Lula, FHC e o racismo cultural

fhc grvataAcho péssima a ideia de se discutir política invadindo a privacidade de um homem público. Quando a discussão sai do campo da ideologia política, projetos, feitos e entra na vida pessoal, quem perde é o povo. Desviamos a atenção para o que não nos diz respeito e nos perdemos do primordial: as ideias. Obviamente, determinadas condutas são inaceitáveis, principalmente quando se trata de um representante do povo. Mas é preciso que haja imparcialidade, respeito e compromisso com fatos e não com a fofoca ou venda de notícias.
Mas, gostando ou não, isso sempre foi uma prática comum no meio político. A grande mídia sempre se aproveitou de fofocas e boatos para conduzir a opinião pública ou desestabilizar psicologicamente a vítima da vez, inclusive obtendo mudança de resultado na reta final de uma eleição.
São diversos os casos que exemplificam esse método. Uns parecidos com os atuais, outros nem tanto. Mas todos com o mesmo caráter ou intenção. Alguns se tornaram bem conhecidos, como o caso das eleições de 1989. No debate presidencial, a Globo, comandada então por Boni, preparou pastas com supostas denúncias contra Lula. Nada existia naqueles papeis e pastas. A verdade inclusive foi revelada pouco tempo atrás pelo próprio Boni.
Acho que nem mesmo Brizola sofreu tantas tentativas de ter sua imagem desmoralizada quanto Lula. Aproveitando-se do racismo cultural entranhado na nossa sociedade, desde a vitória em 2002, fazem uma perseguição indecente em cima do ex-presidente. A mais vil e idiota foi quando se utilizaram do seu gosto por cachaça para conduzir a opinião pública a um homem desequilibrado e parecido aos que possuem o mesmo gosto que ele, os pobres. Tiro no pé, pois a simplicidade de Lula é uma das coisas que o torna um grande homem. Outro boato famoso, que tinha intenção de associar Lula à esperteza e a pouco esforço é a história de que ele se aposentou por invalidez.
A direita conta com a grande mídia, que explora qualquer notícia desse caráter. Mas, não é só a esquerda que sofre com baixezas. Aécio Neves teve através da internet, sua imagem associada ao uso de cocaína. Independente de ser lícito ou não, verdade ou mentira, eu particularmente acho péssimo explorar isso politicamente. Já o episódio do helicóptero com cocaína, é de extrema importância. Mas isso sequer teve atenção da grande mídia ou do poder público.
Atualmente, Lula continua sendo bombardeado e tendo sua privacidade invadida por esse jornalismo de baixo nível, que além de promover e vender informação barata tenta desesperadamente destruir a imagem do ex-presidente. O que eles não contavam é que com a internet, local onde o poder e o capital são incapazes de evitar a notícia, as bombas cairiam do lado de lá. E foi do mundo virtual, que o venerado e protegido da grande mídia, FHC, teve sua vida íntima explorada. Só que além de sua vida pessoal começam a surgir informações de escusas transações que colocam mais uma vez a conduta do príncipe da moralidade em cheque. Além das vexaminosas informações sobre a sua família fora do casamento, à relação com a empresa BRASIF, o apartamento de 200 mil euros e o sítio comprado por apenas 20 dólares começam a aparecer. E a blindagem em cima do homem que, segundo a mídia, está acima do bem e do mal começa a esmorecer. Ficamos mais uma vez, na torcida para que tudo seja investigado com o mesmo rigor que fazem sobre Lula e demais parlamentares do PT.
Mas a parte que eu quero chegar é no juízo de valor que o povo faz sobre o nome e o costume de cada homem público. Se for cachaça, coisa de gente pobre associa-se a desequilibro, incapacidade e pobreza. Se for cocaína em helicóptero, fingem que não entenderam. Se fosse filho de Lula, seria imoral, adúltero, infiel. Se for de FHC, zelam por privacidade. Se o crescimento financeiro for do filho de Lula é vagabundo se favorecendo ilicitamente do nome do pai. Se for de José Serra é natural de quem tem bons contatos e foi bem educada. O dinheiro do Instituto Lula supõe-se propina, troca de favores. O de FHC, doação. As palestras de Lula associam também à troca de favor. As de FHC, a transmissão de conhecimento de um homem altamente preparado. O suposto apartamento de Lula no Guarujá também é conduzido à propina e sujeira. O de FHC, em Paris e o agora de Barcelona, é resultado de uma vida acadêmica de sucesso e da grandeza natural de quem foi presidente da República.
E isso é repetido sistematicamente, na mesma linha, até chegar ao sujeito comum. A forma como se avalia, pune e condena vai de acordo com o status social. A ideia não é somente apontar mais uma falha do príncipe da moralidade, mas mostrar a essa elite mesquinha, que marginaliza e criminaliza da pior maneira possível o sujeito, quando ele possui as características e os trejeitos das classes mais baixas e absolve os de perfil das classes elevadas. É o racismo cultural tão bem explicado e definido no livro: A Tolice da Inteligência Brasileira, de Jessé Souza.
Portanto, defender Lula e o PT não é aprovar tudo que se fez ou que se faz, mas é não querer novamente os tempos onde tudo se resumia de forma simples: a elite tudo, aos oprimidos nada.

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