Nem privatismo nem estatolatria: o público como centralidade ético-política na gestão da sociedade

A sanha privatista – da qual não escapa o Estado capitalista, nem mesmo quando suas instâncias se mantêm formalmente não privatizadas – tem sido uma das marcas mais fortes do espírito capitalista, ao longo do seu percurso histórico, mas de modo mais intenso, nas últimas décadas. Com suas recentes e sucessivas crises, sob a forma assumida pelo Neoliberalismo, as políticas de privatização se tornariam – especialmente nos países periféricos do sistema – “a” palavra de ordem. “Privatizar!”, “Privatizar!”, “Privatizar!” – tem sido o receituário preferido e recorrente da cultura neoliberal, nas últimas décadas. Privatizar as indústrias estratégicas (a exemplo da Vale do Rio Doce). Privatizar as telecomunicações. Privatizar os serviços de saúde. Privatizar os serviços de educação. Privatizar o sistema de transporte coletivo.

Privatizar a água, a terra, as sementes e as demais fontes de vida… Um negócio lucrativo sem precedentes para os grandes conglomerados transnacionais e para as grandes empresas, em geral.
Socialmente trágicas vêm sendo as conseqüências dessas políticas desastradas, formuladas e implementadas pelas transnacionais, com a relevante cumplicidade das grandes potências e seus satélites (a participação do Estado não poderia ficar de fora…) e dos seus organismos multilaterais (quem não se lembra da atuação do Banco Mundial, na formulação de políticas privatistas para a educação, na América Latina e no Brasil?, nos anos 90?).

Saudamos vivamente crescentes manifestações de resistência e de luta de distintos movimentos sociais no Brasil (inclusive na Paraíba, onde vários movimentos sociais vêm se mobilizando contra o projeto da Prefeitura de João Pessoa, de privatização, por intermédio do mecanismo das OS´s) e na América Latina, até hoje (ver, por ex., o caso dos Estudantes e Trabalhadores e Trabalhadoras do Chile) e no mundo.

Há, por outro lado, no enfrentamento desta questão, um outro desafio de monta, com freqüência, negligenciado nos debates protagonizados pelos movimentos sociais: a efetiva participação do Estado e seus aparelhos como instrumento de legitimação/viabilização das iniciativas abertas de privatização dos bens e dos serviços públicos. Aqui, sim, cabe falar-se com propriedade em parceria! Parceria entre Mercado e Estado. Não contassem com a efetiva participação do Estado, para a implementação de suas políticas privatistas, os grandes conglomerados transnacionais, as grandes empreiteiras, os grandes bancos, o agronegócio e cia. não teriam êxito em seus projetos. Estes só se viabilizam graças estritamente à parceria efetiva celebrada – e não de hoje! – entre o Capital e seu Estado! Se ainda quando as instâncias estatais se mantêm formalmente públicas – e só formalmente -, é de se imaginar o caráter e a extensão de tais políticas quando são abertamente privatizadas… Veja-se, por exemplo, o caso da Vale do Rio Doce…

A despeito de tal constatação, prevalece, contudo, inabalável, da parte de ilustres dirigentes partidários e de movimentos sociais, a crença numa pretensa parceria dos Trabalhadores e Trabalhadoras com o Estado e seus aparelhos…

E, não raro, com tanta avidez, que se inviabiliza qualquer tentativa de debate ou de exercício crítico. Sucumbe-se, então, a uma espécie de estatolatria, sob diferentes manifestações. E aqui se multiplicam as alegações, a título de justificativas, tais como:

– mesmo numa sociedade de classes, o Estado aparece como um campo de disputas;

– temos que penetrar em suas estruturas, para, desde dentro, buscar mudar (a velha e desgastada estratégia do “entrismo”, tão cara ao modelo stalinista…);

– elegendo-se pessoas vindas das lutas populares, a gente tem mais condição de alcançar nossos objetivos, pelo menos parcialmente…
– as coisas seriam piores para a Classe Trabalhadora, se deixarmos gente da Direita a conduzir os negócios do Estado: entre um Lula/Dilma e um Serra, não há como hesitar…

Nas linhas que seguem, ousamos compartilhar algumas inquitações acerca dessas questões desafiadoras. Começamos situando, em breve, em que contexto sócio-histórico se dá essa discussão. Em seguida, tomando como alvo a grade de valores atualmente hegemônica, cuidamos de elencar exemplos de práticas, que entendemos como frutos que temos colhido dessa aposta equivocada na aliança entre Trabalho e Estado, ou melhor, em nossa disposição de combater o Capital apenas em uma de suas pilastras, o Mercado, descolada da outra, o Estado. Por últimos, arriscamos alguns enunciados que traduzem nossas convicções, em meio a um universo de incertezas.

Mais do que uma época de mudanças, enfrentamos uma “mudança de época”

Parece saudável lembrar, de partida, que, mais do que vivermos numa época de mudanças, somos constantemente interpelados por sinais que acenam para tempos de “mudança de época”. Não deveriam surpreender-nos, assim, os conturbados tempos, cujos desafios se refletem, também, na esfera dos valores, sendo, como vem sendo, uma época de crescente apelo ao descompromisso com o PÚBLICO ou mesmo a uma lassidão ético-política, nas relações do cotidiano em dinâmica interação com as macro-relações econômicas, políticas e culturais.

Tomemos aqui como foco de nossa reflexão a esfera cultural, sabendo de suas profundas e vastas interfaces com as demais esferas da realidade social. Como anda nossa grade de valores? Bandeira cara a forças de esquerda, até recentemente (a exemplo das iniciativas e campanhas do tipo “Ética na Política”), hoje inquietações desse tipo movem pouca gente. Corre-se inclusive o risco, no atual quadro sócio-histórico, de se escantear o horizonte ético de nossa agenda política. Não tanto no âmbito discursivo, convenhamos, em que ainda aparece com relativa frequência (assim interpretamos como superficial, por exemplo, a Campanha impropriamente chamada de “Ficha Limpa”…), mas, antes, no campo das práticas efetivas, tanto na esfera das macro quanto na das micro-relações.

Um retrocesso tão impactante, a ponto de, não raro, cairmos no ridículo de assistir a uma tentativa velada de figuras da Direita e de emissoras como a Rede Globo, de levantarem, aqui, ali, tal bandeira (“Cidadania – você por aqui!”)…

Seja como for, o certo é que a Ética não é, como se sabe, apanágio de ninguém. Nem uma mera pertença formal a um movimento social ou a uma corrente de esquerda garante por si mesma, nossa fidelidade aos interesses da Classe Trabalhadora. Isto tem que ser mostrado, nas relações do dia-a-dia. Tem a ver, sim, com atitudes de quem ouse levá-la a sério, para além de cores partidárias e outras instâncias institucionais. Ninguém, por conseguinte, está isento de deslizes éticos. Muito menos, em tempos de enorme fascínio exercido pelos valores do Mercado, corroborados pelos atrativos sedutores dos aparelhos do Estado.

Ignorar ou subestimar os riscos de sedução pelos valores da moda implicaria cumplicidade ou introjeção/reprodução – tácita ou expressa – dessa tendência, inclusive sob o pretexto de sermos “homens/mulheres do nosso tempo”…

Vige, com efeito, hegemônica e imperturbável, o que temos chamado de “cultura da ambigüidade”. Ancorados na reconhecida constatação de que somos – e somos mesmo! – seres sujeitos a ambigüidades e a contradições, somos não raro induzidos a transformar esse salutar reconhecimento de nossos condicionamentos antropológicos (do nosso “inacabamento”, diria Paulo Freire) em apologia indevida de uma pretensa e irremediável condição de condenados a reféns de toda incoerência e de toda contradição, passando a acomodar-nos prazerosamente a esse limite doravante transformado em virtude. E, em se tratando de virtude, não caberia qualquer esforço de superação, mas, antes, de manutenção…

Quadro que se tem manifestado por diferentes vias. Uma delas tam a ver com cultura do consumismo, que tem campeado, sedutora e impetuosa, no nosso dia-a-dia, a fazer estragos cada vez mais graves e – pior – contando com um largo e crescente consenso ideológico, inclusive em segmentos que pretendem combatê-la.

Tomando o Público como referência, quê práticas e relações temos protagonizado?

Aqui, somos instigados a examinar, de passagem, o caráter e o grau de incidência que essa profunda crise (também) de valores tem a ver com a perda ou a degradação do sentido do “Público” em nossas macro e mircro-relações.

Estamos tratando do “Público” como sinônimo de “res publica”, de bens e serviços que dizem respeito ao conjunto da população (de “pópulus”, “popular”), donde o sentido de público como campo por excelência da ação cidadã.

De que Cidadania estamos falando? Não, por certo, daquela formal, tão cara às democracias ocidentais, em tempos de Neolibaralismo, em que as referência da ação cidadã têm mais a ver com com o conceito de consumidor do que de um sentido de protagonismo político. Tratamos aqui de Cidadania, na perspectiva do Trabalho, em que o conjunto dos membros da sociedade – formada sobretudo por aqueles e aquelas que vivem do seu trabalo – atua como corresponsável pela concepção, pela formulação, pela implementação e pela avaliação de políticas públicas.

Tem mais a ver com a dimensão política da Classe Trabalhadora.
Buscamos aqui refletir sobre de que modo as próprias forças sociais que, após haverem contribuído para o fim da Ditadura Militar no Brasil, emergiram como protagonistas do processo de “redemocratização”, inclusive inicialmente numa perspectiva alternativa ao modelo vigente, foram perdendo credibilidade, à medida que foram sucumbindo ao fascínio da grade de valores dominante, nivelando-se, nas práticas, às forças conservadoras de quem se diziam adversárias? De que modo, a despeito de manterem um discurso republicano, passaram a protagonizar práticas ético-políticas de conformidade à grade de valores hegemônica? De que modo tais forças passaram a exercer uma notável influência de conduta pouco ética sobre consideráveis parcelas da população? Que forças despontam como alternativa à hegemonia desses valores? De que modo a retomada do horizonte ético-político pode contribuir nessa direção?

Como em outras ocasiões, já buscamos refletir, sobretudo, a partir das macro-relações (desigualdades socais afetando decisivamente uma justa repartição das riquezas, das terras e da renda, tratamos aqui de focar nossa atenção quanto às ações molecualres, sem perder de vista sua íntima conexão com os fatores de caráter macro-histórico.

A força das relações moleculares

Nosso cotidiano se manifesta como um verdadeiro mostruário daquilo em que apostamos, concretamente, para além de nossa performance discursiva. As relações do dia-a-dia traduzem muito bem os nossos projetos de seres humanos, de mundo e de sociedade. Cada ação minúscula comporta sementes convincentes daquilo em que, de fato, apostamos, nas diferentes esferas da realidade.

Nossos sonhos generosos ou nossas apostas mesquinhas revelam-se, independenmente de nossa capacidade de lidar com as palavras, nas micro-relações que tecemos, no dia-a-dia. A titulo de ilustração didática, vale a pena exemplificar algumas situações concretas que, por conta de nossa omissão e cumplicidade, acabam sendo “naturalizadas”, e, ao serem assim tratadas, se constituem em fonte e em estímulo de práticas desabonadoras, em cadeia.

* No âmbito do Transporte Público:

– tarifas praticadas conforme a gula empresarial (consequência da implementação de mecanismos de precarizaçao, de terceirização e de privatização deste de outros serviços públicos);

– demandas inatendidas de linhas que deveriam servir os segmentos mais pobres;

– atrasos abusivos, com grandes prejuízos para os trabalhadores e trabalhadoras;

– superlotação, sobretudo nos horários de pico;

– escassez ou inexistência de ônibus em domigos ou dias feriados.

* Enquanto simples passageiros de ônibus:

– aglomeração desordenada, na porta de entrada e de saída, bloqueando livre circulação das pessoas;

– pegar cartão ou dinheiro justo na hora de passar a roleta, de modo a tumultuar a passagem das outras pessoas;

– “apropriar-se” indevidamente de mais de um assento;

– atender a chamadas por celular a toda altura;

– em vez de facilitar a passagem pelo corredor do ônibus, bloquear de propósito a passagem dos outros;

*No âmbito sindical:

– perpetuar-se na direção, só mudando funções;

– contemplar exclusivamente os interesses corporativos, sem qualquer sensibilidade em relação à população ou ao conjunto da Classe Trabalhadora;

– uso indevido de espaços, de tempo e de recursos do Sindicato.

– insensibilidade em relação aos colegas trablhadores e trabalhadoras, tombados em situação de desemprego.

* No âmbito acadêmico ou da escola:

– restringir sua atuação ao cumprimento formal de suas funções, sem qualquer envolvimento efetivo e afetivo com o Projeto Político-Pedagógico da instituição;

– descumprimento do tempo de trabalho (atrasos reiterados, falta de assiduidade, não cumprimento de funções devidas (no caso das universidades públicas, é o caso de não cumprir atividades nos campos do ensino, da pesquisa e da extensão);

– usar indevidamente o tempo, os espaços e os recursos da Instituição, em proveito próprio;

– situações de abuso de autoridade em sala de aula ou no exercício de funções administrativas, docentes, de pesquisa, de orientação, de extensão, etc.

* No âmbito pastoral:

– repartição extremamente desigual do dízimo e das ofertas pelo conjunto dos membros de uma Igreja (haja vista a desigualdade entre o que é destjnado à formação do clero e a fatia destinada à formação dos leigos e leigas, bem como das pastorais sociais…);

– estilo de vida contrastante, seja no interior do clero, seja em relação aos demais membros do Povo de Deus;

– (ab)uso dos bens e serviços comuns da Paróquia ou da Diocese (carros, instalações, equipamentos, uso do tempo e dos espaços) em proveito de um ou de poucos;

– exercício da missão lastreado em vantagens pessoais ou privilégios;

– restringir apenas aos frequentadores habituais do templo os serviços e a presença dos ministros junto ao conjunto dos fiéis moradores na Paróquia.

* No âmbito dos movimentos populares:

– agir em função antes do “seu” movimento do que em favor do conjunto da Classe Trabalhadora;

– perpetuar-se na coordenação do movimento, sem assumir a alternância de funções e cargos, de modo a assumir, de forma alternada, tarefas de base e tarefas de coordenação;

– distanciar-se das bases, levando um padrão de vida bem acima do comum das bases;

– indisposição para cumprir tarefas de base e para as funções que requeiram trabalho braçal;

– secundarizar o processo formativo contínuo – seu e do conjunto dos companheiros;

– colar demais nos membros da coordenação, em detrimento do convívio mais fraterno com os companheiros da base;

– uso indevido do tempo, do espaço e dos recursos do movimento.

* No âmbito partidário:

– apoio incondicional às decisões do Partido ou de qualquer segmento ou instância do Partido;

– colar nos dirigentes, com o propósito de extrair vantagem desse relacionamento;

– perder de vista ou abandonar as prioridades programáticas do Partido, em detrimento dos interesses do conjunto da Classe Trabalhadora;

– prestar apoio incondicional ao Governo e seus aliados;

– fazer o Partido girar em função do calendário eleitoral e dos interesses próprios ou de pequenos grupos;

– recorrer a instâncias privadas quando se trata de fortalecer as instâncias públicas.

* No âmbito das associações:

– redução da associação à sua diretoria ou, pior, à figura individual do dirigente;

– Tornar a associação uma correia de transmissão de partidos ou cabos eleitorais;

– restringir-se à rotina burocrática o núcleo das tarefas da associação.
Recorremos a esses exemplos apenas como recurso didático para ilustração de nossas inquietações. Nosso propósito é o de mapear situações concretas onde se dão diferentes formas de privatização dos espaços públicos, no âmbito das micro-relações. Em cada um dos casos mencionados e em tantos outros não mencionados, são imensos os desafios de superação de toda uma cultura que impregna o tecido social, comprometendo profundamente as iniciativas de resistência e de superação desse tipo de cultura.

Num cenário como o acima pincelado, dificilmente prosperam iniciativas de reversão satisfatória das mazelas de alcance macro-estrutural. Pretender-se mudança substantiva desse quadro, restringindo-se a alterações desde cima, resulta em vão. Mudam-se dirigentes corruptos, mas quem vai substituí-los, na perspectiva de restituição da decência? Em quê tipo de ambiente têm sido formadas as novas gera~/pés de militantes? Seria suficiente trocar de agentes, num contexto em que são quase nulas, no essencial, as diferenças entre dirigentes e dirigidos?

(Re)afirmando algumas convicções, a partir de nossas experiências

Dentro de um mundo de incertezas que também experimentamos, sobrevivem, renovadas, algumas convicções que ousamos compartilhar.
O novo pelo qual nos batemos, não nasce pronto, direto das entranhas caducas do Mercado e do seu Estado. Ou resultará de um grande mutirão protagonizado por aquelas e aqueles que vivem do seu Trabalho, ou não virá. Inútil seguir apostando numa nova sociedade, a partir dessas estruturas. Os frutos que hoje vimos, há tanto tempo, colhendo dessa aposta, seguem bem à nossa vista. Já sabemos de que se trata. Por que seguir trilhando por um caminho já tão experimentado e, sobretudo, conhecido por seus amargos frutos? Por que não atentarmos para a sabedoria popular de um Pedro Vieira, segundo quem “Se queremos encontrar saída, é preciso abrir uma porta lá onde não foi aberta.” (Relato feito por Genaro Ieno).

Esta não tem sido a aposta predominante. Ainda segue amplamente hegemônica a perspectiva de construção da nova sociedade a reboque do legado dos nossos antepassados, que teimamos em reproduzir tal e qual, sem fazermos justiça a essas mesmas figuras em quem dizemos apoiar-nos. Eles/elas não nos querem seus repetidores. Convidam-nos, antes, a reinventá-los/las, a partir de uma cuidadosa leitura dos desafios de hoje, do mundo atual, e da atual realidade, da atual correlação de forças, e, sobretudo, de nossa capacidade criativa, que insistimos em não exercitar como deveríamos. Teimamos em usar as mesmas ferramentas de luta empregadas em séculos passados, desconhecendo a natureza dos novos desafios, e enfrentando os velhos desafios, sem tomar na devida conta um novo cenário. Visitamos, ainda que raramente, o valioso baú de ferramentas dos nossos clássicos e contemporâneos, sem disposição de neles/deles recolhermos coisas velhas e novas. Arriscamos sucumbir a uma perigosa preguiça intelectual, um passo também para a rendição ético-política.

Certos de não haver receitas para a superação dos obstáculos a enfrentar, em nossa busca de construção de uma nova sociedade, podemos, porém, contar com algumas pistas, nessa aventura. Antes de buscar acenar para algumas dessas pistas, convém assinalar a convicção de que tais pistas nada têm a ver, seja com a tentativa de reformar o Mercado, seja com o empenho em reformar o Estado.
Em relação ao primeiro (o Mercado de caráter capitalista), parece haver um razoável consenso, no seio de parcelas significativas das forças que lutam por uma nova sociedade, quanto à sua radical incompatibilidade ante um modelo alternativo de produção, de consumo e de gestão de sociedade. Baste-nos, a esse respeito, mencionar os traços mais fortes do rosto do Mercado: é por definição calcado na desigualdade social; promove e defende os privilégios dos segmentos dominantes; absolutiza a propriedade privada dos meios de produção, de modo a erigi-la acima da própria vida do Planeta e dos Humanos. Seu motor supremo reside na extração incondicional do lucro, em favor dos setores privilegiados e à custa da exploração do trabalho das maiorias. Muito do seu sucesso se deve ao poder de manipulação das consciências por via dos ardilosos instrumentos ideológicos, veiculados pela família, pela escola, pela religião, pela mídia…

Consenso que já não se acha, entre essas mesmas forças, quando se trata de nossa relação com o Estado e seus aparelhos. Ao se apresentarem embora como protagonistas de uma sociedade alternativa ao Capitalismo, quando se trata de lidar com o Estado, tais forças recuam contraditoriamente de sua posição. Mesmo sabendo que toda sociedade de classes se vale necessariamente do Estado e seus aparelhos, e mesmo sabendo que, pelo fato de vivermos numa sociedade capitalista, o Estado é o avalista-mor dos interesses da classe dominante, esse mesmo Estado segue contando estranhamente com o apoio dessas forças que dizem combater o Capitalismo. Tais forças tentam justificar-se, recorrendo ao pretexto de que se servem das instâncias do Estado como instrumento de resistência e de conquistas pontuais, logrando assim algum alívio para os setores mais à margem do sistema.

Investem abertamente – e de modo intenso – nos processos eleitorais, em todas as esferas, deles participando resolutamente, seja como aliados, seja com candidaturas próprias, em especial, para os cargos legislativos. Daí resultam eleitos e eleitas, no Parlamento e mesmo em alguns cargos executivos. Inclusive de partidos que se reclamam comunistas. Até movimentos sociais populares, com larga experiência organizativa, formativa e de luta, se têm mostrado atraídos por essa via, afastando-se de uma tradicional linha de maior autonomia frente ao Estado e seus aparelhos.

Quando se trata de fazer uma avaliação crítica dessa estratégia, o balanço resulta quase sempre desastrado.

Tendo em vista, pois, não serem essas nossas apostas, quais são então nossas convicções propositivas, ainda que reconhecendo-as parciais e limitadas? Tratamos de explicitá-las, valendo-nos da linguagem de alguns enunciados.

* A nova sociedade pela qual nos batemos, é obra de um grande e incessante mutirão, protagonizado pelas forças sociais formadas por mulheres e homens em constante processo de renovação, forças comprometidas com a construção de novas relações humanizadoras e de convivência amorosa com o Planeta.

* A nova sociedade pela qual nos batemos, articula, de modo indissociável e orgânico, rumo, caminhos e postura de caminhar. Não se trata, pois, de almejar um rumo novo, por meio de trilhas que se contraponham ao rumo almejado, e por meio de procedimentos capazes de expressar, enquanto se faz estrada, sinais convincentes do rumo almejado. Trata-se de buscar a Liberdade por meios que expressem Liberdade, e com procedimentos seminais de mulheres e homens novos.

* Os protagonistas de uma nova sociedade não hesitam em incluir e assumir os direitos ambientais como ponto de honra em sua agenda organizativa, formativa e de lutas;

* Os protagonistas já não se contentam com uma longínqua e mágica “tomada do poder”, de modo a limitar-se a destronar os dominantes e a pôr-se em seu lugar, sob a alegação de instaurar uma nova sociedade, mantendo, contundo, intactas as velhas estruturas, agora ocupadas por novos atores.

* Nas experiências mais freqüentes de tomada do poder convencional, o ítem mais realçado costuma ser (quase) sempre o elemento estratégico, de modo a não raro superestimar-se o fator militar, o que se constitui um procedimento redutivista de uma compreensão desejável do processo revolucionário, do que têm resultado graves desdobramentos: sem uma sólida formação humanizadora, um tal reducionismo tende a confundir Revolução com algo atinente quase só à dimensão militar – fonte de trágicos equívocos, em diversas experiências ditas revolucionárias, recentes e menos recentes.

* A superestimação recorrente do fator militar nos processos revolucionários comporta graves implicações, em diferentes planos: no rumo almejado, no perfil de protagonistas desses processos, no processo formativo, nas lides organizativas, além de no desfecho trágico desse equívoco que ainda estamos longe de ver como página virada.

* Um horizonte alternativo à barbárie do Capital se constrói com um mergulho cuidadoso na memória histórica da Humanidade, em distintos lugares e tempos, daí recolhendo-se seus melhores feitos, suas melhores conquistas, em distintas áreas da realidade. É por meio da memória histórica, que nos inspiramos nas lutas do passado, eu tanto têm a nos dizer. Fazemos memória histórica porque, como nos lembra Eduardo Galeano, “o passado tem muito a dizer ao nosso futuro.”

* Destacamos a relevância, na construção revolucionária, do processo formativo continuo dos protagonistas desse mutirão, os da base bem como os que estão coordenadores ou dirigentes. Trata-se de recorrer à Educação Popular, na perspcctiva freireana, de modo a comprometer os protagonistas com um processo formativo integral, envolvendo as relações de subjetividade, de espacialidade, ecológicas, de Gênero, de Etnia, de Geração, de relação com o Sagrado, numa palavra: de Classe.

* Nesse processo formativo, os protagonistas vão sendo interpelados e estimulados a desenvolver todas as suas potencialides, partindo do contínuo aprimoramento de sua capacidade perceptiva;

– exercitar o protagonismo de todos os formandos, no sentido de irem tornando-se sujeitos de sua história;

– exercitar as diferentes formas de arte como vital ao processo de humanização;

– superar, no chão do cotidiano, a dicotomia entre trabalho intelectual e trabalho manual;

– exercitar e fazer cumprir a alternância de cargos, de funções e de tarefas;

– exercitar, de modo incessante, a articulação entre o sentir, o pensar, o querer e o agir, superando assim a tendência esquizofrênica de hipertrofia do cognitivo, em detrimento das outrs dimensões do processo humanizador;

– promover o incessante exercício de crítica e autocrítica;

* Ousar passos em direção a uma cultura consultiva, que passa pela experiência organizativa que se contraponha ao modelo vigente, à medida que estimula o exercício de uma organização autogestionária, fundada na tomada de decisões pela via dos conselhos populares;

* Velar incessantemente pela sua autonomia relativa, frente ao Mercado e frente ao Estado e seus aparelhos. A história recente e menos recente dá conta de experiências traumáticas – quase todas de refluxo ou de cooptação – decorrentes do descumprimento desse princípio classista por parte dos movimentos sociais populares;

* Exercitar sua condição de autonomia, também, por via da automanutenção, de acordo com as possibilidade de cada membro de Conselho Popular;

* Universalizar o alcance de nossas lutas sociais e de nossas inquietações, num movimento contínuo entre as lutas locais e as travadas por outros povos irmãos, não importa em qual parte do mundo (internacionalismo);

* Promover, seja por meio de experiências concretas, seja por meio da pesquisa científica, estudos sobre as experiências autogestionárias dos Trabalhadores e Trabalhadoras, em distintos momentos da história do movimento operário.

* Promover o exercício da mística revolucionária, como fator revitalizante dos compromissos revolucionários, recorrendo-se à memória histórica (coletiva e individual) de movimentos e lutas sociais de nossa História, bem como de figuras emblemáticas de nossos lutadores e lutadoras, a exemplo de um Gregório Bezerra, de um Carlos Marighella, entre outros e outas.

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João Pessoa, 14 de setembro de 2011

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