
O ChatGPT talvez apareça para nós como um oráculo do Vale do Silício, mas Marx, possivelmente, questionaria: quem controla essa máquina? De onde vem sua força? A quem serve?
Podemos imaginá-lo numa sala apertada, abarrotada de livros, papéis e manuscritos. Marx, o velho filósofo com olhar cansado e barba desgrenhada, ajeita-se diante de uma escrivaninha. Ao seu lado, um camarada técnico de informática, curioso e paciente, lhe apresenta uma máquina que não existia no século 19: um notebook. Marx franze o cenho, inclina-se, e com um misto de desconfiança e ironia digita as primeiras palavras no campo luminoso da tela: “O que é o capitalismo?”. Em segundos, a máquina responde, articulada e segura, como se fosse capaz de resumir em poucas linhas aquilo a que ele dedicou a vida inteira. Marx sorri, mas não com espanto: com o riso de quem reconhece, por trás do espetáculo novo, um truque antigo.
Esse sorriso seria, antes de tudo, o sorriso diante do fetiche. O ChatGPT talvez apareça para nós como um oráculo do Vale do Silício, mas para Marx não passaria de mais uma mercadoria disfarçada de maravilha. O que impressiona a muitos — a velocidade, a fluidez, a capacidade de emular estilos — seria para ele apenas aparência. A questão decisiva não estaria na resposta em si, mas no que ela encobre: quem controla essa máquina? De onde vem sua força? A quem serve?
Ao ler as respostas da IA, Marx não veria inteligência autônoma, mas trabalho social expropriado. A máquina fala porque milhões falaram antes dela. Cada frase que brota da tela condensa séculos de escrita coletiva: de jornalistas, professores, poetas, cientistas, artistas. Um gigantesco arquivo humano, capturado sem crédito, reorganizado em estatísticas, reapresentado como novidade. O ChatGPT não pensa: apenas devolve, de modo probabilístico, o que já foi dito. É um coro de vozes arrancadas de seu contexto, mascaradas pelo brilho da mercadoria digital.
E como toda mercadoria, a IA esconde sua história. O texto limpo, pronto e rápido apaga a cadeia de exploração que o sustenta: a energia devorada por data centers, os minerais extraídos em condições brutais, os trabalhadores precarizados que rotulam dados e moderam conteúdos. O milagre da máquina repousa, como sempre, sobre suor e cicatrizes. Marx chamaria isso, quem sabe, de fetichismo da linguagem: a transformação do trabalho vivo em um código que aparece como coisa dotada de vida própria.
Se alguém lhe dissesse que o ChatGPT é “inteligente”, Marx seria implacável. Consciência não é simples encadeamento de frases, mas relação histórica, produto das condições materiais e das contradições sociais. A IA pode escrever sobre alienação, mas não participa do processo social que a gera; pode explicar a luta de classes, mas não se insere no conflito real entre capital e trabalho; pode citar o Manifesto, mas não age politicamente para transformar a realidade. Sua linguagem é superfície sem carne, um reflexo sem corpo. Se a mercadoria já era, para Marx, a forma mais mística do mundo moderno, o ChatGPT seria o fetiche elevado à potência máxima; uma simulação de pensamento que encobre as condições materiais de sua produção.
Mas ele não veria apenas a máscara. Veria também a fissura. O fato de que essa tecnologia só existe porque acumula e processa a inteligência social confirma sua tese mais profunda: o conhecimento é sempre coletivo. Nenhuma criação é solitária. Toda ideia nasce de redes, gerações, tradições e conflitos. O capital pode privatizar essa inteligência, vendê-la como mercadoria, mas nunca poderá apagar sua origem comum. O ChatGPT, sem querer, testemunha a verdade de Marx: o saber é social por essência.
E é aqui que a dialética se impõe. Enquanto a máquina se limita a repetir padrões, a dialética avança pela contradição. O algoritmo busca coerência; Marx busca a fissura. O ChatGPT reforça o já-dito; a dialética produz o novo, cria categorias que não existiam antes. Por isso, a IA é incapaz de reproduzir a obra de Marx: ela carece da negatividade, do movimento de negação e superação que constitui o núcleo do pensamento dialético.
Na tela, a máquina pode alinhar palavras sobre “mais-valor” e “fetichismo”, mas não pode produzir os conceitos como Marx os produziu — a partir da análise das lutas de seu tempo, da observação das fábricas, da vivência da revolução e da derrota. O ChatGPT pode falar de barricadas, mas não sabe o que é estar em uma. Pode repetir a palavra “práxis”, mas não pode unir teoria e ação.
Marx talvez se inclinasse para frente, fecharia o notebook e, com ironia, diria: “Esta máquina pode até falar sobre mim, mas nunca será como eu.” Porque Marx não é estilo nem frase. Marx é movimento, é contradição viva, é crítica enraizada na práxis. Sua obra não se encontra nas palavras cristalizadas, mas no incêndio que elas provocam quando encontram sujeitos históricos dispostos a lutar.
O ChatGPT é espelho sem carne, eco sem fogo, discurso sem luta. Mas é também prova do poder coletivo do saber humano, poder que o capital tenta, mais uma vez, capturar. A pergunta que fica, então, não é se a máquina pode pensar como Marx, mas se nós ainda queremos pensar com Marx.
Pensar com Marx significa recusar o fascínio dos simulacros, mergulhar nas contradições de nosso tempo, atravessar as ilusões e ir ao encontro do real. Significa transformar o pensamento em prática, a teoria em ação, a crítica em luta. A IA pode organizar dados, mas não pode atravessar a história. Pode recombinar frases, mas não pode criar futuro.
No fim, Marx diria que o perigo não está no ChatGPT em si, mas em nossa disposição de acreditar nele como substituto do pensamento vivo. A máquina pode ser útil como ferramenta, mas não pode assumir a tarefa da crítica. Essa cabe a nós, sujeitos históricos, que vivemos as contradições na carne e que podemos transformá-las.
A cena termina com Marx afastando o notebook, como quem fecha não apenas uma máquina, mas um espelho deformado de nossa época. Ele encosta a tampa com calma, solta um suspiro e volta-se aos seus papéis amarelados, cobertos de anotações apressadas, rabiscos de fórmulas e trechos de citações. A sala está abarrotada: livros empilhados até quase o teto, jornais espalhados pelo chão, o cheiro de tinta e poeira impregnando o ar. A luz tênue da lamparina se mistura ao brilho residual da tela que se apaga, como se dois tempos diferentes se tocassem apenas por um instante — o século 19 e o 21.
Não há desprezo em seu gesto, mas clareza. Marx não teme a técnica; admira, inclusive, a inventividade humana que a produz. O que o incomoda não é o ChatGPT, mas a ilusão que o acompanha — a promessa de que uma máquina possa pensar em nosso lugar. Ele sabe que a história não se escreve em algoritmos, mas em corpos que lutam, em sujeitos que se erguem contra a exploração. Nenhuma inteligência artificial pode substituir a crítica viva que nasce da contradição.

