagem), mas para se tornar semelhança mesmo precisa um caminho.

Nas fotografias a gente vê isso. Algumas fotos são tão fieis que a gente logo reconhece a pessoa. E outras fotos, nem parece a gente. A semelhança divina a gente vai se tornando pouco a pouco. É trabalho de toda uma vida. Para nós, a imaculada conceição está menos na concepção no útero da nossa mãe do que na meta de nossa vida: sermos misericordiosos e sermos seres de amor como a Divina Ruah.

Todos nós tivemos e temos a graça de conviver com pessoas que nos ajudam a renovar a fé na bondade fundamental da pessoa humana e de que esse mundo tem remédio e salvação. É bom lembrar-se da aura de bondade e amor que é possível ver em pessoas com as quais convivemos. Quem não conheceu homens e mulheres sempre a destilar esperança na vida e a nos contagiar com generosidade amorosa?

O Concílio Vaticano II falou de Maria, mãe de Jesus, como figura (imagem-símbolo) da humanidade nova. Contemplá-la assim nos ajuda a retomar a fé na bondade fundamental do ser humano e mesmo na possibilidade de nos renovar permanentemente. Leva-nos a nos rever em nossa forma de ser e de conviver para deixar aflorar novamente em nós a inocência original que nada tem a ver com ignorância ou ingenuidade, mas que é opção de testemunhar que o mundo está grávido do amor divino e nós somos parteiros e parteiras que acompanhamos essa gravidez e ajudamos a criança a nascer em nós e no universo.

Grupos como os nossos, a Comunidade Bremém, o Grupo de  Emaús – Fé e Política e outros são hoje como reencarnações dessa Maria da qual se fala da concepção para nos indicar a meta: a humanidade renovada e o mundo transformado pelo qual lutamos. Obrigado.

Ao completar 55 anos de monge, me lembro que houve momentos nos quais me perguntava se monge não seria um animal em vias de extinção. Atualmente, percebo que como dizia Pedro Casaldáliga, o meu mosteiro é o mundo e o que me interessa é ajudar as pessoas e grupos com os quais tenho relação a revivificar e intensificar a vocação de monge e monja que está no coração de cada ser humano chamando-o à autotranscendência. Ainda hoje, escuto o monge Thomas Merton que, no seu último discurso, no dia em que morreria em Calcutá afirmar a monges e monjas de várias tradições espirituais: “A vida de um monge ou monja consiste em aprender a verdadeiramente viver o amor e viver para o amor”. Estamos juntos neste caminho.

(08-12-2020)

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