Militares da democracia e os golpes

fabio nogueiraGraças aos meus estudos sobre história posso observar os vários lados da história, mesmo tendo um pensamento de esquerda ( as pessoas me classificam assim). Isto me deixa a vontade para fazer considerações ou mesmo críticas sobre todas as vertentes ideológicas.
Neste mês comemoramos mais um ano do golpe civil-militar que impôs ao país retocessos por duas décadas. Não fique preocupado, não vou fazer aquelas manjadas retrospectivas do golpe da direita e dos momentos de incerteza da esquerda brasileira que até hoje ainda não sabe para que veio realmente no Brasil. Claro, não posso esquecer dos verdadeiros esquerdistas que fizeram da luta por um país melhor seu meio de vida.
Não podemos deixar de citar dois momentos da história brasileira, nos quais a presença dos militares foi fundamental para a manutenção da democracia. Depois da queda do Estado Novo, de Getúlio Vargas, na metade da década de 40. E quando o Marechal Henrique Teixeira Lott foi fundamental para que Juscelino Kubitschek tomasse posse na presidência como o legítimo vencedor das eleições de 1955. Uma minoria de militares conservadores junto a Carlos Lacerda, que tinha perseguição à cor vermelha (comunismo), aliando-se ao velho jargão anticomunistas tentou impedir a entrada de JK .
Existe um quadro bem parecido hoje. O menino mimado e seus coleguinhas não se conformaram com a derrota pela terceira vez seguida nas eleições, e juntaram-se ao que há de pior no meio político conservador e empresarial para aplicar o golpe. Coincidência?
O Brasil tem sérias dificuldades no enquadramento à modernidade, o que não chega a ser nenhuma novidade. Getúlio Vargas e João Goulart passaram por este problema. Enfim a tentativa foi sufocada, o governo de Juscelino Kubitschek foi o mar de rosa. Podemos classificá-lo, de acordo com muitos historiadores, como o presidente Bossa Nova.
Henrique Teixeira Lott era o homem de confiança, a democracia e o Estado brasileiro devem agradecimentos. Até os nossos dias pouco ou quase nada fizeram para reavivar a memória do Marechal da democracia. Henrique Lott pagou caro por defender a democracia, embora não tenha ficado em desgraça foi esquecido. Existem pouquíssimos logradouros ou estabelecimentos de ensino que tenham o seu nome. Bem mais fácil encontrar nomes de opressores e golpistas nas ruas ou escolas .
O mesmo acontece com os militares junto ao Governador do Rio Grande do Sul, Leonel Brizola, que detiveram outra tentativa de golpe sobre um governo legítimo em 1961. O evento marcou a história política do país e ficou conhecido como a campanha da legalidade. Foi um dos poucos momentos em que civis e militares juntaram-se para evitar um desastre contra a democracia. O personagem deste acontecimento era o comandante Machado Lopes, que evitou o banho de sangue no Palácio Piratininga ao rechaçar o bombardeio aéreo contra os legalistas do sul. O auto comando do III Exército baseado em território Gaúcho abraçou a luta contra o golpe, e enquanto isso sargentos da aeronáutica impediram a decolagem dos jatos que iriam bombardear o palácio governamental.
A democracia venceu!
A função de historiador não permite ser infiel aos acontecimentos. Poderia execrar ou demonizar as forças armadas em toda a história dela, mas não serei honesto comigo, com os demais, com as forças armadas e a História.
O momento político que atravessamos permitiu o surgimento de manipuladores históricos de todas as correntes ideológicas. Sabemos que no decorrer do tempo as duas forças políticas erraram. Não isento a transtornada direita, que nunca aceitou perder, e a esquerda não tão simpatizante da democracia .
Já combalida e com dias contatos, os dois últimos presidentes militares da ditadura começaram a pôr em prática o caminho para redemocratização do país. O Gen. Geisel revogou o Ato institucional n.5 (AI-5), mesmo contra a vontade dos militares radicais. Seguindo o processo de redemocratização do país, o Gen. João Baptista Figueiredo disse no dia da sua posse que entregaria o Brasil de volta às mãos dos civis. Os militares exaltados fizeram de tudo para não sair do poder, cometeram atos de terror em instituições como O.A.B ( Ordem dos Advogados do Brasil).
O golpe de 64 não deve ser comemorado como a vitória da democracia. Pensávamos que a ferida estivesse fechada, mas foi um erro pensarmos assim. O golpe voltou e derrubou uma chefe de governo eleita democraticamente. Só nos resta tirarmos várias lições para que outros golpes não caiam sobre nós.

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