
Conheça a trajetória de uma abolicionista esquecida pelo tempo que ajudou milhares de escravizados.
Penelope Nogueira / Escrito em História / Revista Forum,
Muitos acreditam que o fim da escravidão no Brasil foi um processo pacífico, marcado apenas por assinaturas e discursos no Parlamento. Essa visão se fortalece ao compararmos com os Estados Unidos, onde a abolição ocorreu após uma guerra civil sangrenta. No entanto, pensar que no Brasil tudo foi tranquilo está longe da verdade.
Apesar de não termos tido uma guerra total, a abolição foi fruto de inúmeras lutas, resistências e enfrentamentos, tanto por parte dos escravizados quanto de aliados abolicionistas.
Os africanos escravizados e seus descendentes resistiram de diversas formas ao longo de mais de 300 anos de escravidão. Fugiam, organizavam quilombos, enfrentavam senhores, negociavam alforrias e desafiavam o sistema de todas as maneiras possíveis.
O Quilombo dos Palmares, símbolo máximo dessa resistência, existiu por quase um século no Nordeste. Mas ele não foi o único — centenas de quilombos surgiram por todo o território nacional.

(foto: wikipédia)
No século XIX, especialmente a partir da década de 1870, o movimento abolicionista ganhou força. Formado por jornalistas, advogados, estudantes, políticos e outras pessoas, esse grupo atuava de forma organizada em clubes e sociedades abolicionistas.
Eles promoviam debates, campanhas de doação para compra de alforrias, articulação política e até ações clandestinas de fuga e proteção a escravizados, especialmente no interior do país.
Leonor Porto: uma costureira recifense na luta
Pouco conhecida pela maioria dos brasileiros, Leonor Porto foi uma mulher à frente de seu tempo. Nascida em Pernambuco, provavelmente na segunda metade do século XIX, essa costureira recifense se destacou como uma figura central na luta pela abolição da escravidão no Brasil — especialmente em um contexto no qual as mulheres ocupavam pouquíssimos espaços sociais e políticos.
Com espírito abolicionista e senso de justiça, Leonor Porto fundou a Associação das Mulheres Abolicionistas – Ave Libertas. O objetivo era claro e urgente: libertar mulheres escravizadas por meios legais, como a compra de cartas de alforria, e prepará-las para a vida após a liberdade, algo muitas vezes negligenciado naquele período.
Em uma época em que leis limitavam a participação feminina na vida pública, Leonor reuniu mulheres da alta burguesia, religiosas e republicanas em torno da causa da abolição. A Ave Libertas não apenas atuava na libertação de mulheres escravizadas, mas também oferecia apoio material e moral para que essas mulheres pudessem se reintegrar à sociedade com dignidade.
Uma das ações mais marcantes de Leonor foi a organização de uma festa beneficente, cujo objetivo era arrecadar fundos para a compra de cartas de alforria. O evento foi um sucesso: com o apoio de outras mulheres da associação, ela conseguiu reunir o valor suficiente para libertar cerca de 200 mulheres escravizadas.
Esse gesto, além de prático, era profundamente simbólico — mostrava que as mulheres também podiam liderar movimentos políticos e sociais com impacto real.
Leonor Porto faleceu em 1906, mas deixou um legado que ultrapassa sua atuação como abolicionista. Ela foi, sem dúvida, uma das precursoras do feminismo no Brasil, mesmo antes de o termo ser amplamente usado no país. Sua luta pela liberdade feminina — em todos os sentidos — antecipou ideias que só ganhariam força muitas décadas depois.
Infelizmente, seu nome ainda é pouco lembrado nos livros de história. No entanto, há um reconhecimento simbólico importante: uma escola no Recife leva seu nome, preservando, mesmo que discretamente, a memória dessa mulher que usou a costura como instrumento de transformação social.
A Lei Áurea foi só o começo
A assinatura da Lei Áurea, em 13 de maio de 1888, foi apenas o desfecho legal de uma mobilização complexa e prolongada. A princesa Isabel assinou a lei, mas a verdadeira abolição foi construída, ao longo de séculos, por meio da resistência ativa de milhões de pessoas negras e do apoio de aliados como Leonor Porto.
A abolição não foi um presente da monarquia. Foi uma conquista forçada por pressões sociais, revoltas e uma luta contínua por liberdade — uma luta que, em muitos aspectos, ainda segue viva na busca por igualdade racial e justiça no Brasil de hoje.
Foto de capa: Capa do jornal Sociedade Abolicionista Ave Libertas com Leonor Porto estampada. Wikipédia.
