Mensagem do Papa Francisco

Angelus” – Dia 24.10.2021

O Evangelho da Liturgia de hoje acerca de Jesus conta que, saindo de Jericó, deparou-se com Bartimeu, um cego a mendigar pela estrada. É um encontro importante, o último antes da entrada do Senhor em Jerusalém, por ocasião da Páscoa. Bartimeu havia perdido a vista, mas não a voz! De fato, quando sente que Jesus está por passar, começa a gritar: “Jesus, filho de Davi, tem piedade de mim!” E grita, segue gritando assim. Os discípulos e a multidão ficaram incomodados pelos seus gritos e o repreendem para se calar. Mas ele grita ainda mais alto: “Filho de Davi, tem piedade de mim!” Jesus escuta, e, de repente, para. Deus sempre escuta o grito do pobre, e não fica de modo algum perturbado com a voz de Bartimeu, pelo contrário, Ele se dá conta é um grito cheio de fé, uma fé que não tem medo de insistir, de bater no coração de Deus, apesar das incompreensões e das repreensões. E justamente aqui se acha a raiz do milagre. Com efeito, Jesus lhe diz: “Tua fé te salvou”.

A fé de Bartimeu transparece em sua oração. Não é uma oração tímida, convencional. Antes que mais, chama o Senhor de “Filho de Davi”: isto é, O reconhece como Messias, Rei que vem ao mundo. Em seguida, O chama pelo nome, com confiança: Jesus! Não tem medo Dele, não toma distância. E assim, de coração, grita ao Deus amigo todo o seu drama: “Tem piedade de mim!”. Apenas esta oração: “Tem piedade de mim!”. Não Lhe pede dinheiro como faz em relação aos transeuntes. Não. Àquele que tudo pode, ele pede tudo. Ao povo ele pede uns trocados, a Jesus que pode tudo, ele pede tudo: “Tem piedade de mim, tem piedade de tudo que eu sou”. Não pede uma graça, mas apresenta-se a si mesmo: pede misericórdia para sua pessoa, para sua vida. Não é um pedido pequeno, mas é belíssimo, porque invoca a piedade, isto é, a compaixão, a misericórdia divina, Sua ternura.

Bartimeu não usa muitas palavras. Diz o essencial e se entrega ao amor de Deus, que pode fazer sua vida reflorescer cumprindo o que é impossível aos homens. Eis por que ele não pede esmola ao Senhor, mas manifesta tudo: sua cegueira e seu sofrimento, que ia além do não poder ver. A cegueira era a ponta do iceberg, mas, em seu coração, havia feridas, humilhações, sonhos desfeitos, erros, remorsos. Ele orava com o coração? E nós? Quando pedimos uma graça a Deus, colocamos na oração também a nossa própria história, nossas feridas, humilhações, o sonhos desfeitos, erros, remorsos?

“Jesus, Filho de Davi, tem piedade de mim!” Façamos também nós hoje esta oração. E nos perguntemos: “Como vai minha oração”. Que cada um de nós se pergunte: “Como vai a minha oração?”. É corajosa, tem a insistência boa daquela de Bartimeu, sabe como agarrar o Senhor que passa, ou se contenta de fazer uma pequena saudação formal apenas quando me lembro? O tipo de oração morna que não serve pra nada. E depois: minha oração é substanciosa, desnuda o coração diante do Senhor? Eu lhe conto a história e os rostos da minha vida? Ou é anêmica, superficial, feita de rituais sem afeto e sem coração? Quando a fé é viva, a oração é sincera: não mendiga trocados, não se reduz às necessidades momentâneas. A Jesus que tudo por, tudo é pedido, com minha insistência perante ele. Ele não vê a hora de derramar Sua graça e Sua alegria em nossos corações, mas somos nós que mantemos distância, talvez por timidez ou preguiça ou por incredulidade.

Quantos de nós, ao orarmos, não acreditamos que o Senhor possa fazer o milagre. Vem à mente aquela história, que vi, daquele pai a quem os médicos tinham dito que sua filha de nove anos não passaria da noite. Estava no hospital. E ele tomou um ônibus e viajou setenta quilômetros até o Santuário de Nossa Senhora. Estava fechado, mas ele, agarrando-se ao portão, passou a noite toda orando: “Senhor, salva-a! Senhor, dá-lhe a vida”. Orava à Nossa Senhora, durante toda a noite clamando a Deus, gritando do coração. Depois, de manhã, ao regressar ao hospital, encontrou sua mulher a chorar. Ele pensou: “ela morreu”. E sua esposa lhe disse: “Não entendo, não entendo, os médicos dizem que há algo estranho, parece estar curada”. O grito daquele homem que pedia tudo, foi escutado pelo Senhor que lhe deu tudo. Esta não é um estória; eu mesmo presenciei, na outra diocese. Será que temos esta coragem na oração? Àquele que tudo pode dar, tudo pedimos, como Bartimeu, que é um grande mestre, um grande mestre da oração. Que Bartimeu nos sirva de exemplo com sua fé concreta, insistente e corajosa. E que Nossa Senhora, virgem orante, nos ensine a nos voltarmos a Deus de todo coração, confiantes de que Ele escuta atentamente toda oração.

Trad: AJFC

Digitação: EAFC

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