Marias do Brasil e Rede Latinoamericana no Teatro do Oprimido

Marias do Brasil, esse é o nome do grupo teatral que apresentará a peça Eu também sou mulher, no dia 27 de agosto, às 19:30h, na sede do Teatro do Oprimido (TO), que fica na Av. Mem de Sá 31, na Lapa tão carioca. Trata-se de mais um grupo de trabalho do TO, uma resposta dada a uma realidade: mulheres, migrantes, trabalhadoras domésticas, muitas sem carteira assinada e sem domingo de folga, que não tinham sua dignidade reconhecida enquanto ser humano – usam a arte como libertação.
Quase todas chamadas Maria, algumas das milhares espalhadas Brasil afora, vindas de pequenas cidades do norte ou nordeste do país para o sudeste, logo empregadas nas casas da classe média carioca, exploradas, muitas delas até humilhadas e assediadas, quando não destratadas, resolveram se unir numa oficina artística para praticar o sonho de interpretar.
Os desafios foram muitos, nem todas resistiram. Quando o Teatro do Oprimido abriu uma oficina num curso onde só trabalhavam empregadas domésticas, muitas delas se depararam com as barreiras sócio-culturais que se perpetuam na sociedade brasileira: o machismo, a rigidez hierárquica, os preconceitos em geral. Seja com o patrão as ridicularizando ou preocupados com o domínio de seus horários e a mesa do seu jantar, seja com seus namorados pedindo maior dedicação ao futuro casamento.   
O desejo de se tornarem atrizes foi realizado por algumas delas. No decorrer desses 11 anos ficou um núcleo com 8 Marias, mantendo a chama artística acesa: a mais nova tem 60 anos e a mais madura 74 anos. Ao se perguntar a Maria José, integrante do GTO Marias do Brasil, por que praticar Teatro do Oprimido, ela responde dizendo que é “para buscar solução pros nossos problemas. Depois deste teatro a gente sempre busca uma outra forma de resolver as coisas e não se conformar. Eu não sabia que a vida tinha tanta solução assim”.
A peça conta de forma bem humorada as angústias do assédio do patrão e a luta pelos direitos trabalhistas. O espaço tem capacidade para 150 pessoas, a classificação é livre e o ingresso gratuito.
Rede Latinoamericana no Teatro do Oprimido
Entre os dias 24 e 28 de agosto haverá oficinas de capacitação dos métodos de Augusto Boal com um grupo de educadores, artistas e trabalhadores sociais da Argentina, Chile, Costa Rica, Guatemala, México e Espanha. Os multiplicadores responsáveis por ministrar as aulas, em espanhol, serão Helen Sarapeck (coordenadora geral da instituição), Olivar Bendelak e Geo Britto 
Para observar de perto o trabalho realizado pelo CTO e entender o contexto da realidade local, no dia 27 de agosto, às 9 horas, o grupo visitará o Manicômio Judiciário da Frei Caneca para assistir a uma apresentação da peça Anseios por liberdade, com o GTO Liberarte, formado por detentos portadores de transtornos mentais. Eles vão presenciar também a peça Eu também sou mulher, do grupo Marias do Brasil, nesse mesmo dia.
Após a oficina de vivência, no dia 28 de agosto, às 18:30h, também na sede do CTO e gratuitamente, o grupo vai apresentar o resultado do processo, com peças curtas de Teatro-Fórum, técnica do arsenal do Teatro do Oprimido.
Em 2008, houve uma primeira experiência com capacitação de latinos no CTO, o que objetivou a criação de uma Rede Latino Americana de Teatro do Oprimido. “Estas pessoas buscam o CTO como referência internacional na capacitação do Método, com objetivo de no retorno, multiplicarem em seus países”, afirma Flavio Sanctum, pedagogo do Centro de Teatro do Oprimido. “Fortalecendo a Rede Latino Americana de Teatro do Oprimido o CTO pretende ampliar as atuações no continente onde a metodologia nasceu e principalmente estar socializando os meios de produção cultural”, conclui.
O evento acontece um mês após o CTO ter recebido 52 representantes de 25 países dos cinco continentes para a Conferência Internacional de Teatro do Oprimido, e 15 dias após ter ministrado a disciplina Theater of the Oppressed para uma turma da New York University, que integra a grade curricular da Steinhardt School of Culture, Education and Human Devolopment.

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