Michael Lowy: Resenha de 'Romantismo e Messianismo'

Michael Lowy, diretor emérito do Centre National de la Recherche Scientifique (CNRS-França) em Paris, escreve “Romantismo e messianismo: ensaios sobre Lucáks e Walter Benjamin”, para mostrar o romantismo e o messianismo como ideais de pensadores, como Lukács e Benjamin. Para historiografia, a obra tem novidade de mapear influências alternativas (heterodoxas) no marxismo europeu do século XX. Para iniciá-la faz a indagação: “Será o romantismo um movimento essencialmente conservador ou revolucionário?”.
Michael Lowy iRepercute a pergunta construindo quatro ‘tipos’ de românticos: 1) romantismo retrógrado: visa restabelecer o estado social precedente; 2) romantismo conservador: quer manter a sociedade dos não influenciados pela Revolução Francesa; 3) romantismo desencantado: assume que o retorno ao passado é impossível influindo na compreensão de que o capitalismo é irreversível; 4) romantismo revolucionário: retorno as comunidades do passado e reconciliação do presente. A dimensão romântica revolucionária no marxismo desaparece no fim do século XIX e o começo do XX, com exceção, de Rosa Luxemburgo. Ela que se preocupa em traçar elementos da comunidade primitiva. Também, Lukács se aproxima a tradição do romantismo alemão na celebre: História e consciência de classe de 1923.
Crítica
Pelo ajuste de Lowy a crítica essencial do anti-capitalismo romântico ocorre à civilização industrial/burguesa em nome de valores sociais e culturais pré-capitalistas. Também, “a crítica romântica raramente é sistemática ou explícita e poucas vezes se refere diretamente ao capitalismo” (p.36). Se crítica á quantificação da vida, isto é, a total dominação do valor de troca, cálculo frio e leis de mercado. Por isso, a “civilização industrial as qualidades da natureza (beleza, saúde) não existam: ela leva em consideração apenas as quantidades de material bruto que podem ser extraídos daí” (p.39). O romântico anti-moderno o ideal nostálgico de Rustin é o passado gótico, medieval. Sobre Marx, pode-se dizer que não tem relação direta com o romantismo, aparentemente. Contudo, o autor sugere que o romantismo anticapitalista seja a fonte esquecida de Marx, e que seja tão importante para o trabalho quanto o neo-hegelianismo alemão (p.43). O que pode ser aferido em Das Kapital quando critica o caráter demonizante do trabalho capitalista, sendo uma forma degradada das qualidades humanas. O fim da ideologia de Marx seria a comunidade socialista de progresso com a maquinaria reduzindo o tempo do trabalho. Portanto, sua visão não nem romântica nem utilitária, mas Aufhebung, dialética de ambas. Crítica e revolucionária ao mesmo tempo.
Renascimento
Para o autor, Lukács só pode ser estudado no quadro vasto do renascimento religioso nos intelectuais da Europa Central na virada do século XX. Nele, ocupa lugar central na volta da religião do passado, o catolicismo da Idade Média, criticando o urbano, nacional, á mercantilizarão de vínculos por meio do romantismo anticapitalista. Nesse contexto, entende os textos de Max Weber quando assinala que o capitalismo industrial se reconhece por um desencantamento do Mundo, e, ele, seu círculo de Heidelberg, faziam isso revisitando ideias neo-românticas. Dois, do grupo, Bloch e Lukács eram vinculados ao messianismo, mas o último punhava um misto de ideias entre os místicos da Idade Média e da espiritualidade russa de Dostoiévski (p.59).
No quarto capítulo, Lowy, destaca de Lukács o conceito de reificação. Com ele, pretendia “decifrar os hieróglifos sociais”.
Mais:
Michael Lowy analisa em livro a evolução do pensamento de Marx
Michael Löwy: “O novo Código Florestal é um exemplo da avidez por lucros que ameaça as florestas”
O futuro da Europa será decidido na Grécia
Lukács não tem uma visão neutra nem imparcial da sociedade, mas, partidária, crítica. Admitindo que a reificação comportasse o conceito de fetichismo da mercadoria de Marx e a análise da sociologia de Simmel. Por meio dele, Lukács caminha do romantismo anticapitalista em direção ao marxismo, integrando o marxismo e o romantismo. Lowy entende que toda sua obra seria uma rearticulação de temas do romantismo por meio da estrutura marxista; sendo a reificação, em Lukács o “processo através do qual os produtos do trabalho humano (e o próprio trabalho) se tornam um universo de coisas e relações entre coisas” (p.72). Indo mais adiante, aponta que para Lukács a burocracia pode acabar na reificação política; e especialmente, a ciência burguesa não trás a luz formas reificadas, mais é a “reificação ou coisificação das relações sociais na mercadoria e no dinheiro é apenas uma aparência e uma ilusão da consciência burguesa” (p.84). Sendo parte da teoria econômica.
Gramsci e Lucáks
No capítulo seguinte, Lowy destaca dois autores fundamentais do século XX: Gramsci e Lukács, fundadores do marxismo Livro-MichaelLowy-iocidental. Colocados a lado, buscam “superar a visão positivista dele”, Lukács caracterizava Gramsci como “o melhor dentre nós” (p.99). O pensador italiano traça analogias do romantismo anticapitalista e do comunismo ético. Sobretudo, acreditava na luta da unidade operária e camponesa como uma estratégia revolucionária anticapitalista, como Lukács em: O Pensamento de Lenin (1924). Ambos foram contra o isolamento do partido, lutando contra o positivismo do marxismo: primeiro, com a utilização do historicismo radical; segundo, percebendo o marxismo como uma visão de mundo radical, nova e explícita; e terceiro, a revolução proletária ponto alto da reflexão marxista.
Para o autor, outro que tem um lugar de destaque por Lukács é Lucién Goldmann. No qual, descobre por ‘acaso’ as obras da juventude de Lukács, sendo por um longo período, o único a reconhecer a importância da obra. Dialogando com a obra de literatura do jovem Lukács desenvolve o conceito de trágico. Agora, na leitura de Goldmann a partir de Lukács, a relação entre o messianismo judeu e as modernas ideias revolucionárias passa a ser um objeto da discussão no marxismo. Pois, primeiro, o messianismo judeu era uma corrente restauradora do passado e utópica com futuro novo de que nada jamais existiu. Segundo, para Gerschom Scholem o messianismo judeu a redenção é um acontecimento histórico, ocorre no devir da humanidade. Terceiro, o messianismo judeu chamado por Scholem de “anarquista” o Messias interfere na abolição das restrições da Torah, permitindo uma nova série de ações.
Fenômeno Amplo
Na descrição de Lowy, o romantismo é um fenômeno amplo que vai da religião, política (esquerda e direita), história, até a economia. Pensadores e movimentos são listados pelo autor que possuem ideias anticapitalistas recheadas de concepções utópicas messiânicas. Tais, como o movimento anarquista com Franz Rosenzweig e sua: A Estrela da Redenção. Obra que é uma tentativa de renovar a teologia judaica a partir do romantismo. Já, a obra de Scholem, judeu de classe média estudioso da Cabala, do messianismo herético de Sabatai Tzvi, indo até a utopia messiânica, que não é o sionismo, mas o anarquismo. Destaca-se os anarquistas religiosos judaizantes, com Gustav Landauer, autor de “um messianismo judeu de caráter anarquista” (p.159), propondo um retorno simples ao passado, e pedindo o retorno ás fontes passadas comunitárias do passado pré-capitalista. Também, o movimento dos judeus assimilados, ateus-religiosos, e anarco-bolchevistas: traçado pelo discípulo de Gustavo Landauer, Ernst Toller. Ele que tinha posição pacifista concebendo o socialismo, como negação do Estado, da industrialização, retorno as comunidades rurais descentralizadas. Para Toller “a utopia de uma revolução libertária-pacifista está extremamente ligada nos primeiros dramas de Toller, à esperança da redenção messiânica” (p.179), e o messianismo judaico-cristão de Bloch, que descreve o “marxismo e o sonho do absoluto, para tarefa grandiosa da ‘reconstrução do astro Terra, e convocação, criação e imposição do Reino’” (p.185).
Benjamin
No penúltimo capítulo, Lowy abre o tema de Benjamin tratando do famoso conceito de “escovar a história a contrapelo” proposto na sua: Teses sobre a Filosofia da História. Também, recusa a ilusão do progresso, pois “a evolução técnica e cientifica sob o capitalismo ameaça principalmente graças ao progresso da guerra química, a sobrevivência da civilização humana” (p.192). Agora, Benjamin flerta com a teologia, chamando de “espírito messiânico” sem o qual, “a revolução não pode triunfar nem o materialismo histórico” (p.195). A utopia seria a união das experiências da sociedade sem-classe primitiva no inconsciente coletivo “em ligação recíproca com o novo” (p.197). Para Benjamin a modernidade é o inferno, dominada pela mercadoria formatada no universo da repetição. Explicitamente, Lowy lista ao longo do livro, os problemas de Benjamin, bem como teóricos identificados em vários graus ao marxismo com a tecnologia com suas alocações no romantismo. O movimento faz negação nostálgica pelo antigo modo de vida pré-capitalista. No seu raciocínio a tecnologia seria um fato histórico que se determina pelo capitalismo, e que, a partir do seu romantismo revolucionário, Walter Benjamin, sonha com uma sociedade completamente liberada. A tecnologia deixaria de ser “um fetiche do declínio” para se tornar “uma chave para a felicidade” (p.209). Quando uma humanidade emancipada poderá iluminar os segredos da natureza graças á tecnologia “mediatizada pelo esquema humano das coisas” (p.209).
Modernidade Científica
Enfim, o professor emérito do CNRS encerra o livro apontado que Benjamin oferece imagens, utopias e alegorias, contra o concreto da modernidade cientifica. Enaltecendo a alternativa do projeto romântico pacifista e ecológico que estava porvir.
Seu livro é um esforço admirável ao reunir em 213 páginas os ‘vínculos afetivos’ do romantismo e do messianismo com ideias revolucionárias de Lukács e Benjamin. A partir disso, traça relação entre as vivências do início do século XX com elementos que possibilitaram o neo-romantismo do centro da Europa na modernidade. Ao longo das páginas, não economiza nomes e autores que ajudam a constituir o movimento se alastrou pela Europa evidenciando dados sobre História das Ideias (Mentalidades) e do Marxismo no século XX. Com competência utiliza livros e artigos mapeando a influência das duas correntes centrando nos dois representantes do marxismo europeu. Mostra que o projeto anticapitalista de Lukács e de Benjamin bebe das fontes românticas que iluminam suas reflexões revolucionárias.
LOWY, Michael. Romantismo e messianismo: ensaios sobre Lucáks e Walter Benjamin. Tradução: Myriam Vera Baptista e Magdalena Pizante Baptista, 2 edição, São Paulo: Perspectiva, 2012, 213p.
 


 
(?) Fábio Py Murta é doutorando em Teologia pela PUC-RIO. Matéria especial para Caros Amigos.

Deixe uma resposta