Mensagem do Papa Francisco

“Ângelus” – dia 04.07.2021

Caros irmãos e irmãs, bom dia!

O Evangelho que lemos na liturgia deste domingo nos narra a incredulidade dos conterrâneos de Jesus. Após haver pregado em outras aldeias da Galiléia, Ele passa de novo por Nazaré, onde havia crescido com Maria e José. E, em um sábado, Ele se põe a ensinar na sinagoga. Ao escutá-Lo, muitos se perguntam: “Donde lhe vem tanta sabedoria? Este não é o filho do carpinteiro e de Maria, isto é, dos nossos vizinhos que tão bem conhecemos?”. Diante de tal reação, Jesus afirma uma verdade que passou a fazer parte também da sabedoria popular: “Um profeta só é desprezado em sua pátria, pelos seus parentes e em sua casa”. Quantas vezes nós dizemos isto.

Vamos limitar-nos à atitude dos conterrâneos de Jesus. Podemos dizer que estes conhecem a Jesus, mas não O reconhecem. Há uma diferença entre conhecer e reconhecer. Com efeito, esta diferença nos faz entender que podemos conhecer diversas coisas sobre uma pessoa, podemos ter uma ideia dela, confiar naquilo que outros dizem a seu respeito, até mesmo encontrá-la na vizinhança, mas tudo isto ainda não é suficiente. Trata-se de um conhecimento, eu diria, ordinário, superficial, que não reconhece o caráter único daquela pessoa. É um risco que todos corremos: pensamos conhecer tanto uma pessoa, e o pior é que a etiquetamos e a enquadramos em nossos preconceitos. Do mesmo modo, os conterrâneos de Jesus o conhecem já há trinta anos e pensam que dele sabem tudo! “Mas este não é o moço que vimos crescer, o filho do carpinteiro e de Maria? Mas de onde lhe vêm essas coisas todas?”. A desconfiança. Na verdade, já não estão mais de acordo quanto a quem é realmente Jesus. Eles esbarram na exterioridade e recusam a novidade de Jesus.

E aqui chegamos ao cerne do problema: quando fazemos que prevaleça a comodidade do costume e a ditadura dos preconceitos, é difícil que nos abramos para a novidade, que nos deixemos maravilhar-nos. Nós nos deixamos controlar pela força do hábito e dos preconceitos. Muitas vezes, acaba que da vida, das experiecias e até das pessoas só buscamos confirmar as nossas ideias e os nossos esquemas, para não termos mais a fadiga da mudança. E isto também pode ocorrer em nossas relações com Deus, justamente pode acontecer a nós crentes, a nós que pensamos conhecer Jesus, já conhecer muito sobre Ele e que apenas nos basta repetir as coisas de sempre. Só que isto não é suficiente para Deus. Sem abertura ao novo e, sobretudo – ouçam bem – abertura às surpresas de Deus, sem encantamento, a fé se torna uma ladainha cansada que morre lentamente e se torna um hábito, um hábito social. Eu disse uma palavra – o maravilhamento. O que é este maravilhamento? O maravilhamento acontece no encontro com Deus: “Encontrei o Senhor”. Leiamos o Evangelho: quantas vezes a gente que encontra Jesus e O reconhece, sente este maravilhamento. E nós, a partir do encontro com Deus, devemos andar nesta estrada: sentir o maravilhamento. É como se fosse o certificado de garantia de que aquele encontro é verdadeiro, não é rotineiro.

Enfim, por que os conterrâneos de Jesus não O reconhecem e Nele não crêem? Por que? Qual o motivo? Podemos dizer, em poucas palavras, que não aceitam o escândalo da Encarnação. Não conhecem este mistério da Encarnação, mas não aceitam o mistério. Não sabem, mas o motivo é inconsciente e percebem que é um escândalo que a imensidão de Deus se revele na pequenez de nossa carne, que o Filho de Deus seja o filho do carpinteiro, que a divindade se esconda na humanidade, que Deus habite no rosto, nas palavras, nos gestos de um simples ser humano. Eis aí o escândalo: a Encarnação de Deus, a sua concretude, sua cotidianidade. E Deus se fez concreto em um ser humano, Jesus de Nazaré, se fez companheiro de estrada, se fez um de nós. “Você é um de nós: dizer isto a Jesus é uma bela oração! E porque Ele é um de nós, Ele nos atende, nos acompanha, nos perdoa, nos ama muito. Na verdade, é mais cômodo um Deus abstrato, distante, que não se imiscui às situações e que aceita uma fé longe da vida, dos problemas, da sociedade. Ou então nos agrada crer em um deus dos efeitos especiais, que só faz coisas excepcionais e sempre provoca grandes emoções. Ao contrário disto, caros irmãos e irmãs, Deus se incarnou: Deus é humilde, Deus é terno, Deus é um Deus escondido, Ele se faz próximo de nós convivendo com a normalidade de nossa vida diária. Assim é que se passa conosco tal como se passou com os conterrâneos de Jesus, de tal modo que corremos o risco de, quando Ele passa, não O reconhecermos. Volto a falar a bela frase de Santo Agostinho: “Tenho medo de Deus, do Senhor, quando Ele pasa”. Mas, Agostinho, por que você tem medo? “Tenho medo de não reconhecê-Lo. Tenho medo do Senhor, quando Ele passa. Timeo Dominum transeuntem”. Não O reconhecemos, nós nos escandalizamos com Ele. Pensemos como é em nosso coração a respeito desta realidade.

Ora, na oração, nós pedimos a Nossa Senhora, que acolheu o mistério de Deus no cotidiano de Nazaré, que tenhamos olhos e coração livres dos preconceitos e que tenhamos olhos aberto ao maravilhamento: “Senhor, que eu o encontre!”. E ao encontrarmos o Senhor há esta surpresa. Nós O encontramos no dia a dia: olhos abertos às surpresas de Deus, à Sua presença humilde e recôndita na vida de cada dia.

Trad: AJFC

Digitação: EAFC

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