Manifestantes realizam ato pacífico contra a vinda de Obama ao Rio

Por Eduardo Sá e Gabriel Bernardo

Cerca de 600 manifestantes caminharam pacificamente da Glória ao centro do Rio na tarde de ontem (20). Foto: Gabriel Bernardo/Fazendo Media.

Cerca de 600 militantes, dentre eles movimentos sociais, estudantes, sindicatos, partidos políticos e outras entidades, realizaram neste domingo (20) uma manifestação pacífica contra a vinda do presidente Barack Obama ao Rio de Janeiro. Os temas mais apontados durante o protesto foram a garantia do petróleo brasileiro e a libertação de 13 pessoas que foram detidas durante o ato que ocorreu na última sexta-feira no Consulado dos Estados Unidos.
O protesto seguiu do Largo do Machado, passando pela Glória, onde havia outra concentração, até o Passeio, no centro da cidade. Durante toda a caminhada não houve nenhuma confusão, e foi realizada a exposição de bandeiras e vários gritos de ordem: “Fora Obama”, “Não à intervenção militar dos Estados Unidos!”, “Obama tire as garras do nosso petróleo”.
Da esquerda para a direita: Modesto da Silveira (advogado), Socorro Gomes (Cebrapaz) e Francisco Soriano (Sindipetro-RJ). Foto: Gabriel Bernardo/Fazendo Media .

Para a presidente nacional do Centro Brasileiro de Solidariedade e Luta pela Paz (Cebrapaz), Socorro Gomes, a visita do presidente tem como interesse saquear nossos recursos energéticos. “Os Estados Unidos são indigentes em fontes energéticas. Em outros países latinoamericanos eles reforçaram a sua agenda militar, como fazem com bases militares em Honduras, Panamá e Guantánamo, e os acordos com o presidente Uribe, na Colômbia. Nós articulamos movimentos em vários estados do Brasil”.
O discurso do presidente dos Estados Unidos, que estava previsto para a praça da Cinelândia, acabou ocorrendo dentro do Theatro Municipal e não levou tantas pessoas às ruas. No entanto, o forte policiamento, inclusive com cavalaria, nas redondezas, inibiu a passeata. O comando do protesto preferiu não prolongar o ato por desconfiar que a polícia pudesse novamente reprimir com violência a atividade, como na última sexta feira quando os policiais chegaram a usar spray de pimenta e gás lacrimogêneo contra os militantes.
Libertação de militantes presos no primeiro ato
Concentração na Candelária, centro do Rio, para a passeata na última sexta-feira. Foto: Samuel Tosta/APN.

Na tarde da última sexta-feira (18) aproximadamente 300 pessoas caminharam no centro do Rio de Janeiro entregando panfletos contra a vinda do presidente norteamericano e carregando faixas e suas bandeiras até o Consulado dos Estados Unidos. Durante o protesto houve conflitos e um militante não identificado atirou um coquetel molotov na direção do Consulado, que resultou na reação da polícia com gás lacrimogêneo e tiros de borracha. A confusão deixou algumas pessoas levemente feridas e 13 manifestantes, sendo 10 deles do Partido Socialista dos Trabalhadores Unificado (PSTU), foram presos.
De acordo com o presidente do PSTU-RJ, Cyro Garcia, a prisão dos manifestantes foi injusta e arbitrária por se tratar de uma manifestação pacífica. Segundo ele, indivíduos infiltrados que não tinham nada a ver com a orientação do protesto lançaram um coquetel molotov no Consulado para justificar a repressão e desmoralizar as manifestações no fim de semana.
A polícia atira com gás lacrimogêneo e spray de pimenta nos manifestantes. Foto: Samuel Tosta/APN.

“Nenhum deles foi preso, e eles prenderam 13 pessoas que estavam participando da manifestação pacífica. Tem um menor estudante do Pedro II, uma senhora de 69 anos que apenas aderiu à manifestação, são essas pessoas que estão sendo presas por perigo à paz da ordem pública do Rio. Tentaram jogar a opinião pública contra aqueles cidadãos que estavam exercendo um livre direito de manifestação contra a visita do representante mor do imperialismo norteamericano, que vem aqui para se apropriar das nossas riquezas naturais como o pré sal”, criticou.
Os demais presos são professores e estudantes universitários, incluindo um advogado, e já foram encaminhados para presídios. Há uma mobilização nacional em solidariedade aos detidos, e uma petição online (http://www.peticaopublica.com.br/?pi=PSTU) feita pelo partido pela libertação dos partidários está em circulação na internet. Ainda de acordo com Garcia, eles estão tendo tratamento de marginais, como a cabeça raspada, e os primeiros pedidos de revogação da prisão foram negados pela justiça. O representante avalia que esses são os primeiros presos políticos do governo Dilma, e espera a liberdade imediata dos manifestantes com a saída de Obama do Brasil.
Militantes sendo presos durante o ato. Foto: Samuel Tosta/APN.

Um dos advogados solicitados para prestar assessoria jurídica aos presos, Modesto da Silveira, que trabalhou na defesa de militantes políticos durante a ditadura militar na década de 70, afirmou que se trata de uma prisão política por causa de ideias opostas ao do governo. Segundo o advogado, não deram o direito de fiança para um deles como se fosse um preso comum.
“Creio que com a saída do Obama ficará mais fácil a concessão do habeas corpus, que já deve ter sido impetrado. Acho que no máximo duas pessoas podem ter cometido o delito, mas foram presos 13, então só a continuação da apuração é que vai ver quem excedeu ou não. O crime comum é o do código penal, e o preso  político é aquele de ideologia, geralmente com o objetivo nobre, ele é um preso de idéias. Ninguém pode ir para a cadeia sem o flagrante delito ou ordem escrita da autoridade competente, que é o juiz que o condenou e dá ordem de prisão seja preventivamente ou não”, afirmou Modesto.
Avaliação dos movimentos sobre o ato
Emanuel Cancella ao centro, falando aos manifestantes. Foto: Samuel Tosta/APN.

Apesar de não concluir todo o trajeto programado para o protesto na Cinelândia neste domingo (20), os movimentos sociais saíram com uma impressão positiva da manifestação. O diretor do Sindicato dos Petroleiros do Estado do Rio de Janeiro (Sindipetro-RJ), Emanuel Cancella, avaliou que o ato foi bastante representativo deixando a mensagem dos que não ficaram satisfeitos com a presença de Obama no nosso país. Cancella acredita ainda que a manifestação foi um passo importante, porque não deixou dúvida de que a luta vai desembocar na questão do petróleo contra os leilões, de preservar o pré-sal e garantir a soberania nacional da sua riqueza revertida para o povo brasileiro.
“A gente conseguiu juntar cerca de 600 pessoas apesar de toda a pressão psicológica originada daqueles sabotadores que jogaram coquetel molotov no consulado americano. Conseguimos levantar a moral do nosso pessoal, organizamos hoje uma segurança e conseguimos identificar alguns possíveis sabotadores e mantivemos eles sobre controle. Expusemos nossas faixas e gritamos nossas palavras de ordem”, disse.
Marcelo Durão, representante do MST-RJ Foto : Gabriel Bernardo/Fazendo Media

Para Marcelo Durão, representante do Movimento dos Trabalhadores Sem Terra no Rio (MST-RJ), o ato foi vitorioso porque os movimentos conseguiram colocar a voz e o povo na rua contra a presença do Obama que, segundo ele, é uma presença imperialista no Brasil. Integrante do comando da manifestação, ele explicou que para evitar qualquer problema com a polícia o protesto se encerrou antes de chegar à Cinelândia. Durão também adverte que a visita do presidente norteamericano pode gerar acordos que desconectados da necessidade do povo brasileiro.
A gente avalia que a vinda do Obama é principalmente para fazer esses acordos bilaterais que a Alca propunha. E a nossa maior preocupação é em relação ao petróleo e aos recursos minerais. Houve uma reunião com as 10 maiores empresas brasileiras e as 10 maiores norteamericanas, então isso tudo é uma entrega e um forte indício de grandes acordos que com certeza vai beneficiar muito mais ao capital do que ao povo brasileiro”.
Presidente da UNE, Augusto Chagas. Foto : Gabriel Bernardo/Fazendo Media

Para o presidente da União Nacional dos Estudantes, Augusto Chagas, não existe razões para transformar a vinda do Obama em uma festa. “O fato que desmascara essa iniciativa é a ação militar dos EUA no Brasil. A UNE não aceita as justificativas que ele apresenta sobre as suas supostas razões de solidariedade e cooperação. Ele não cumpriu os suas promessas em relação à política externa americana, como a ocupação no Iraque e Afeganistão. Não houve também nenhuma mudança em relação ao Bloqueio Cubano.  As promessas de desmontar a base de Guantánamo  no prazo de 1 ano  ainda não foram cumpridas, pelo contrário, se intensificou a agressão aos direitos humanos naquele local. Queremos combater a agenda  dos EUA de militarizar o nosso continente”.
Nota do editor: O PSTU informou nesta manhã (21), em nota, que os 13 presos foram liberados ontem 1 hora após à saída de Barack Obama do Brasil.

4 comentários sobre “Manifestantes realizam ato pacífico contra a vinda de Obama ao Rio”

  1. Na realidade, tinha gente do próprio PT no protesto, que não é ‘propriedade do PSTU’. Agora eles consertaram, mas diziam que tinham sido ‘os primeiros presos políticos desde a ditadura’ – como se todos os que foram presos nas privatizações e em lutas específicas (salariais, pela terra, etc.) não contassem. A parada é aparecer o máximo possível, pra posar de paladino – na hora H eles não assumem o molotov, dizem que a manifestação era pacífica e que foi armação – assume logo que foi tudo pra isso mesmo, pra ganhar publicidade. Faz e assume, como o PT fazia nos tempos em que era realmente perigoso protestar.

  2. Uma companheira (petista, inclusive) disse o seguinte durante a campanha por liberdade aos presos políticos que contou com o apoio valoroso sindicatos, entidades estudantis e ativistas de organizações políticas: “Pelo direito do PSTU de falar bobagens sem agressão da polícia!”.
    Vou me apropriar um pouco da idéia: pelo direito democrático de Frederico Pinheiro postar suas bobagens, peço que não moderem o comentário dele.

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