A vida serve para inspirar a arte, ver o mundo de outra forma com seus conceitos e paradoxos. A Unirio (Universidade Federal do Estado do Rio de janeiro), através do professor Celso Sanches, uma pessoa com uma visão bem critica às universidades brasileiras com esse modelo bicentenário de exclusão, junto com outros professores universitários, deixa claro que enquanto este modelo persistir quem sairá perdendo é a própria instituição formadora de opinião.
Na última quinta-feira (08/08) a universidade apresentou um documentário, Cordel do Alemão, feito por jovens do conjunto de favelas do Alemão, sob a direção de duas moradoras da comunidade, Daiane Beatriz e Karen Melo. O filme/documentário narra a influência do cantor e compositor Luiz Gonzaga na vida dos moradores, em especial os nordestinos e todo o coletivo que estava envolvido no projeto. Muitos descobriram naquele momento que havia algo de Gonzaga dentro deles. Descobriram que o Gonzagão era o mesmo artista que cantava as mazelas da seca e o descaso das nossas autoridades com a região. Tinha outras pessoas no coletivo que se identificaram com o artista e decidiram levar o projeto adiante. Não podemos deixar de falar do professor Clementino Jesus, foi quem deu suporte e orientação para fazer o filme.
A vida de Luiz Gonzaga mudou tanto a vida desses jovens, que seu trabalho vem chamando atenção de vários outros diretores de cinema, como a cineasta venezuelana Maria Hernandez, que mora no Brasil há muitos anos. Ela descobriu outro Brasil através da obra do rei do baião. Em seu depoimento, Maria Hernandez conta como se viu identificada com a obra do compositor e descobriu um Brasil fora de seu imaginário.
Durante o filme percebemos as várias manifestações culturais: a família, a saudade típica de todos aqueles que deixam o nordeste, a religiosidade e gastronomia, dentre outros aspectos.
O trabalho nasceu por puro desejo desses (as) jovens da comunidade do Alemão. Seu objetivo é quebrar um ciclo que toda sociedade carrega dentro de si, mesmo não admitindo, quando o assunto é favela. De imediato logo vem em nossas cabeças as drogas, gente favelada, miséria e violência policial. Precisamos quebrar este pensamento e deixar o povo da comunidade mostrar aquilo que sabe. Por que não dar uma oportunidade para eles? Esses e outros jovens querem mostrar suas caras. Não querem ser as PRIMEIRAS E ÚNICAS, dentro desse universo tão marginalizado nas mãos de um Estado perverso e uma sociedade burguesa cruel, a fazer arte.
Quantas Daianes, Karens, Thiagos e Raonis estão espalhados por esses morros e periferias desse nosso Brasil, e que não conseguem expor suas obras por falta de quem acredite em seu trabalho? Deixemos que Luiz Gonzaga seja também inspiração para outros
O professor Celso Sánchez está certo em criticar as universidades brasileiras em fechar as portas de suas instituições de ensino superior para o povo. Não querem repartir seus conhecimentos, e quem perde somos todos nós. No caso do Cordel do Alemão, quem ganha é o povo do Rio de Janeiro.
Essa e outras situações vêm à mente num refrão da música “O morro não tem vez”, da dupla Tom e Vinicius:
“O morro não tem vez
E o que ele fez já foi demais
Mas, olhem bem vocês
Quando derem vez ao morro
Toda a cidade vai cantar”
(*) Fabio Nogueira é estudante de história da Universidade Castelo Branco e militante da Educafro. E-mail Fabionogueira95@yahoo.com.br
Celso Sánchez –Professor de Meio ambiente da Universidade Unirio
