
Mais do que nunca, hoje eu percebo que o grande trunfo para uma vida leve e sóbria é a coerência. A cada situação do cotidiano, paro e reflito se a minha ação é coerente com o que eu prego. É um processo lento e doloroso. Deparar-se com a contradição, corrói.
Me pego muitas vezes inconformado com um mundo tão cruel e injusto. E mesmo batalhando arduamente, a impressão que se tem é que muito do que se faz é em vão. Contenho a onda ruim, paro, respiro e me ponho a entender que por mais que a gente não mude o mundo de uma vez, nosso exemplo já é uma grande contribuição. Para isso é necessário fazer o que gosta, sendo coerente da teoria à execução. E sem dúvidas nos tornamos uma forte engrenagem para a mudança.
Falo de tudo isso para chegar ao caso da babá com seus patrões, o cão e as duas crianças, na manifestação de domingo. Tema duro e difícil. Quando se trata da vida privada de pessoas que a gente não conhece é sempre delicado.
Mesmo que a imagem nos remeta a muita coisa cruel do passado e presente brasileiros, a análise deve ser feita com cautela. Portanto, opto por pular os indivíduos e ficar somente na análise desse perfil de família e de relação patrão/empregado, muito comum no Brasil. Esqueçamos o casal e a babá daquele caso, pelos menos por enquanto, e fiquemos somente com o símbolo que, diga-se de passagem, é extremamente emblemático.
Antes que alguém diga que trabalho de doméstica é um trabalho digno, eu me antecipo e afirmo que qualquer trabalho é digno. A grande diferença está no fato de se escolher ser doméstica ou só poder ser doméstica.
Não é novidade para ninguém que no nosso país parte da população precisa começar a trabalhar desde cedo. Deixam de estudar por falta de tempo ou estrutura psicológica e quando não se revoltam com a situação injusta e precária, aceitam qualquer oportunidade para sobreviver. Quantos brasileiros não precisaram sair de sua terra natal para procurar emprego no eixo Rio-São Paulo- Minas. E na falta de opção que o destino oferece, muitos são obrigados a aceitar um trabalho quase escravo, onde a grande diferença para os tempos de senzala é apenas o salário.
Obviamente, existem casos e casos na relação empregado/empregador. Como a babá daquele caso relatou, os patrões dela são ótimos. Acredito de coração.
Mesmo que as famílias empregadoras sejam pessoas honestas, trabalhadoras e carinhosas, elas repetem todo este roteiro nebuloso da nossa história. São beneficiários da falta de oportunidade do outro e do atraso do país. As classes mais baixas são obrigadas a vender a força de trabalho por preços irrisórios.
Muitos justificam a necessidade do serviço a falta tempo. São extremamente atarefados. O que não se leva em conta é que muitas dessas babás e empregadas também possuem filhos. E o tempo doado a família do outro, muitas vezes é o tempo que falta para doar na própria casa ou na própria construção intelectual. Nesse tempo tomado dos que vendem força física, ganham mais tempo, mais capital cultural e financeiro e perpetuam toda a estrutura desigual de séculos. Seus filhos também serão poupados de ter que trabalhar desde cedo. Não perderão tempo de estudo ou lazer. E assim, a estrutura familiar das classes mais baixas ficará sempre em desamparo comparado às elites que dificilmente irá se preocupar com as causas e efeitos da desigualdade. Muito comum é se utilizarem do termo meritocracia para justificar sua posição na hierarquia social que os conduz a um mundo de privilégios.
Se no atual momento, vivemos um Brasil polarizado, eles são o retrato real da oposição.
O projeto do PT e da esquerda em geral é diminuir as desigualdades e aumentar as oportunidades. Fazer com que as pessoas que até hoje só tinham o direito de escolher um único caminho, tenham vários.
O programa Bolsa família representa bem tudo isso. Não somente pelo dinheiro dado, mas pela obrigação do beneficiado em manter seus filhos frequentando a escola. Consequentemente, as novas gerações além de se desenvolverem intelectualmente, não irão trabalhar antes do tempo. No futuro poderão escolher o caminho profissional que bem entenderem. Com isso, cada vez menos, teremos gente trabalhando como doméstica ou babá. E quem realmente quiser ou precisar, terá que pagar caro por isto.
O que confirma esse fato foi a histeria que muitos brasileiros tiveram quando descobriram que o PT havia regulamentado a profissão de empregada doméstica. O alarde diante do mínimo que se poderia dar foi enorme.
A cartilha da oposição é o projeto neoliberal que visa apenas os números. Joga-se com o mercado, com o grande capital e de preferência com uma vasta mão de obra barata. Neste projeto, os grandes centros terão as melhores oportunidades. Afinal de contas, empresa privada investe onde tem dinheiro circulando. Naturalmente, as pessoas do interior terão que sair de suas terras atrás de trabalho. Segundo a mente dos que defendem essa ideologia, projeto social é apenas alimentar e perpetuar a vagabundagem. Resumindo: é o Brasil até a entrada do PT.
Até então, havia poupado a família exposta no domingo. Mas além de banqueiro (que continuam a ganhar com a crise), diretor do Flamengo (o Flamengo de hoje, das elites e não o Flamengo do povo), o sujeito inicia seu texto/justificativa com um “si pasaran” (inversão do lema antifascismo usado na Itália). E se é coincidência ou não, todo contexto é extremamente execrável e me leva a crer que essa gente finge não enxergar o óbvio. E como grande parte da elite, dizem brigar por direitos, mas querem apenas não perder um Brasil de privilégios exclusivos. Não passarão!
(*)Foto: http://www.socialistamorena.com.br
