
(Jade Gao/AFP via Getty Images)
Para muitos nos Estados Unidos, a vida é sombria — tão sombria que alguns olham para a China e veem uma sociedade alternativa, que funciona decentemente e não permite que seus cidadãos caiam abaixo de uma “linha da morte”.
Amy Hawkins, do The Guardian, nos apresentou um retrato comparativo fascinante da consciência global, destacando duas tendências que se desenrolam em paralelo nas redes sociais estadunidenses e chinesas.
- Em plataformas estadunidenses como o TikTok e o Instagram, “os jovens estão adentrando o mundo das maravilhas da cultura chinesa — desde beber água quente até jogar mahjong —, prática que vem com o título ‘Chinamaxxing’”, escreve ela.
- Enquanto isso, na internet chinesa, “os EUA são vistos a partir de sua perda do controle que exerciam há décadas sobre o soft power, e esse controle está sendo substituído por uma tendência mais sombria: a linha da morte”.
Hawkins explica que as redes sociais, blogs e periódicos acadêmicos chineses têm, ultimamente, retratado “uma visão dos EUA como um inferno capitalista distópico”, governado pelo que um apresentador de notícias chinês chamou de “uma ‘linha da morte’ na sociedade estadunidense, onde a classe média despenca para uma subclasse”.
A linha da morte “expõe a natureza dual dos EUA: os vencedores alcançam o sucesso máximo, enquanto os perdedores caem em um abismo do qual não há retorno”.
Contexto:
A tendência mais recente começou em novembro, quando um estudante chinês residente em Seattle publicou uma transmissão ao vivo de cinco horas no site chinês de compartilhamento de vídeos Bilibili. No vídeo, que desde então atraiu mais de 3 milhões de visualizações, ele descreve ter visto crianças famintas no Halloween e as duras realidades da vida para pessoas desfavorecidas na maior economia do mundo. Logo, o termo “kill line” [linha da morte] ganhou tração.
O meme cativou tanto o imaginário chinês que, em uma coletiva de imprensa em Davos, em janeiro, o secretário do Tesouro, Scott Bessent, foi repetidamente questionado por um jornalista da mídia estatal chinesa sobre a expressão “kill line”.
“Não entendi a pergunta”, respondeu ele. (Sem brincadeira.)
Bernie Sanders nunca se cansa de salientar que 60% dos estadunidenses vivem em um limite orçamentário, o que, por algum motivo, enfurece um certo tipo de especialista de internet. Quando publiquei sobre esse fenômeno no ano passado, ilustrei o ponto com o gráfico abaixo, que mostra que, enquanto os ricos nos Estados Unidos acumulam reservas de caixa cada vez maiores em relação à sua renda, o resto da população não conseguiu fazer o mesmo:

Como se vê, os estadunidenses são singularmente incapazes de criar reservas de poupança a partir de seus rendimentos.
Isso pode ser observado no gráfico abaixo, que relaciona a renda disponível com os ativos financeiros não relacionados à aposentadoria para famílias em cada decil de distribuição de renda e ativos, do 10º ao 90º percentil, em nove países. (Os dados são provenientes do Luxembourg Wealth Study, que harmoniza os números para torná-los comparáveis entre os países. Para os especialistas em dados, “ativos financeiros não relacionados à aposentadoria” corresponde a “ativos financeiros” [FIN] menos “contas de aposentadoria quase líquidas” [RETQLIQ] na Pesquisa de Finanças do Consumidor do Fed.)
Todos os dados são de 2018 ou 2019 (exceto para a França, que são de 2014).

Assim, por exemplo, embora a renda disponível mediana das famílias australianas seja 12% menor do que a das famílias estadunidenses, elas possuem 60% mais ativos financeiros. No Canadá, os números são: 5% menos renda e 43% mais ativos. Na Dinamarca, são 19% menos renda e 74% mais ativos. Na França, são 28% menos renda e 41% mais ativos.
Uma pista para explicar as causas desse fenômeno, pode ser encontrada no manual técnico da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) sobre estatísticas de renda disponível, que citei na minha última publicação:
Conforme o manual explica, a renda disponível exclui “bens e serviços fornecidos pelo governo que beneficiam os indivíduos, mas que são fornecidos gratuitamente ou a preços subsidiados”, que “geralmente incluem educação, saúde, assistência social, transporte e serviços culturais” […].
Essa omissão “apresenta dificuldades quando a oferta desses serviços difere muito” entre os países, porque em países onde esses gastos públicos “são relativamente escassos, será necessária uma renda maior para manter um determinado padrão de vida do que em um país onde uma ampla gama de benefícios é oferecida, considerando-se todas as outras condições iguais”.
Mas a análise estatística não serve de consolo aos adolescentes estadunidenses pobres e confinados em casa, viciados no TikTok, que só podem contemplar melancolicamente o savoir-vivre chinês através de seus pequenos portais de internet:
Enquanto os internautas na China se espantam com a ideia de um EUA assolado pela pobreza e pelo caos, para seus homólogos estadunidenses a situação é bem diferente.
Com o “Chinamaxxing”, adolescentes estadunidenses estão adotando truques tradicionais do estilo de vida chinês, como beber água quente ou usar chinelos dentro de casa. O slogan da tendência? “Você me encontrou em uma fase muito chinesa da minha vida”.
é o editor executivo de Jacobin.
