Morte não manda recado, bilhete nem telegrama

O caráter provisório do viver é o tema desenvolvido pelos nossos Repentistas Ivanildo Vila Nova e Sebastião Dias. E mais precisamente, a partir do mote, a surpresa e a instantaneidade da partida dos seres humanos.

A segunda estrofe, por exemplo, nos remete à diversidade de formas e circunstâncias de como somos chamados à passagem desta para outra forma de vida:“Numa queda, num punhal / Na comida que faz mal /
Na pressão quando se altera / Na tosse que dilacera”.

Experiência da qual ninguém está isento. Todos passamos por ela. Há aí uma igualdade radical: “Fala qualquer dialeto / Entra em qualquer fortaleza”.

Desde que a morte veio
Pra castigar os mortais
Não utilizou jamais
Papel, carta e correio
Usa o infalível meio
O qual lhe deu muita fama
´Inda é feliz quando exclama
Aquele que é visitado
Morte não manda recado
Bilhete nem telegrama

(…)

Em tudo ela nos espera
Numa queda, num punhal
Na comida que faz mal
Na pressão quando se altera
Na tosse que dilacera
Algum corte quando inflama
A asma é como uma chama
Febre, infarto ou resfriado
Morte não manda recado
Bilhete nem telegrama

(…)

Quando não vem de surpresa
Dá um sintoma completo
Fala qualquer dialeto
Entra em qualquer fortaleza
Ministro, padre e princesa
Foi vivente, ela reclama
Ninguém foge à sua trama
Morrendo, tudo é finado
Morte não manda recado
Bilhete nem telegrama

In: Alder Júlio Ferreira Calado, FLORILÉGIO DE ESTROFES DA POESIA SERTANEJA (Seleção e análise de estrofes de `Poetas e Repentistas do Nordeste), João Pesoa, Edições Buscas, 2009.

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