
Não é uma luta de boxe, mas todo o espetáculo da Lava Jato, que vem ocorrendo coincidentemente com datas próximas aos julgamentos de impugnação da chapa Dilma-Temer, me faz lembrar um clássico duelo de boxe que teve aqui no Rio de Janeiro.
O campeão tinha como característica o jogo de curta distância. Mesmo em decadência profissional, tendo em vista a idade avançada e o início de uma vida boêmia, o boxer ainda conseguia manter as vitórias com a experiência. A luta valia cinturão e o campeão da noite iria fazer uma disputa internacional.
O adversário, um jovem, tinha como principal arma o vigor físico. Antes de subir no ringue, o treinador transmitia a estratégia: “Você precisa cansa-lo até o último round. Movimente-se bastante, impressionando os juízes e a plateia. Quando bater, escolha principalmente o fígado porque há rumores de que ele bebe. Se ele defender o fígado, ataque o baço ou estômago.” E concluiu exaltando sua estratégia: “ Se ele não cair fique tranquilo que a gente leva nos pontos. A arbitragem é nossa.”.
E é numa estratégia similar, atacando em pontos diversos e impressionando o público, que a oposição tenta derrubar Dilma, Lula, o PT e a esquerda. Alternam semanalmente os pontos da pancada. Na pior das hipóteses, minam o que eles chamam de “amigos” ou alguém que já tenha trabalhado para o Partido. A ideia é promover desgaste e na dúvida convencer a plateia de que se trabalha de maneira coerente e imparcial.
A semana começa com a investigação sobre o marqueteiro João Santana. Antes mesmo de ganhar a capa dos grandes jornais, a Polícia Federal já havia se pronunciado afirmando não haver qualquer irregularidade no pagamento das campanhas de Lula (2006), Haddad (2010) e Dilma (2014). Mas isso não interessa. A investigação e sua espetacularização nada mais é que uma tentativa de tornar a opinião pública favorável ao impeachment ou o sangramento do PT e seus líderes. A coincidência é que tudo ocorre em paralelo com os quatro pedidos de impugnação movidos pelo PSDB, que pedem a impugnação da chapa Dilma-Temer.
E nesse ritmo, eles mantêm a antiga estratégia da direita, que já provou efetividade nos tempos de Vargas: deixam sangrar em praça pública até que o governo não tenha mais força ou cai de uma vez com uma pancada fatal.
Não faço defesa do acusado, até porque não sabe muito sobre ele. Mas pela conduta da mídia e do judiciário, fica óbvio que além de abafar a respirada do governo com a vitória sobre Eduardo Cunha na Câmara, abafam as últimas notícias sobre FHC. E naturalmente reacendem as chamas do golpe.
Enquanto o governo mal consegue se defender e se impor diante das acusações, a Lava Jato ludibria o povo com uma pegada moralizadora, mas que na verdade estrangula a economia e consequentemente o povo.
Agora é preciso saber quando o Partido dos Trabalhadores, a Presidenta e seu Ministro da Justiça irão reagir. A apatia é nefasta e fúnebre. Para piorar, parte da esquerda se isenta de qualquer ação, rachando mais uma vez. Não sei se acreditam que com a queda do PT surja uma possibilidade de disputar o cinturão ou é o moralismo da classe média, que vendo a falta de imparcialidade e coerência das acusações, opta por não dizer nada com medo de se comprometer e parecer imoral.
