Dizem que eu faço piada de tudo, até de fratura exposta. Não sei se isto é verdade, mas é fato que vejo a vida com muito humor, bom ou mau, mas ainda assim humor. Entendo que poucos são os fatos da vida cotidiana que são, realmente, absolutamente tristes. Também entendo que o humor nos ajuda a enfrentar e a melhor entender o dia-a-dia. Mas, nem todo mundo pensa como eu, pois muita gente vive mergulhada num profundo mau humor que nem reza forte resolve. Também não é viver rindo de tudo feito um idiota, até porque não existe nada mais idiota no mundo, do que um idiota rindo.
Sei que é difícil, principalmente para quem vive em grandes centros urbanos, falar em ter bom humor o dia inteiro. Engarrafamentos, filas de supermercado, assaltos, vizinhos e síndicos enfurecem qualquer um. Mesmo assim, lembro-me que Vinícius de Moraes afirmava em uma de suas lindas letras musicais, Samba da Bênção, que “é melhor ser alegre que ser triste, a alegria é a melhor coisa que existe, é assim com a luz no coração!”. Quem me dera ser como Vinícius foi….
No quesito do mau humor, conheço um rapaz, ainda bem jovem e estudante da área médica, que sofre desse mal. Chega a ser crônico o caso dele. Está sempre querendo brigar com todo mundo e por qualquer coisa. Inclusive, mentalmente já o intitulo de “Fulano de Tal, o mal humorado”. Mas, ele não é o único que age assim perante a vida, e isto certamente acarreta para ele e para todos que assim são muito mais sofrimentos e angústias do que o necessário. Não que em certos momentos não tenhamos um certo mau humor, pois isto é natural. O problema é quando isto vira rotina e acaba por afastar as pessoas da gente.
Observando o dia-a-dia, acabo por me deparar com situações esdrúxulas e que só com muito senso de humor consigo não ser contaminado pela mediocridade que a vida impõe. Mesmo assim, acabo por passar por mal humorado em muitos momentos, principalmente quando me fazem aquelas famosas perguntas cretinas. Lembro-me daquele personagem de vários programas humorísticos, o Dr. Saraiva, que defendia a tolerância zero para perguntas cretinas. Inclusive, recentemente, fui vítima de duas perguntas cretinas que me tiraram do sério. A primeira foi quando saindo de um cemitério onde fui acompanhar o sepultamento de um querido amigo e ainda muito comovido, encontrei um uma pessoa conhecida que me fez a seguinte pergunta: “Saindo do cemitério, foi a algum enterro?”, e eu respondi: “Não, passei aqui só para comprar creme de leite.”. A pessoa se mancou e sumiu, para meu bom sossego. A outra ocasião foi na emergência de uma clínica, pois estando eu com uma forte gripe, que na verdade era uma pneumonia, a médica que me atendeu, mesmo ouvindo minhas tosses e percebendo minha evidente falta de ar, imediatamente me perguntou: “O senhor está bem?”. Só olhei para a médica, sem verbalizar resposta. Se eu estivesse bem, será que iria visitá-la naquelas condições e naquele local? Haja senso de humor!
Ainda quanto às perguntas cretinas, fico profundamente irritado quando, conversando sobre cinema, digo que não gosto de filmes de terror, pois sempre tem um imbecil para perguntar se é porque eu tenho medo. Aí eu respondo, já de mau humor, perguntando se quem não gosta de filme pornô é assexuado. É interessante ver como a outra pessoa sempre fica com cara de idiota.
Também nas relações familiares e sentimentais, ter senso de humor ajuda bastante. Farei agora um comentário que certamente as mulheres classificarão como machista, mas que é pura verdade: a esposa ideal é muda e órfã, principalmente de mãe. Falo isto porque já cometi o casamento e tive várias outras relações sentimentais dignas das piores piadas. Para não ficar com azia, nem tocarem no assunto “sogra”, até porque o cantor e compositor Dicró já o fez com total maestria, mas o pacote “família” que vem junto numa relação, geralmente, é de tirar o humor de qualquer um. Já vi casamentos acabarem pela absurda e nefasta interferência familiar, em aspectos difíceis até de relatar de forma convincente. Falando em casamento, citei que eu já cometi um, e me refiro assim, pois só me casei no civil, e neste caso não há padrinhos e sim testemunhas; e, se há testemunha é porque é crime, ou estou errado?
Mas nem tudo foram mazelas em minhas relações do passado. Há uns vinte anos, eu tive um namoro que foi importante na época. Esta minha namorada tinha uma irmã que era uma pessoa sensacional e que eu gostava muito, chamada Lara. A Lara tinha um modo de ser muito próprio e era muito correta como pessoa, tanto que eu a chamava de “Laríssima”, pois brincava que ela era mais do que uma “Lara”, só cabendo o superlativo para defini-la. Ela adorava o apelido.
Uma coisa que me provoca profundo mau humor é festa infantil. Só é bom para as crianças e para os pais gulosos. Quando me convidam, respondo com todo o meu polido senso de humor, que nem morto aparecerei. E não vou não por pré-conceito, mas por conceito mesmo. Numa festa que fui há alguns anos, vi mães e avós brincando de trenzinho puxado por um dito animador, travestido de palhaço (quem mandou não estudar), e as crianças correndo feito loucas em outra parte do salão, nem ligando para o tal palhaço, que realmente, estava personificando seu personagem muito bem. Além desse absurdo comportamental dos adultos, tocavam umas músicas muito mal escolhidas e num volume proibitivo aos ouvidos saudáveis. Era uma verdadeira sucursal do inferno! Nunca mais aceitei testemunhar tal desequilíbrio comportamental e nem participar de algo assim tão deplorável.
Agora, depois que passei dos quarenta e devido aos quilos extras que os anos me deram, resolvi voltar a malhar. Sei que dificilmente atingirei algum índice olímpico, até porque não há sumô nas Olimpíadas, mas estou me esforçando. Ficarei “sarado”! Faço uma hora de esteira e aproveito para observar as pessoas na academia. O engraçado é que sempre tem uns coroas (ainda sou um rapazinho!) que colocam umas camisetas cavadas e fingem (não sei para quem) que estão se exercitando, na vã ilusão que as jovens “malhadoras” olharão para eles, percebendo-os. E elas nem notam que eles existem! Esta semana mesmo ouvi um desses coroas sessentões, gordo e careca, parecendo até a personificação do Buda, dizendo com toda a seriedade para o instrutor, que ele quer ficar com o abdômen “tanquinho” até o verão. Em meus pensamentos veio a seguinte pérola: “para quê ficar com o abdômen ‘tanquinho’, se a torneirinha já não deve mais funcionar direito?”. Nessas horas é que eu vejo que a esperança, realmente, é última que morre.
O autor é carioca, por engano. De formação é historiador e publicitário, radialista por acidente e jornalista por necessidade de informação. Vive vários dilemas religiosos, filosóficos e sociológicos. Ama o questionamento.
Fonte: Debates Culturais
