Mino Carta: o ocaso de um imperador

Celso Lungaretti

Só em 2009, a revista CartaCapital já enfocou o Caso Cesare Battisti em seis textos: dois do diretor de redação Mino Carta; dois de Wálter Fanganiello Maierovitch; um creditado à redação mas obviamente escrito por ou sob a orientação de Mino Carta; e um de Cynara Menezes.

Dá mais de um texto por edição. E, sintomaticamente, os seis são absolutamente desfavoráveis a Battisti, sem nenhuma nuance, sem que tenha sido apresentado o outro lado, sem a mais ínfima contrapartida.

O bravo companheiro Rui Martins ainda tentou exercer o direito de resposta, por meio de uma carta aberta: Resposta a um jornalista e blogueiro ( http://observatorio.ultimosegundo.ig.com.br/artigos.asp?cod=520JDB015 )

Mino a postou como comentário no seu blog, sem responder.

Assim como não respondeu ao comentário que lá postei, depois publicado no meu blog com o título de O Ocaso de um Imperador ( http://naufrago-da-utopia.blogspot.com/2009/01/o-ocaso-de-um-imperador.html ).

Sanha rancorosa – Ou seja, nos dois casos teve o contraditório nas mãos e nos dois casos preferiu ignorá-lo, mantendo sua revista como um veículo de uma mão só, que mantém uma encarniçada perseguição a um homem sobre quem não pesa nenhuma suspeita ou acusação desde 1981, quando fugiu para a França.

De 1981 para cá, reconhecidamente, não passou de um indivíduo inofensivo, levando uma existência laboriosa e sofrida.

Por que Cesare Battisti é tão odiado por Mino Carta? Afinal, tal sanha rancorosa o levou a:

– adotar em sua revista uma postura tão parcial e tendenciosa quanto a da Veja, que ele costumava criticar (e, de tão transtornado que anda, chegou a citar como exemplo positivo, aprovando sua mudança de posição no Caso Battisti, quando, depois de abordar o assunto com surpreendente comedimento, a Veja voltou à postura habitual de reacionarismo furibundo);

– dedicar nada menos que 18 posts do seu blog, só em 2009, à malhação de Battisti;

– ameaçar encerrar o blog em razão da existência de muitos apoios a Battisti nos comentários de leitores que recebia; e

– depois de refugar por alguns dias, cumprir a ameaça, anunciando que não escreverá mais nem no blog nem na própria CartaCapital, principalmente por causa do Caso Cesare Battisti, o motivo mais destacado no post “A Despedida”.

Curiosamente, essa retaliação pueril contra o rebanho que ousou discordar do pastor o faz merecedor das palavras que endereçou a seus críticos, no post “Sobre o diálogo impossível”, um dos últimos que redigiu antes de abandonar unilateralmente o diálogo: “Chego à conclusão de que há pessoas com as quais é impossível dialogar. Irritadiças e até raivosas, escondem os recalques atrás de uma agressividade parva”.

Macartismo à italiana – Quanto aos reais motivos de Mino, nada tenho a acrescentar ao que já escrevi no artigo Ecos do Caso Dreyfus na Perseguição a Battisti ( http://naufrago-da-utopia.blogspot.com/2009/01/ecos-do-caso-dreyfus-na-perseguio.html )

“Durante a onda contestatória do final da década de 1960, a esquerda ortodoxa tomou o partido da ordem, ajudando a abortar a nova forma de revolução que estava nas ruas. O episódio mais conspícuo foi o da Primavera de Paris, em que jovens proletários somaram forças com os estudantes rebelados e os quadros do Partido Comunista Francês tudo fizeram para a derrota de ambos, agindo como sustentáculos de De Gaulle.

“Inconformados com o que consideraram uma traição à causa, cometida em maior ou menor escala pelos partidos comunistas, muitos esquerdistas concluíram que a revolução se tornara impossível nos quadros da democracia burguesa, resolvendo então recorrer à ação direta.

“Só na Itália, ao longo da década de 1970, cerca de 500 grupúsculos encarnaram essa opção. E, por se colocarem frontalmente contra o compromisso histórico firmado pelo PCI, foram por este combatidos como o pior dos inimigos.

“Valia tudo para erradicar o mau exemplo, pois o que estava em jogo, para os comunistas italianos, era sua própria identidade como força integrante do campo da esquerda, negada pelos ultras. Urgia tirá-los de cena, e foi o que o PCI fez, mancomunado com a direita italiana.

“Essa aliança espúria repercute até hoje, na ênfase desmedida que os italianos estão dando a um episódio secundário.

“Battisti era apenas o integrante de um desses 500 grupúsculos, sem nenhuma participação em episódios realmente marcantes. Só que, com seu êxito literário, deixou de ser um foragido anônimo e se tornou uma ameaça para quantos querem manter a sujeira do passado escondida sob os tapetes.

“É como último símbolo do martírio desatinado dos ultras que o fanfarrão Berlusconi, sempre ávido por holofotes, persegue Battisti.

“E é como testemunha viva da torpeza outrora consentida pela esquerda ortodoxa, pesando até hoje em sua (má) consciência, que o patético Napolitano persegue Battisti.”

Substituindo-se Napolitano por Mino Carta, simpatizante extremado do PCI, chegamos ao âmago da questão: a má consciência de ditos comunistas que ajudaram a martirizar os comunistas autênticos, primeiramente levando-os ao desespero ao firmarem uma aliança espúria com a burguesia para ganharem acesso à gestão do estado burguês; depois acumpliciando-se com as forças mais reacionárias da Itália (inclusive a Máfia) na repressão desmedida aos ultras, marcada por torturas policiais e aberrações jurídicas que justificam plenamente a expressão macartismo à italiana.

Não me lembro se em livro ou filme, encontrei certa vez um pensamento que me marcou muito e, dentro do possível, tenho procurado seguir: como você agiria se você soubesse vai praticar o último ato de sua vida, aquele pelo qual será lembrado?

Temo que, nessa eventualidade, Mino Carta seria lembrado como um caçador de bruxas, a clamar por sangue e vingança.

Mas, ainda tem tempo para associar seu nome a empreitadas e valores mais dignos.

Como não desejo o pior para ninguém, torço para que caia em si e perceba o mal que está fazendo a Cesare Battisti, aos ideais solidários, àqueles que neles acreditam e, inclusive, a si próprio.

Deixe uma resposta