Carnaval: “A descaracterização é lamentável e vem desse relacionamento com o chamado mercado”

Ivan Proença, presidente durante 10 anos do Conselho de Carnaval da Riotur. Foto: Eduardo Sá.

Há aproximadamente 15 anos, o próprio órgão não soube precisar, foi extinto o Conselho de Carnaval da Empresa de Turismo do Município do Rio de Janeiro (Riotur). Ivan Cavalcanti Proença, professor, mestre e doutor em Literatura Brasileira, autor de inúmeros livros sobre cultura popular brasileira, inclusive colaborador de obras sobre o carnaval, foi seu presidente durante 10 anos, em cargo eletivo não remunerado. Foi também diretor de Cultura e presidente do Conselho de Folclore do Estado do Rio de Janeiro, além de capitão do Regimento Presidencial de João Goulart.
Proença conta um pouco da disputa travada dentro da instituição para o bom andamento da festa na apoteose. Segundo ele, é lamentável a descaracterização do carnaval que vem do alinhamento ao mercado, fruto também da busca do lucro por parte de sua cúpula. Faz críticas à contravenção que domina o carnaval, através da Liga Independente das Escolas de Samba do Rio de Janeiro (LIESA), e análises sobre sua relação com a prefeitura. Fala ainda a respeito do carnaval carioca, do ponto de vista cultural, e sobre mídia, na responsabilidade de conselheiro da Associação Brasileira de Imprensa (ABI).
Qual era a atribuição desse conselho?
Enfrentávamos todo ano a estrutura do relacionamento da Riotur com a Liga, aí fecharam o Conselho. E não era remunerado, nem a alegação de despesa ou economia podia dar. Tinha os melhores estudiosos e pesquisadores ligados intensamente ao carnaval que eu conheço. Realizava palestras, seminários e julgava as escolas, de uma forma independente. Levaram todo o nosso material que havia ali no Museu do Carnaval, no sambódromo, para a Cidade do Samba, que a prefeitura deu dinheiro também para fazer alguma parte. O Hiran Araújo, que era funcionário da Riotur, foi quem nos convidou para participar dessas atividades de carnaval. Mas ele já tinha, soubemos em seguida, uma ligação com a LIESA: hoje é seu diretor cultural. Sabe bem as raízes do carnaval, fez o livro A memória do carnaval na Riotur, que eu colaborei.
O problema é que tem de haver uma licitação, isso não pode ser assim. Porque eles vão criando raízes dentro das escolas, algumas velhas guardas reagem e outras não. No meio do carnaval, há quem diga que eles são importantíssimos, já criaram raízes dentro das comunidades. Na época do conselho, grande parte do lucro ia para Liga, não era da Riotur, isso foi dito pelo tesoureiro. Digamos que 80% do lucro era deles, então era um grande negócio. Ao mesmo tempo, viviam um intimismo à sombra do poder, porque visitavam o palácio Guanabara, alguns governadores, davam camarotes às autoridades políticas. Conseguiam criar um clima favorável à permanência e gestão do carnaval sem licitação. Eles também escolhem os jurados, que dão as notas finais desse carnaval que é irradiado. Tínhamos o nosso júri do Conselho da Riotur, mas ninguém dava a menor bola, não raro nós mesmos dávamos os prêmios às escolas. Estou afastado do carnaval há alguns anos, mas algumas pessoas estão lá.
O período do Conselho coincidiu com essa aproximação da LIESA e Riotur?
Mais ou menos, eu fui presidente do Conselho por dez anos, eleito e reeleito. E a LIESA passou por uns três presidentes durante esse período, que era dos contraventores. Esse atual presidente [Jorge Castanheira] já estava no final da nossa gestão, mas ele não é um bicheiro, é uma pessoa que colocaram lá. O que a gente acha estranho é a manutenção dessa estrutura, que agora sofreu um abalo porque resolveram pelo indiciamento de alguns dos líderes, que estão respondendo a processos e sendo procurados. Mas é curioso porque o “reinado” deles criou uma estrutura tal que se desvinculou muito do que se pretendia em relação às escolas de samba. Essa questão do luxo, do patrocínio, de muito dinheiro investido, da descaracterização das comunidades, da profissionalização, por exemplo, de um mestre sala e de um porta bandeira ou intérpretes que puxam o samba. Alguns deles vão para onde der mais dinheiro, isso vai tirando a identidade cultural dos bairros e das comunidades, embora algumas escolas ainda se esforcem para mantê-la. Os passos coreografados estão com uma importância maior que a dos passistas, que não são mais fundamentais dentro da escola. E nisso a broadway é imbatível, agora algumas das alas das nossas comissões de frente têm coreografias desse tipo musical, mas é esse o caminho? E o gigantismo também, passar mais de 4 mil pessoas naquele tempo, não raro as escolas perdem a formação estrutural e apressam o final do desfile, isso é uma coisa inaceitável. Se tiver 4 mil figurantes, vamos dizer que mais da metade paga a fantasia porque a fantasia só é dada à bateria, baianas e crianças. Você vê “foliões” vindos do Canadá, de vários lugares, e desfilando nas escolas. Víamos ali nas cadeiras de pista as pessoas desfilando por até três escolas, porque as pessoas têm dinheiro para comprar a fantasia, sem saber cantar o samba ou sambar. Nada contra uma juventude bronzeada e sarada de praia, mas muitos deles iam ali desfilar num happening e não no espírito do samba, do desfile, dos passos, da autenticidade, da dança. Então ficou uma grande indústria, e o intimismo à sombra do poder fez com que eles fossem também ganhando as autoridades políticas.
Nesse ano parece que surgiu uma proibição da Liga dar camarotes às autoridades políticas e governamentais, parece que de fato se cumpriu mas não tenho certeza porque a gente nunca sabe muito bem dos bastidores. Mas há, enfim, toda uma descaracterização, houve uma época que o presidente da LIESA comunicou a Riotur que não era mais necessário o tema ser brasileiro. Constava nos regulamentos o tema brasileiro para o desfile das escolas, já estavam de olho nessa coisa de Disneyworld e perfume francês na busca de maiores patrocínios. Quando eu interpelei a própria Riotur, veio a resposta de que não cabia mais só tema brasileiro porque já estavam esgotados. Parece até piada, brincadeira uma coisa dessa. Não por coincidência para buscar uma história que pudesse trazer mais patrocínios para as escolas. Essa coisa do patrocínio é esquisita, porque você jamais iria supor escolas tradicionais com temas que não têm nada a ver com a história da cultura brasileira. Nossa identidade cultural é vasta e popular, há uma imensidão de temas prontos para serem abordados.
Fiz uma matéria recentemente sobre uma carta entregue por movimentos à presidência da Vila Isabel, criticando o apoio da Basf no sentido de que a empresa estava comprando uma imagem associada à biodiversidade embora defenda o agronegócio. Mas não consegui chegar aos valores, é uma coisa meio caixa preta.
É muito difícil, complicado. De qualquer maneira você vê grandes sambistas como os que fizeram o samba da Vila Isabel, como Martinho da Vila e Arlindo Cruz, pessoas muito competentes. Foi o nosso júri que fez os critérios de julgamento do samba de enredo na época, era baseado em livros nossos, e hoje ainda é quase o mesmo. Ocorre que primeiro o samba de enredo para passar no tempo estipulado com 4 mil participantes fica descaracterizado: 70% das composições das escolas são marchinhas pelo andamento rítmico, e não sambas. Os grandes compositores aos poucos foram se afastando, os da qualidade de um Silas [de Olivera], por exemplo. Um samba de enredo tradicional, versos mais longos e com andamento de samba, coloca em risco as escolas ultrapassarem o tempo e serem penalizadas.
“O próprio monopólio da Rede Globo é algo delicado”, afirma conselheiro da Associação Brasileira de Imprensa (ABI). Foto: Eduardo Sá.

Essa coisa de gente que vem de todo lugar, desde que tenha grana para comprar as coisas, é uma descaracterização. Ainda assim acontecem coisas maravilhosas no carnaval, porque a cultura do povo por ela mesma resiste de alguma forma. Isso acontece no futebol, no cordel, nos folguedos e no carnaval. A descaracterização é lamentável, vem desse relacionamento com o chamado mercado, o comércio e a industrialização do carnaval.
Essa comercialização é reflexo dessa cúpula da LIESA, na perspectiva do lucro acima de tudo?   
Acho sim, é do lucro. Nesse sentido eles não têm culpa não, são apenas os causadores disso com tolerância dos órgãos governamentais. Alguém acredita que esses líderes da Liga gastem dinheiro por amor à cultura e a escola? Não, quando muito certa intimidade com o bairro. Mas, na verdade, o lucro é o grande condutor disso tudo, que implica nessa coisa do mercado. É um grande negócio e alguns vivem aquilo intensamente. Alguém acredita que possa ser desinteressado? Não, agora como começou tudo isso, a rendição, é difícil precisar.
Qual a origem dessa relação do jogo do bicho com o carnaval?
A gente não consegue estabelecer um elo que defina uma razão plausível para isso, porque desde Pelo Telefone, que foi o primeiro samba, o jogo do bicho já estava. Existe uma história do jogo do bicho de certa forma romântica de outrora, mas hoje não se pode romantizar. A disputa por bicho e tráfico é antropofágica, muito séria. Não tem a proporção do tráfico, é claro, mas é uma coisa também braba e de certa forma violenta em proporções menores. A gente soube até por matérias de jornais que existem manipulações no próprio jogo, e era uma coisa sentida como “séria”, confiável. Enfim, se é contravenção não pode haver esse jogo com o poder. Mas o poder também não faz esse jogo por fazer, não é? Sabemos que por detrás disso tudo deve haver coisas impercrustáveis, que a gente não consegue deslindar. Não cabe a nós também, apenas tivemos um trabalho que foi conduzido por pessoas competentes, corretas e sérias, e que de um dia pra noite acabou. Saiu em diário oficial essa extinção, soubemos por um comunicado oficial, o conselho estava desfeito porque a gente estava questionando cada vez mais esse vínculo da Riotur com a LIESA.
As prisões dos líderes da LIESA vão mudar algo ou já está institucionalizado esse modelo?
Eu não quero falar sobre o aspecto policial, mas quando eu vi o prefeito declarar que ia abrir licitação, colocar as coisas nos seus lugares em relação ao carnaval, achei que estava mudando realmente. Mas não mudou nada, ontem (13) eu vi a entrega dos resultados, a apuração, e é a mesma estrutura: presença de autoridades, a questão da locução, do presidente da LIESA, etc. Só não vi alguns grandes figurões, porque aí já entra o aspecto de eles estarem sendo procurados e tudo mais. Mas também não se pode perder a esperança, tem essa questão dos blocos que não havia e hoje tem até demais. A coisa está ficando meio institucionalizada, se é para disciplinar bloco então melhor é no sambódromo, é mais organizado. E se é para não disciplinar tem acontecido fatos lamentáveis de destruição, falta de educação, de respeito, uma bagunça geral. As pessoas para sair de casa têm que saber se vai ter bloco para saber se vão chegar ao seu destino.
Vi com muito bons olhos o ressurgimento dos blocos, mas já estão tentando fazer lugares vip pagando. Está virando uma industriazinha, o gigantismo, as pessoas transformaram num happening. Tem que tomar cuidado, antes que esses blocos virem mini escolas de samba com uma nova LIESA os gerindo. Mas eu não perco a esperança de que o carnaval do povo mesmo, sua alegria, mesmo o sambódromo tendo outra estrutura, as escolas de samba se conscientizem de que não é por aí. Tem que haver um mínimo de identidade com a escola, bairro e comunidades. Algumas dessas escolas de carnaval luxuoso e gigantesco têm comunidades que participam de verdade, critica se muito a Beija Flor por toda essa história do luxo, mas na verdade a comunidade é muito participante. A mangueira é muito comunitária também, mas diante de um gigantismo assim ela vai perdendo tudo isso. Isso tudo é possível resolver, agora haja vontade política.
Só a licitação geraria mudanças na parte cultural das escolas e inibiria a roubalheira?
A licitação seria um projeto pré estabelecido de requisitos para se candidatar mediante uma previsão de contrato, assim seria possível mudar. Mas quanto mais tempo passar é pior, porque vai se criando um mito de que eles é que são capazes de fazer isso. Dentro das próprias comunidades há quem ache isso, inclusive algumas velhas guardas. Então é preciso que haja um trabalho de troca de ideias, e não de conscientização de cima para baixo. A ideologia deve partir sempre das massas, e não imposta e doutrinada por quem detém um poder intelectual ou de consciência sociológica. É preciso um diálogo aberto, algo com muita clareza. Dei muitas aulas sobre samba de enredo às escolas no Conselho, nas suas quadras e no museu da imagem e do som, e há disposição boa de representantes comunitários que participam da preparação do carnaval. Mas a iniciativa cabe aos órgãos governamentais encarregados do carnaval.
Você falou da relação do estado com a LIESA, mas como entra a mídia nesse esquema?
A mídia é constatativa, não transformadora, e o próprio monopólio da Rede Globo é algo delicado. Ela tem presença competente, porque tem bons jornalistas. Mas na verdade a grande imprensa constata, e o alarde vem em função da constatação. É esse o rumo? Então vamos alardear nesse rumo. Ela também não tem a missão a priori de ser contestadora, mas sim de ser crítica. Contestar se preciso, mas tem a missão crítica porque é formadora de opinião. Às vezes fica um pouco utópica e sonhadora essa ideia de imprensa, porque quem são os donos dos jornais e das empresas de televisão e rádio? A ideologia deles que prevalece, não é a de nenhum dos competentes jornalistas. Alguns redatores e chefes de redação dão mais liberdade aos seus jornalistas, e às vezes estabelecem um caminho diverso nas opiniões até como forma de aparentar imparcialidade. Mas é um sistema de aparência, no fundo o que vai prevalecer é o que interessa ao poder, ao dono, e isso é uma questão muito delicada. Veja o que está acontecendo na Argentina com o Clarín, que é uma espécie de Rede Globo de lá, e aqui no Brasil qualquer coisa é censura. Claro que não pode haver censura, é uma praga, mas por outro lado parte de quem detém o poder econômico, que geralmente é também quem detém os jornais, as rádios, as televisões. Então é uma coisa perigosa, difícil.
No caso do carnaval, a Globo ganhou da prefeitura R$ 5 bilhões para a cobertura…
Está aqui na capa do jornal O Dia de hoje (13), o privilégio que se dá a uma emissora mais poderosa é muito constrangedor. Isso eu vi no próprio carnaval, e eu lido com muito futebol também, o privilégio que se dá a uma emissora mais poderosa existe mesmo, isso não há como negar. Eles têm privilégios incríveis com a notícia, mas a notícia não pode ter privilégios. Tomara que um dia a gente possa ver uma mídia de fato independente. Eu leio Caros Amigos, às vezes Piauí, CartaCapital, mas as três revistas que dominam o mercado é aquilo que eu dizia aos meus alunos: Não Veja, Isto Não É, Fora de Época. Mas são as revistas que dominam, inclusive nas bancas, consultórios, sala de professores, tudo quanto é lugar.

Um comentário sobre “Carnaval: “A descaracterização é lamentável e vem desse relacionamento com o chamado mercado””

  1. Como dizia Brizola que afirmava que a Globo é um cancer na sociedade brasileira.
    É incrivel ao ponto que chega o poder. A prefeitura dar 5 Bilhoes de reais é um absurdo. Para quem não se lembra,quando Brizola idealizou o sambodromo,as organizaçoes Globo foi a maior opositora a construção da mesma. Foi contra os dois dias de desfiles alegando que teria alterar toda a sua programação. Hoje quem quer ver desfile das escolas de sambas tem esperar a boa vontade da Globo para transmitir o desfile. Eu,não perco mais meus tempo vendo o desfile desse jeito.

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