Negligência noticiosa

Por Liseane Morosini

Pesquisa aponta que imprensa cobre temática do racismo, mas conteúdos não se mostram propícios ao combate do problema

Os jornais brasileiros cobrem a pauta do racismo, mas deixam fora da cobertura o quadro de homicídios que vitima em especial a população negra. Com isso, tratam da violência simbólica, mas desvinculam a violência física de seu contexto primordial de produção: o próprio racismo que as motiva. A constatação é do estudo Imprensa e Racismo — uma análise das tendências da cobertura jornalística, realizado pela organização Andi – Comunicação e Direitos, com apoio da Fundação Ford e da Fundação W. K. Kellogg. Divulgado em dezembro, o estudo analisou o conteúdo de 1.602 notícias envolvendo a temáti­ca do racismo, publicadas entre 2007 e 2010, em 45 jornais impressos do país.

A análise detectou que a abordagem é predominante em espaços noticiosos nobres e que, mais do que relatar ocorrências, os jornais tendem a abordar o racismo de forma contextualizada (61,5% do total da amostra), buscando trazer elementos para compreensão do tema. Esse conteúdo, no entanto, não se mostra favorável aos mecanismos de enfrentamento à violência relacionada ao racismo. A análise sinaliza que o noticiário concentra-se mais na discussão desses dispositivos, mostrando-se contra o sistema de cotas, por exemplo, na maioria dos textos. Ações afirmativas e cotas são o tema mais tratado, presentes em 18% da amostra — sendo que 96,3% desta referem-se a notícias associadas ao ingresso na educação superior, seguindo-se pautas sobre igualdade e desigualdade de raça-etnia (16,5%) e os diversos tipos de violência (9,3%).

O sistema de cotas foi rejeitado em 58% dos editoriais (contra 19% favoráveis), 39% dos artigos assinados (28% favoráveis); 57% de entrevistas (14% favoráveis); e 50% das enquetes (25% favoráveis). Entre colunas e notas assinadas houve maior equilíbrio, com 30% contrários e 34% favoráveis.

O estudo fez um recorte separado sobre as violências físicas, apontando jornais omissos, ao não relacionarem características socioeconômicas e cor da pele, em vítimas de violência. E concluiu que há uma “negligência noticiosa” por parte dos jornais cujas práticas são acionadas, muitas vezes, de modo “automatizado, naturalizado, quase silencioso”, dificultando a identifica­ção e o combate ao fenômeno do racismo no Brasil.

Orientação editorial

De todo o noticiário analisado, 32% enquadram-se como conteúdo opinativo no formato de artigos assinados (13,4% do total da amostra selecionada), evidenciando a importância do tema para os jornais, analisa a pesquisa. Os pesquisadores apontam que diretores e editores filtram, selecionam e dão prioridade a artigos cujo conteúdo está alinhado à orientação editorial dos jornais. Dessa forma, os editoriais registram posicionamento institucional do veículo e são reforçados pelos artigos publicados, retroalimentando os discursos referentes à cobertura do racismo.

A amostra estudada revelou, ainda, que temas como comunidades quilombolas e acesso à terra (6,9%) e mercado de trabalho (6,2%) tiveram menos espaço na cobertura. Chamou a atenção a diminuta presença (2,9% das notícias analisadas) de temas como ensino de História da Cultura Afro-Brasileira — há nove anos no currículo oficial das escolas —, saúde da população negra (1,6%) e relações entre raça/etnia e gênero (1,1%).

Entre as características dos veículos reveladas, a liderança em termos quantitativos do debate sobre racismo ficou com um veículo regional, o jornal A Tarde, da Bahia, seguido por O Estado de S.Paulo, de abrangência nacional. Na comparação entre as regiões, o Nordeste lidera com 24,9% dos textos da amostra, seguido pelo Sudeste (17,4%), Sul (13,8%), Centro-Oeste (7,9%) e Norte (3,9%). Quando se consideram as localidades mencionadas nas notícias, observa-se que os jornais dão prioridade ao tema nacional (44,8% tratam de Brasil e 31,8% de uma ou mais unidades da Federação) e concentram o debate sobre políticas so­ciais nos centros metropolitanos do Sul, Sudeste e Centro-Oeste.

A pesquisa mostrou também que apenas 4,1% dos textos faz menção a organizações da sociedade civil. Desse total, 36,4% citam projetos ou iniciativas realizados em benefício da igualdade racial, encabeçados pelas organizações não governamentais (28,8%). O Movimento Negro aparece com 18,2% das citações — percentual que, calculado sobre o total da amostra, cai para menos de 1,0%, evidenciando a sub-representação desse ator político, um dos responsáveis pela ampliação do debate sobre racismo.

A análise rastreia ainda o uso de fontes estatísticas de informação, picos de cobertura e a contribuição de datas comemorativas na manutenção do debate público sobre a temática.

Fonte: Radis

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