Nas veredas libertárias do Nazareno: Apontamentos acerca do livro “O Caminho”, de José Comblin

Nas veredas libertárias do Nazareno: Apontamentos acerca do livro de José Comblin. “O Caminho: Ensaio sobre o seguimento de Jesus”. São Paulo: Paulus, 2004.

Como lhe sói acontecer em suas obras, também em “O Caminho”, José Comblin dá sobejas provas de uma atualidade e vigência impactantes. Com efeito, 18 anos após a publicação deste Ensaio, não há como o leitor/a leitora não ficar profundamente mexido/mexida pela acuidade analítica do autor. Não foi por acaso que o grupo Kairós, que se tem empenhado na leitura e reflexão atentas da obra de Comblin, decidiu reler “O Caminho”. Nesta ocasião, ao ser avisado por Elena de que, ao final do livro, eu havia escrito 5 páginas de anotações sobre o livro. Surpreso, tomo a liberdade de compartilhar estes apontamentos a partir daqueles registros.

 

Já em sua introdução, ao brindar-nos com uma síntese panorâmica do ensaio, Comblin trata de situar historicamente o que, durante séculos, os teólogos abordam deste tema. Sem mencionar a figura de Joaquim de Fiore (1135 – 1202), Comblin comenta que a Igreja da Baixa Idade Média punha no amor o núcleo primeiro no Seguimento de Jesus. Com efeito, o que o Monge calabrês Joaquim de Fiore definia como tendo chegado a Idade do Espírito Santo (precedida pela Idade do Pai, caracterizada pela obediência, e pela Idade do Filho, marcada pela misericórdia), cuja principal marca é o amor, assim o Povo de Deus passava a viver sob este signo, o da liberdade, o da criatividade. A Idade Moderna, por sua vez, graças à ação reformadora de Lutero e seus seguidores, bem como a reação da Hierarquia Católica, passava a reger-se pela Fé, entendida como o cumprimento formal dos preceitos, dos princípios, das regras, do magistério eclesiástico, ao qual todos os demais setores da Igreja Católica deviam rígida obediência, distanciando-se assim, do Espírito do Evangelho. Enquanto isso, sublinha Comblin, a Idade Contemporânea é caracterizada pela vigência da Esperança

 

Nos capítulos que seguem, tratamos de esboçar um resumo aproximativo do que propõe o autor. Como já dito, Comblin começa pela Esperança.

A proposta bíblica é fundamentalmente escatológica, o ser humano sempre é caminho . O papel pedagógico dos profetas no Reino de Deus. A mensagem cristão é mensagem e esperança, sobretudo para os pobres: Importa ir à galileia. As 3 opções dos vencidos diante dos opressores: Submissão integradora, fuga ao passado ou resistência na esperança. Enjaulamento no medo das autoridades de falar, de reivindicar. Quem espera o reino trabalha para que ele comece a acontecer na sociedade pq (cf. 21-38)

 

Esperar é poder afirmar a necessidade de mudança radical. O sentido da revolta é destruir as opressões, elas são diferentes da esperança como expressão secularizada do advento do Reino, as revoluções ajudam a mudar. Revolução é preparada por um grupo mais dinâmico, não conta com a participação de todos. Após destruir inimigo, desafio maior é prestar atitude alternativa. Somente os pobres podem mudar, somente eles tem esperança (cf. 40-44)

 

Dirigentes partidários, não raramente, vivem longe do povo. Os cristão são protagonistas do movimento dos pobres Os novos movimentos valorizam a subjetividade, a mística. A esperança abrange a totalidade da vida (cf. 47-49)

 

Quem não age tem saudade. Jesus protagoniza mudança radical sem suprimir mudanças ulteriores. A teologia escolástica suprime de mudança para a cristandade, missão é para conquistas não para mandar. O Reino de Deus não é estrutura instalada definitivamente na história. Importa buscar sempre pois os limites do possível podem ceder. A figura de Francisco sugere que Jesus começa pelo corpo. Por isso era peregrino, caminhando peregrino aprende a aproveitar tudo sem se apegar a nada. Torna-se livre. O peregrino aprende a ser mais a cada dia. Na peregrinação nunca se caminha só, há todo um povo em movimento. A Esperança da vida eterna procede da esperança vivida do dia a dia. Não há esperança sem profeta. Este lembra da vocação da liberdade.Todos os cristãos são chamados a ser profetas. (cf. 50-72)

 

O segundo capítulo do livro versa sobre a fé.

 

Fé é diferente de representação intelectual. A fé primitiva dos primeiros cristãos repousa na simplicidade, foi a hierarquia que não aceitando a divergência de interpretação criou a ortodoxia. A condenação das CEBS e da Teologia da Libertação são um exemplo.O Espírito inquisitorial fez grandes estragos, inclusive na América Latina, recorrendo a imposição do pensamento único, a estratégia dos hierarcas consistia em deformar ao máximo o pensamento dos seus adversários, e imputar lhes autoria dos “erros”. De tão a frente a fé incorporou reis e imperadores. Reduzindo-se o entendimento da fé, forjando uma interpretação supostamente baseada na carta aos romanos, a partir daí, estabeleceu-se separação entre reino e mundo. Diante da posição protestante a Igreja Romana adota o sacramentalismo, o ritualismo, esquecendo o Amor descrito em 1 Cor 13. Nasce daí o enquadramento religiosos da vida clerical, só escaparam os beatos e benzedores, porque eram desprezados por serem analfabetos. A fé como iluminação que transforma a vida. Neste caso a fé é a porta de entrada para a esperança, e sem esperança pode se viver como ser biológico, mas não como ser humano (cf. 79-96)

 

A fé implica mediação, o olhar do outro.A fé provoca mudança, em alguns casos, mudança radical, a exemplo de Paulo e Francisco. Fé implica ação, por longo tempo reduziu-se Cristo a cruz, esquecendo-se ou omitindo-se a vida de Jesus. A fé implica renuncia ao poder: é a lição que extraímos do próprio Jesus (cf.Fp 2). Caminho é o nome que as comunidades cristãs primitivas davam à Jesus. Libertação é protagonismo dos pobres, não vem como dádiva dos poderosos. Seguir o Caminho implica seguir a verdade, ao contrário do que pleteia a lógica do marketing, de “dourar a pílula” para obter lucro. A tendência à institucionalização do Reino contrapõe-se ao movimento profética de afirmação da pobreza (cf.97-115)

 

A ressurreição de Jesus é o início da história, prova de sua efetiva presença por meio dos discípulos e discípulas. Mais do que venera-lo Jesus pede mesmo é que O sigamos. Libertando-nos de todas as dominações. Talvez por isso não se tenha chamado filho de Deus. Olhando a vida de Jesus pode-se sempre entender Deus. O Espírito Santo é a presença de Jesus, nos discípulos e discípulas, também acusados pelo mundo (os Poderosos). Quando todos calam, os discípulos levantam a voz, a exemplo dos que fazem os  mártires. O pretenso monopólio de Roma sobre o Espírito: O Espírito quer a diversidade ele segue as possibilidades históricas. Importa aprender a caminhar no escuro. O Vaticano II preferiu usar linguagem metafórica: invés de se impor um sistema de conceitos sobre quem é Jesus, importa procurar saber o que ele fez e queria, o grande problema reside nos descaminhos trilhados sobretudo pela hierarquia. (cf. 116-136)

 

Aceitação intelectual de todos os dogmas não é garantia de fé, a fé a porta da Esperança contra toda esperança (Rm 4-18). É o fundamento da nossa verdadeira vida, o edifício é o amor, a conversão é amorosa, opção pelo essencial que o convívio com os pobres favorece. O amor sustenta o mundo por estar sendo vivido na realidade dos pobres, confiar na transformação social pelo Estado é confiar na lei. O capitalismo é uma imposição dos poderosos. O amor que vem de Deus pode estar presente nas experiências humanas, inclusive na dimensão erótica e do Ághape. Deus não quer receber coisas, quer que amemos com o amor que Dele procede (cf. 1JO 4). O amor se realiza corporalmente, cabeça, mãos, pés, etc. A excelência de MT 25-35-36 como critério principal. Aquele que fez a pergunta a Jesus sobre qual era o maior mandamento, já sabia que era o Amor, mas só intelectualmente, precisava da prática, isto é da relação Deus-próximo (cf. 138-145)

 

O amor aos pobres é o núcleo do Cristão, ambos desaparecidas do cenário católico desde o século XIV, perseguição aos Espirituais. São Gregório Nazianzeno, o amor aos pobres não é opção é obrigação. São João Crisóstomo dizia que o começo e a raiz da riqueza é sempre uma ofensa à justiça. Importa perceber a força profética do olhar do outro: os pobres nos denunciam, nos anunciam. Formas de exclusão e inclusão dos pobres que deixaram de ser tratados como sujeitos históricos (cf. 146-151)

 

Em geral são minorias que lutam pela libertação. Apoiadas por lideranças proféticas o MST tem essa característica. Importa contar com lideranças autênticas próximas do povo e fiés ao mesmo. A compaixão leva a um compromisso coletivo e não individual, não considera a miséria uma fatalidade, sofrer com os excluídos. A compaixão de Jesus virou indignação contra os chefes.Testemunhos da indignação: Montesinos e Bartolomeu de las Casas. A indignação dos profetas da América Latina não é qualquer indignação. O fazer como critério da verdade vivida por Jesus. Importa combater a uniformização do pensamento único via televisão. Tecnologia a serviço de quem? O Capital converte o trabalho em produtos e o trabalhador em produtos e consumidores. Precedidas pelos neo pentecostais, as Igrejas a exemplo da sociedade transformam seus fiéis em consumidores de bens religiosos voltados para interesses imediatos e individualistas (cf. 158-201)

 

203 É de se lamentar que o que identifica o católico não é a prática do evangelho, mas os sinais exteriores. A verdadeira cultura cristã é a dos pobres. As democracias ocidentais defendem mesmo é a propriedade privada. Estamos numa época de trevas, num túnel que parece não ter fim. Jesus não deixou uma religião pronta, mas uma crítica a religião. O sacrifício já não é o que os homens oferecem a Deus, mas o que Deus oferece aos homens, o verdadeiro culto a Deus é oferecer-se para a prática da justiça. A ideologia do sacrifício requer um templo, os que seguem o movimento de Jesus hoje, atua lá onde estão os pobres e necessitados. Oração é aceitação do dom de Deus, é a missão.Na contemporaneidade observa-se o surgimento de nova religião fundada na emoção e gestos corporais. É um desafio para o Seguimento de Jesus usar a religião para anunciar o Evangelho.

 

Eis um breve resumo do livro de Comblin. Ao elaborá-lo, nosso objetivo é o de incentivar os leitores e leitoras a beberem na própria fonte.

 

João Pessoa, 01 de dezembro de 2022

Foto: Padre José Comblin

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