
“É preciso que a leitura seja um ato de amor.”
(Paulo Freire)
Há muito se fala a respeito da importância da Leitura, especialmente em nosso país, onde grande parte de sua população sempre esteve avessa a esse tipo de atividade. Este texto é uma pequena contribuição, a fim de que este ato tão importante e significativo em nossas vidas possa ser um pouco mais fecundo. Segundo Voltaire, escritor e filósofo francês, “A Leitura engrandece a alma” e, de acordo com o educador brasileiro e também filósofo, Paulo Freire, “É preciso que a leitura seja “um ato de amor”.
Nessas questões relativas à Leitura, nem importa muito a quantidade de livros que alguém possa ter lido; o importante mesmo é aquilo que “assimilou” ou reteve em sua vida, ou seja, aquilo que tocou profundamente o seu ser, ajudando-o a viver e conviver melhor no dia a dia. Sem a prática da Leitura, fica também comprometida a Escrita, ato bem mais exigente e desafiador. Ler e escrever são atitudes que requerem muita concentração e silêncio, até mesmo um certo “recolhimento” – que não se pode confundir com isolamento. Aqui, tudo se complica, uma vez que a maioria das pessoas não estão dispostas a se recolher e ouvir a si mesmas, cultivando sua singularidade; que também não se pode confundir com individualismo ou indiferentismo.
Vivemos na sociedade do “superficial”, das “massas” e massificações, onde a pessoa que pensa diferente e com mais profundidade é considerada esquisita, exótica, louca, subversiva, irreverente e até mesmo inconveniente. Se desejamos um mundo melhor e uma sociedade mais justa e fraterna, precisamos remar contra esta corrente da ilusão, mentira e alienação. A grande meta é nos tornarmos seres humanos de verdade, e esta poderosa revolução acontece dentro de cada um de nós, partindo sempre de uma educação de qualidade e edificante, que não seja apenas informativa, mas, sobretudo, formativa. Dizia |Nelson Mandela, líder da nação sul-africana, “A Educação é a arma mais poderosa que você pode usar para mudar o mundo.” Daí se entende por que os tiranos e ditadores investem tão pouco, ou quase nada, em educação; daí se entende também por que tanto lixo cultural nas mídias e redes sociais – fomentadas diuturnamente para manter o sujeito fora de si mesmo, tornando-se um simples objeto manipulável, vulnerável, influenciável, alheio ao mundo real e à verdadeira vida.
Partindo do pedagogo Paulo Freire, para quem a “leitura do mundo” precede a leitura da palavra, poderíamos começar nos perguntando: Quem sou eu? O que é, de fato, importante para mim? Qual o sentido da minha vida e existência? O que, realmente, me move? E o que me comove?…
Antes que eu pense em leitura e escrita da palavra, antes mesmo da elaboração de um texto qualquer, é fundamental que eu comece a ler a minha própria vida e história, tomando consciência do meu contexto e me dando conta do mundo que me cerca. Estes são os primeiros passos – e fundamentais – não dependendo de se frequentar uma escola. Por isso, há tanta gente “letrada” que não sabe ler (interpretar) o mundo e a vida; e há tanta gente considerada “analfabeta”, porém, verdadeiros sábios na arte de bem viver. Dizia o Mestre de Nazaré: “Eu te louvo, Pai, Senhor do céu e da terra, porque escondestes essas coisas aos sábios e inteligentes e as revelastes aos pequeninos” (Mt 11, 25).
Observar, sentir, perceber o mundo e a vida, nos mais simples detalhes, é muito importante no processo da leitura. O Criador nos dotou dos cinco sentidos, a fim de que possamos nos “mover” pela vida afora; no entanto, se algo não nos toca profundamente, se não toca o coração – a alma, o espírito, a essência do nosso ser – passa despercebido e não nos comove. Segundo a professora Mirelle Medeiros, somente “O que toca a alma (o coração) indica o caminho”; também nos diz a redatora digital Marianna Moreno: “Que belo alimento para a alma é a leitura!” E como anda essa leitura? Em que nível se encontra? Nossa leitura tem profundidade ou ficamos, apenas, num nível superficial?
Num bom sentido, exploremos os nossos sentidos, a fim de que a leitura seja não apenas eficaz, mas eficiente, deixando marcas profundas em nosso ser e nos ajudando a viver melhor. O primeiro sentido, digamos assim, aquele que “salta aos olhos” é o da Visão. Imagine-se olhando um lago. Ver o lago seria uma leitura superficial ou primária; aproximar-se do lago e tocar na água já estaria num nível mediano ou secundário. Mergulhar no lago teria a ver com uma leitura profunda. Não basta ver ou olhar as coisas superficialmente, é preciso enxergar, sentir-se envolvido/a, e este processo acontece “por dentro”, na alma, no coração. Só se vê bem com o coração; o essencial é invisível aos olhos.” (Saint-Exupéry). Para ver, precisamos da luz natural; para enxergar precisamos da luz divina que há em nós, no mais profundo do nosso ser.

Um outro sentido bastante sutil é o da Audição. “Quem tem ouvidos para ouvir, ouça!”, dizia Jesus em seus ensinamentos. Posso ouvir sons, ruídos, barulhos, músicas etc.; mas, para escutar preciso muito mais do que o ouvido. Uma leitura primária seria, por exemplo, ouvir uma música qualquer; decodificar os sons, a linguagem, a melodia etc. estaria no nível de uma leitura mediana; deixar-se tocar na alma (no coração) tem a ver com a leitura profunda, que deixa marcas positivas e inesquecíveis – e isto é “escutar” – um movimento que ocorre por dentro de nós, que vem do âmago do nosso ser. Por que ainda hoje me emociono ao ouvir certas músicas? Com certeza, porque tocaram o meu ser mais profundo. Escutar é ouvir com o coração.

Quanto ao sentido do Olfato, percebemos que há muitos aromas: cheiro agradável (olor), cheiro desagradável (odor), no entanto, por que será que a gente guarda na mente e no coração somente alguns?… Imagine-se diante de uma linda flor. A leitura primária ou superficial seria, por exemplo, cheirar a flor, inalar aquele aroma. Decodificar aquele cheiro, agradável ou desagradável, estaria no nível de uma leitura mediana, que atinge a mente e tem a ver com a interpretação; guardar no coração e na alma aquele aroma é fazer uma leitura mais profunda, porque tudo fica “entranhado” ou assimilado em nós. Leitura é “retenção” na alma, tal qual um perfume inesquecível, guardado na memória para sempre. “Trazes em teu olfato o perfume de Deus. Se não o sentes, algo está errado em ti.” (Marília Masgalos)

“A leitura, como a comida, não alimenta senão digerida.” Esta frase do Marquês de Maricá, escritor, filósofo e político brasileiro, ilustra muito bem o que é uma leitura profunda. Sabemos que nem tudo aquilo que ingerimos ou comemos o nosso organismo assimila, o que não serve é jogado fora. Portanto, nem tudo aquilo que como, bebo, mastigo ou engulo será aproveitado pelo meu corpo. Relativamente ao Paladar, uma leitura superficial estaria no nível do comer, beber, mastigar, deglutir; a leitura mediana seria perceber o gosto (sabor) agradável ou desagradável; já a leitura profunda é comparável ao que o organismo “assimila” ou retém. É algo que nutre e alimenta. Inácio de Loyola diz, em seus exercícios espirituais: “O que sacia e satisfaz a alma não é o muito saber, mas o sentir e saborear as coisas internamente.” Da mesma forma, nem tudo que leio e memorizo fica assimilado e traz proveito para a minha vida.

Posso tocar em milhões de coisas, mas só guardo na vida aquilo que sinto profundamente. O poeta, romancista e ator francês, Jean Cocteau, diz que “O Tato consiste em saber o quão longe podemos ir.” Sentir é mais do que, simplesmente, tocar. A leitura primária ou superficial seria tocar em alguma superfície, por exemplo; guardar na memória aquela sensação agradável de maciez, ou desagradável de aspereza, estaria no nível de uma leitura mediana ou secundária. A leitura profunda tem a ver com aquilo que sinto e guardo no mais profundo do meu ser. São impressões e marcas internas que ficam impregnadas em nossa alma.

Todos estes sentidos não farão o menor sentido se não deixarem marcas profundas em nosso ser. Todas as leituras não terão nenhum significado se não tocarem o nosso coração – entendendo-se coração não apenas como órgão físico e biológico, mas como a nossa própria essência humana e divina. Num mundo que prioriza a informação, sem muito cuidado com a formação do ser humano, a ênfase está no pensar, no saber, na inteligência, e isto já é uma leitura bastante superficial; na vida autêntica e singular, o que toca o coração já seria bem mais avançado, digamos assim, uma leitura intermediária ou mediana; todavia, aquilo que brota do coração é o que, na verdade, gera vida, alegria e paz, e isto se poderia comparar à leitura profunda.
Há também um sexto sentido, não muito explorado e até desacreditado por muitos. Não estaria nesse mundo ou dimensão as respostas para tantas das nossas perguntas?… A frase “Penso, logo existo”, do filósofo e matemático René Descartes, ainda alicerça um mundo que privilegia a razão. Os sentimentos, intuições, premonições e pressentimentos são muitas vezes descartados, e até mesmo ridicularizados. É urgente e necessário o equilíbrio entre razão e sentimento, pois, conforme nos diz o filósofo Aristóteles: “A virtude está no meio.”

“A distância mais longa é aquela entre a cabeça e o coração.”
(Thomas Merton)
PerYaçu
Bananeiras-PB: 17 de março de 2023
Vera Periassu – poeta, cordelista e educadora popular
veraperiassu@gmail.com
