Mais um capítulo – engraçado – da novela da CPI do Senado

Paula Batista, da redação

Depois de acompanhar mais um dia da CPI do Apagão do Senado, desta vez fisicamente sentada por lá, na última terça-feira (14/08), uma das minhas dúvidas é: o circo foi montado antes ou durante a sessão?

Vou antecipar a minha publicação, que seria só no domingo, para contar aos leitores mais uma piada da nossa política. Essa eu não podia deixar de contar, já que mídia presente no Senado na última terça-feira não viu ou fingiu que não viu, por isso não contou. Eu como vi, vou contar a vocês essa histórinha.

Terça-feira, dia 14 de agosto, 11h40 da manhã. Praticamente mais do que atrasada, a CPI do Apagão do Senado ainda nem começou a sessão do dia, marcada para as 11h. Normal o atraso e ninguém ali vai reclamar mesmo.

O tema do dia é a denúncia sobre a pilhagem dos pertences das vítimas do vôo 1907. Um início tenso, complicado, com o brigadeiro do Ar Kersul, atacando a todo momento os familiares. Ok, ele ficou revoltado com a denúncia do tema para a imprensa.

Os ataques aos familiares, num clima total de tensão e descaso foram feitos à Associação dos Familiares, por umas duas horas. A coisa tava ficando feia porque o brigadeiro soltou umas frases ingratas, que a mídia veiculou. Houve a intervenção do senador mineiro, Wellington Salgado (PMDB), que resolveu pedir mais calma ao brigadeiro, e também levou uma chapoletada. Ele revidou, o brigadeiro revidou, e o relator da CPI resolveu acalmar os ânimos.

Até esse momento, estavam o brigadeiro e a advogada representante da GOL, dizendo que os familiares é que deviam achar os culpados, não eles, nos dois sentidos.

Eis que então o secretario do senador Demóstenes entrega um bilhete para o brigadeiro, no meio dessa confusão toda. Achei estranho, mas poderia ser alguma coisa relacionada ao tempo de fala, uma ligação, etc. O clima continua tenso. Eis que passado mais umas vozes ásperas o senador Romeu Tuma (PFL SP), do Democratas, que estava na sessão “Renan Calheiros” aparece falando ao telefone, na bancada. Claro, discretíssimo ao telefone. Menos discreto no que digo a seguir: ainda ao telefone, o senador fala no ouvido do brigadeiro, fala também com o relator, com o presidente da CPI, e sai. Como se nada tivesse acontecido e acontecendo.

O brigadeiro passa então um vídeo com uma música triste, pede para um militar ler uma carta de agradecimento aos soldados e coloca a mão no rosto. O soldado termina de ler a carta, dá um cutucão de leve no brigadeiro, que levanta da sala chorando.

Muito estranho. A sessão foi interrompida. O brigadeiro foi para algum lugar longe da imprensa, não falou com ninguém. Passados vinte minutos, o tempo de eu dar a volta no senado, descer até o estacionamento e comprar uma bala. Volto e a sessão está para recomeçar.

O brigadeiro está com uma cara mais serena, calmo, e com uma postura totalmente diferente. Volta “mansinho” (porque não dá para usar a palavra gentil, mesmo) e as suas respostas já são totalmente diferentes. Já admite que foi um erro eles terem ajudado a recolher as bagagens, porque a responsabilidade, segundo a Lei, é da GOL; também comenta o sumiço de um contêiner com computadores, que estavam no avião e eles não encontraram nenhum computador; também de um contêiner de máquinas fotográficas, que eles também não encontraram nenhuma máquina, entre outros relatos, mas nesse momento ele já não está mais revidando a associação e sim, colocando a “culpa” na GOL. Foram feitas várias perguntas a advogada da GOL, que eu acho que não estava muito preparada para essa inversão de quadros, que não respondeu quase nenhuma e me pareceu não entender muito bem essa inversão de atitute.

Conto o resumo de mais de três horas de sessão, mas quem quiser ler tudo, pode ir e baixar o arquivo na página do Senado, na CPI e escolher o dia 14, para dizer que, tudo bem se a mídia “acreditou” na cena da última terça-feira, mas eu não. E sei que mais algumas pessoas, também não. Fui para o hotel e assisti a todos os telejornais. E vi a confirmação: quase todas as TVs pegaram o momento em que o soldado cutuca o brigadeiro e ele sai para chorar fora da sala.

O circo foi armado. Nada explica o choro – fora a incrível sensibilidade do brigadeiro que disse que os familiares também são suspeitos dessa pilhagem – de chorar na CPI. Nada explica que isso tenha acontecido, pouco tempo depois da incrível entrada do senador Romeu Tuma, que ao telefone, passou um recado aos três: brigadeiro, relator e presidente.

A dúvida, que os leitores podem ajudar a responder: O que o Romeu Tuma disse aos três? Qual foi a ordem do dia, que fez o brigadeiro mudar sua postura de ataque aos familiares e se voltar à GOL?? Quem ligou para pedir ajuda ao Romeu Tuma (PFL), para que “interferisse” na sessão e arrumasse os rumos? O Lula? O Nelson Jobim? A Casa Civil, com a Dilma? E o que exatamente era o recado? Livre-se da culpa e jogue-a na GOL? Pare de atacar os familiares porque a imprensa e a população ficarão indignadas? Ache um culpado? Livre a cara do governo?

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