Mais do mesmo

Mais uma série de ações do crime organizado se abate sobre o Rio de Janeiro e, como sempre, nota-se mais do mesmo na reação de autoridades e população.

Os primeiros, sobretudo para atrair visibilidade e mostrar trabalho, fazem incursões violentas nas comunidades carentes da cidade, tornando a vida dos moradores, que já é sofrida, ainda mais complicada. E que fique registrado: quando a onda de ataques do momento parar, todos os bandidos, armas e narcóticos apreendidos nessas áreas e exibidos na TV com o distintivo das delegacias à frente, estarão, como num passe de mágica, “regenerados” nas comunidades no dia seguinte, pois quem manda mesmo é o Capital e, claro, “time is money”.

Já o carioca do asfalto, frustrado com o fato de sua fantasia de extermínio total das favelas não ser viável – afinal, a “merda” dos Direitos Humanos impede que algo dessa proporção aconteça –, estimula e apoia, por meio de redes sociais, cartas a jornais impressos e comentários em matérias online, o uso total da força policial e o confronto direto para solucionar o problema. Clama por uma delirante faxina geral que, ao menos por ora, acabaria com a violência na cidade (?).

Mas essas pessoas parecem esquecer-se de que, caso essa medida sanitarista fosse de fato implementada, eliminando, por exemplo, todas as favelas, o pãozinho da padaria em que tomam café antes de ir ao trabalho não sairia; o boy que transporta os documentos de sua empresa não estaria disponível, a faxineira que deixa a mesa e o banheiro do CEO limpos não apareceria no trabalho, e até mesmo alguns policiais que o protegem não estariam nas ruas.

Esses cidadãos também parecem não levar em conta o que significa você ter de pedir licença para a polícia para entrar no seu próprio bairro ou ser impedido grosseiramente de subir para seu apartamento porque a imprensa ainda não chegou para registrar o veículo queimando à entrada do prédio. E, por isso, querem mais é repressão total, com militares e seus tanques nas ruas.

Os cariocas espertos, porém ignorantes quanto ao que não é exibido na novela de Manoel Carlos, parecem não assimilar que aqueles traficantes que apareceram ontem (24/11) na Vila Cruzeiro, todos armados e com motos possantes, estão lá todos os dias do ano, com a conivência de policiais e políticos. E não se tocam que, ao realizar uma incursão na área, as autoridades poderão sim matá-los, mas também provocarão a morte de inocentes – “suspeitos”, quando saem no jornal, diga-se de passagem –, sem que o mal seja cortado pela raiz. Até porque, vale lembrar, o que ocorre hoje no Rio de Janeiro é a mando de bandidos que estão presos. Por que não se fala em reforma penitenciária?!

Não concatenam que ações midiáticas nas quais o governador do estado já se profissionalizou, como colocar helicópteros sobrevoando a cidade e dobrar o efetivo policial nas ruas em momentos como este, serão, no máximo, paliativos, assim como as UPPs, cuja extensão a todas as favelas da cidade – e que dirá do estado (pois é, o Exmo. Sr. Sérgio Cabral é também responsável pela segurança de outras cidades do Rio de Janeiro, como Araruama, onde dois PMs foram aleatoriamente baleados e mortos) – não é viável.

Os cariocas não percebemos que pretos pobres e de cabeça raspada, que aparecem de chinelos e portando armas quase tão pesadas quanto eles nas imagens da TV, quando não estão sendo carregados em sacos pelos PMs, são exclusivamente produtos de nossa sociedade e são apenas a ponta do iceberg do que há de mais ilícito nela.

Certo, isso não é novidade, mas porque então isso é tudo o que aparece na mídia na condição de alento aos corações dos moradores da cidade? É essa a catarse coletiva que está sendo proposta? Nessa onda narcotizante só cai quem se deixa alienar; quem se incomoda mais com as casas de alvenaria sem tinta que albergam os peixes pequenos do crime organizado do que com os caras-de-pau de paletó que andam barrigudos por aí ganhando 15, 20 mil por mês (+ benefícios + dinheiro lavado, etc.), enquanto brasileiros com mestrado e doutorado, ou que são menos estudados – mas que trabalham como burros-de-carga – não ganham uma fração ínfima daquele valor. São eles e nós mesmos, que os elegemos e compactuamos com a espetacularização do combate à violência, os verdadeiros culpados, seja direta ou indiretamente.

Foto de Artur Moritz
Foto de Artur Moritz

7 comentários sobre “Mais do mesmo”

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  3. Ninguém está querendo acabar com as favelas… E sim as celulas que se encontram nela… E infelizmente não se acaba com este tipo de organização sem derramar sangue de “Inocentes”… Muitos desses inocentes que são coniventes com a selvageria, imposta pelos traficas…

    “Você fecha com quem??? O Comandando… Então… O Comando somos nós”…. hehehehe

    Então… Acabando com o operacional do Crime organizado, os chefes das facções que se encontram enjaulados lá na casa do caraio, não terão contigente para poder dar ordens…

    Sou totalmente a favor a essa operação, que espero que seja definitiva com a implantação das UPPS.

    valeu.

  4. André de Moraes, vc é a favor da operação porque não mora nas favelas invadidas!!! Se sua mãe morasse lá, com certeza vc estaria do outro lado. Não será uma política de Estado fascista que irá acabar com o tráfico de drogas!!! Por que eles não invadem os condomínios de classe média, onde muitos também são traficantes? o Bush gastou bilhões de dolares na guerra contra as drogas, elas deixaram de existir?
    É muito fácil ser um fascista, assistindo a grande mídia, sem ter que disparar um tiro!!

  5. Doce ilusão né sr André, que acabando com as “células”, os “chefões enjaulados” não terão contigente pra dar ordens e assim muita coisa estará resolvida…. ha ha ha…

  6. É muito fácil criticar e ser pacifista… Se não fazem nada, reclama… Se fazem, vocês reclamam…

    @Ricardo Quirino
    Pois é Ricardo, usando o mesmo exemplo, se você tem ou tivesse parente lá, e que de alguma forma foram humilhados, mortos ou prejudicados, por seu convivio com os traficas, você seria completamente a favor desta operação…

    Acabar não vai… Mas espero que amenize os dados causados por anos de dominio da Maquina Crimonosa…

    Sobre a classe media, infelizmente é isso… A droga faz parte do cardapio de certo individuos, sendo eles, baixa, media e alta…

    E sobre a distribuição de drogas, infelizmente continuará… A caixinha do CV e gorda!! hehehehe
    Perde uma tonelada e já tem + 100 chegando!!

    Mas é isso ae… Como disse o silvio…
    É meter chumbo nesses bandidos e livrar-nos de todo mal e amém.

    E finalizo esse rap detonando de granada!! Pararapapapapa

    hehehe

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