Limpeza no senado: do time do "valentão" só sobraram dois

Arthur Virgílio, o "valentão" que se prontificou a dar uma surra em Lula, terminou surrado nas urnas. Foto: Reprodução.

O presidente Lula e seus partidários tiveram que engolir um novo segundo turno numa eleição presidencial, agora com sua candidata Dilma Rousseff, e também uma nova derrota para o governo de São Paulo. Mas, em compensação, puderam saborear uma vitória fundamental: a larga maioria obtida no Congresso Nacional. E, muito especialmente, a limpeza feita pelos eleitores no Senado que varreu da cena parlamentar – a partir do próximo ano – quase todos os senadores que se notabilizaram pelo anti-lulismo radical, cujo maior símbolo é Arthur Virgílio (PSDB-AM), o “valentão” que se prontificou a dar uma surra no presidente.
Não deu e acabou surrado nas urnas por seus patrícios amazonenses no último dia 3, quando tentou em vão se reeleger. Como ele, foram também escanteadas figuras emblemáticas da direita e extrema-direita:
Marco Maciel (DEM-PE), atuante desde a famigerada Arena, do tempo da ditadura, exerceu vários mandatos e ocupou vários cargos, incluindo o de vice-presidente de FHC durante oito anos. Esteve sempre no poder, seja por escolha de ditadores, seja pelo voto popular. Recentemente, num comício em Pernambuco, Lula foi ferino, disse que “tem gente aqui que está no Senado desde o Império e nunca fez nada por Pernambuco”. Quem escutou se lembrou logo da singular figura, esguia e discreta;
Tasso Jereissati (PSDB-CE), um autêntico “coronel” moderno, se é possível tal combinação. Apareceu na política como um empresário reformador, abrindo caminho após derrubar velhas oligarquias cearenses. Teve, porém, duração abreviada. Na segunda-feira, dia 4, um dia após a derrrota, anunciou que não mais se candidatará a cargo eletivo;
Heráclito Fortes (DEM-PI), personagem de destaque nas ações mais reacionárias do Parlamento nacional, com espaço garantido na nossa velha mídia, sempre solícita diante de tais lideranças. Segundo o jornalista Paulo Henrique Amorim, do blog Conversa Afiada, é o líder no Senado da bancada do banqueiro Daniel Dantas. (Fica o registro que também Mão Santa, do PSC, também do Piauí, não foi reeleito).
Como disse no título, sobraram dois: foram reeleitos Demóstenes Torres (DEM-GO), conhecido como “o do grampo sem áudio”, mais uma das famosas denúncias da revista Veja, até agora sem qualquer comprovação – ele teria tido uma conversa ao telefone com o então presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), Gilmar Mendes, gravada pela Polícia Federal; e Agripino Maia (DEM-RN), aquele que acusou a então ministra Dilma Rousseff de mentir para os torturadores quando presa durante a ditadura.
(Provavelmente, os dois terão a ajuda nos próximos oito anos de Aloysio Nunes, muito ligado ao ex-presidente FHC, eleito pelo PSDB de São Paulo, muito bem votado, por sinal, em contraste com as previsões dos institutos de pesquisa. Aliás, talvez tenha sido o único candidato no Brasil a ter a coragem de exibir a cara de FHC na tela da TV para pedir voto).
Larga maioria lulista no Senado e na Câmara
César Maia, ex-prefeito do Rio, apontado como grande quadro da direita, não teve votos para chegar ao Senado. Foto: Reprodução.

Para aliviar ainda mais a barra do futuro/provável governo de Dilma, caso ela seja confirmada no segundo turno, outros anti-lulistas juramentados foram derrotados na luta pelo Senado: os deputados federais Raul Jungmann (PPS-PE), Gustavo Fruet (PSDB-Paraná) e José Carlos Aleluia (DEM-BA), o ex-senador Antero Paes de Barros (PSDB-MT), o ex-prefeito do Rio, César Maia, do DEM (tido como um dos maiores quadros da direita), e o ex-governador do Rio Grande do Sul, Germano Rigotto, do PMDB.
Além de se livrar destes “aguerridos” senadores (ou futuros), um futuro governo liderado pelo PT terá uma situação bem mais branda, também em termos numéricos. Tanto no Senado, como na Câmara dos Deputados, terá uma maioria de mais de 60% das cadeiras, levando em conta os partidos da chamada base aliada. No Senado, dos 54 agora eleitos (dois terços), 40 são governistas, 12 da oposição e dois são do PSOL. Na composição total (81 senadores), a partir de 2011, 55 são considerados do governo, 22 da oposição e quatro são chamados independentes. O PMDB continua com a maior bancada, com 20; o PT passa a ter a segunda maior – 15; enquanto o PSDB e o DEM (o mal chamado Democratas) encolhem para 10 e sete, respectivamente.
Na Câmara os rumos ditados pela eleição do dia 3 seguem na mesma direção: crescimento das bancadas ligadas ao governo e encolhimento dos oposicionistas. O PT elegeu, pela primeira vez, o maior número de deputados, 88, enquanto o PMDB passa para o segundo lugar, com 79. O PSDB encolhe para 53 e o DEM para 43. (A composição nas duas casas legislativas ainda pode sofrer alterações em função do julgamento de ações, a maioria baseada na Lei de Ficha Limpa – ou Suja -, em tramitação na Justiça Eleitoral e no STF).
Relativizando as mudanças
Todo esse quadro, mais risonho para um futuro governo lulista, não significa necessariamente mais risonho para a luta da esquerda e dos movimentos sociais em defesa dos interesses populares e de uma democracia participativa. Há apenas, neste aspecto, mudanças relativas. Não podemos esquecer a falta de mobilização popular na política brasileira, mesmo no período eleitoral, e a forte presença da direita no Congresso, situação que continua mesmo entre os integrantes da base aliada do governo. Para que isso fique claro, basta lembrar figuras influentes no Senado comprometidas com a política anti-povo, que permanecem e/ou foram reeleitas agora, como José Sarney (PMDB), que é do Maranhão e eleito (que coisa estranha!) pelo Amapá, Jáder Barbalho (PMDB-Pará), Fernando Collor (PTB-Alagoas) e Renan Calheiros (PMDB-Alagoas).
(*) Jadson Oliveira é jornalista baiano e vive viajando pelo Brasil, América Latina e Caribe. Atualmente está em São Paulo. Mantém o blog Evidentemente (blogdejadson.blogspot.com).

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