

Foram 70 mil pessoas, nas estimativas mais modestas (ou 100 mil, como estimaram os organizadores). A grande maioria mulheres, a maioria trabalhadoras rurais, que agitaram a capital do Brasil na terça e na quarta-feira, dias 16 e 17, e encheram o Parque da Cidade, o Eixo Monumental, a Esplanada dos Ministérios, a Praça dos Três Poderes. Foi a quarta Marcha das Margaridas – assim chamada para homenagear Margarida Alves, sindicalista paraibana assassinada há 28 anos a mando de usineiros, senhores donos da terra e, ainda hoje, também da vida -, organizada pela Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura (Contag), com suas 27 federações, as Fetags, e mais de 4.000 sindicatos espalhados por este imenso país.
O que gritavam essas aguerridas mulheres nos milhares de cartazes, bandeiras e faixas, e nos carros de som e nas tocantes canções e nos gritos propriamente ditos? Pediam muita coisa de que carece o povo brasileiro, desde uma educação não sexista ao fim da violência machista contra as “companheiras”, passando por uma ampla reforma política com protagonismo popular, tudo sob o lema “desenvolvimento sustentável, com dignidade, justiça, autonomia e liberdade”. E pediam, especificamente, a atualização dos índices de produtividade no campo para se avançar rumo à reforma agrária, uma bandeira de luta cada dia mais invisível, tida como anacrônica nos meios oficiais do Brasil moderno.

Aliás, reforma agrária foi uma reivindicação bastante falada, bastante ouvida, mas num tom bastante formal, levando em conta especialmente o belo ato público na manhã da quarta-feira, diante do Congresso Nacional. No coro de unanimidade em apoio à presidenta Dilma Rousseff, não houve um único orador/oradora que reclamasse, ainda que fosse da maneira mais branda possível, de que a reforma agrária, de fato, de fato, foi esquecida pelos governos petistas, tanto o de Lula, como o de Dilma. Seria um faz de conta: damos uma força à agricultura familiar e prioridade total ao agronegócio exportador.
(Por falar em Lula, ele foi citado no ato da Praça dos Três Poderes por apenas quatro oradores, um dos quais em tom crítico: Adilson Araújo, presidente da Central dos Trabalhadores do Brasil, CTB, da Bahia, que falou em nome da direção nacional, ao abordar a crise internacional do capitalismo, disse que Dilma deve atentar para sua gravidade atual, pois ela não é a “marolinha” de 2008 como mencionou Lula).
O presidente da Contag, Alberto Boch, falou de “um novo modelo de reforma agrária e agricultura familiar, imprescindíveis para o crescimento da sustentabilidade na vida do campo”. (E se é pra valer em se tratando de reforma agrária, algum orador/oradora poderia soltar nos ares do centro dos Três Poderes em Brasília uma menção solidária à luta do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra, o combativo MST, o movimento mais radical na luta pela terra, e, por isso mesmo, demonizado a todo momento pelos monopólios da comunicação. Não se ouviu tal menção).

No ato de encerramento, na tarde da mesma quarta, no Parque da Cidade, a resposta básica da presidenta Dilma (foto), de chapéu de palha e agraciada como mais uma “margarida”, foi a continuidade do diálogo “iniciado com o presidente Lula” para se chegar ao atendimento da extensa pauta de reivindicações. Não houve o anúncio de “medidas fortes”, como chegou a se cogitar, como seria, por exemplo, algum avanço quanto ao índice de produtividade. De mais concreto, “anunciou medidas sobre saúde – a construção de 16 unidades básicas de saúde fluviais para atender a região amazônica, e a construção de 10 Centros de Referência de Saúde do Trabalhador (Cerests), em todo Brasil – e fomento à inclusão produtiva das trabalhadoras rurais”, além do incremento de outros programas de governo referentes às mulheres, conforme destacou matéria do sítio (ou site) da Contag.

“Nunca estaremos satisfeitas com as respostas”, declarou Carmen Foro (foto), secretária de Mulheres da Contag e coordenadora nacional da marcha, ao comentar os anúncios de Dilma, mas, de modo geral, considerou positiva a resposta da presidenta e lembrou que a luta das mulheres vem de longe – a primeira marcha foi em 2000 – e vai continuar.
“Nós somos os sonhos sonhados por tantas mulheres que tiveram suas vidas ceifadas na luta”.
Voltando aos atos políticos mais expressivos – a grande marcha de cinco quilômetros pelo Eixo Monumental e a concentração na Praça dos Três Poderes -, a emoção explodiu nas palavras de Letícia Sabatela, com todo o apelo e charme da artista “global” comprometida com movimentos sociais, a voz embargada: “Se hoje podemos protestar por desenvolvimento sustentável, terra, renda e água é porque muitas mulheres foram caladas ao longo do tempo (…) nós somos os sonhos sonhados por tantas mulheres que tiveram suas vidas ceifadas na luta”.

Seguiram-se discursos veementes das representantes das Fetags das cinco regiões do país, da Central Única dos Trabalhadores (CUT), das “entidades parceiras”, que bateram firme na defesa das bandeiras feministas, como a descriminalização do aborto (Nalu Faria, da Marcha Mundial das Mulheres, disse que “a chama que nos move é a chama da revolução”), e representantes das frentes parlamentares, como a deputada Luíza Erundina (PSB-SP), conhecida lutadora pela democratização dos meios de comunicação.
Houve ainda, no Parque da Cidade, o lançamento do CD “Canto das Margaridas”, o show com a baiana Margareth Menezes, que cantou, dentre outras, a canção-lema “Olha Brasília está florida, estão chegando as decididas…”, a solenidade da abertura oficial e debates de variados temas, embora pouco concorridos.

Dois dias, portanto, movimentadíssimos. Se parecem magros os resultados imediatos, diante de tão belo espetáculo, resta avaliar os ganhos políticos nos quesitos conscientização e capacidade de mobilização e de organização. Na opinião de Iranilde Benício de Carvalho, 40 anos, presidente do sindicato dos servidores do município de Araioses, Maranhão, participando da sua primeira marcha, os ganhos são imensos: “Nenhuma mulher é a mesma depois de participar da Marcha das Margaridas”.
(*) Jadson Oliveira é jornalista baiano e vive viajando pelo Brasil, América Latina e Caribe. Atualmente está em Brasília. Mantém o blog Evidentemente (blogdejadson.blogspot.com).

Tentando fomentar algum debate, transcrevo aqui comentário feito pelo companheiro Ernandes Santos no meu blog a respeito da mesma matéria:
“Uma descrição rica em detalhes, mas que carecem de reflexões e questionamentos – não ao autor, mas ao próprio movimento.
Não levo fé em movimentos que possuem reivindicações e carências tão profundas feitas sob este tom festivo e excessivamente colorido. Não parecem que exigem, cobram ou reclamam; apenas celebram.
Parece com o Desfile da Primavera, 7 de Setembro, 2 de Julho ou Passeata Gay.
Se houve “coro de unanimidade à em apoio à presidenta” do que ou a quem reclamar, então? Falaram mal do Lula. Agora?
Carmen Foro , secretária de Mulheres da Contag, considerou positiva a resposta da presidenta. O que ela, a Carmen, ela esperava da Dilma? Governantes sempre dirão, em especial, nestes eventos o que as pessoas querem ouvir, mas jamais farão o que elas realmente precisam.
O que parece uma suposta ingenuidade da Carmen, se aproxima mais de um corporativismo entre “companheiras”, dada a enorme boa vontade em aceitar respostas no lugar da ações.
Quanto a bela Letícia Sabatela, já a vi chorar “tolhida pela emoção” em várias de suas personagens interpretadas nas novelas que ajudam a estereotipar e diminuir o valor de muitas Margaridas neste imenso país.
Posso até complementar a frase de Iranilde Carvalho, presidente do sindicato dos servidores do município de Araioses : “Nenhuma mulher é a mesma depois
de participar da Marcha das Margaridas ou depois de assistir novelas na Globo”
23 de agosto de 2011 12:54″
uma perguntinha quase cretina: porque será que a velha mídia mercenária não noticiou quase nada sobre essa marcha?…
Depois reclamam da regulamentação porvir, dizendo marotamente que querem censura-la, mas a liberdade que querem mesmo e a de divulgar apenas o que lhes interessam né?!