Lançada no Rio a Frente Nacional de Mulheres no Hip Hop

Apresentação das rappers ao final do evento realizado no Conselho Estadual dos Direitos da Mulher (Cedim). Foto: Eduardo Sá/Fazendo Media.
Apresentação das rappers ao final do evento realizado no Conselho Estadual dos Direitos da Mulher (Cedim). Foto: Eduardo Sá/Fazendo Media.

Cerca de 50 pessoas estavam presentes no lançamento da Frente Nacional de Mulheres no Hip Hop, que ocorreu no Conselho Estadual dos Direitos da Mulher (Cedim), no centro do Rio de Janeiro, durante a tarde do último sábado (17/07). Ao longo da atividade ocorreram palestras e apresentações dos grupos que integram a nova entidade.
De acordo com Edd Wheller, pioneira do movimento hip hop no Rio de Janeiro, essa Frente é um ponta pé inicial para que todas as meninas mostrem o seu trabalho.
“É um espaço de divulgação. Vemos a necessidade de ser mostrado o nosso trabalho de forma profissional, e é preciso trazer a política em nossos temas: a sexualidade, o aborto, a afetividade, as agressões, a mulher negra, etc. Vamos montar uma rede e poder daí seguir um novo caminho”, afirma a rapper.
Outra rapper antiga que é respeitada entre as meninas, Rubia, de São Paulo, lembrou que há 20 anos era muito difícil organizar o movimento pois as mulheres enfrentavam mais preconceitos e desafios. Ele foi homenageada com uma placa pela sua luta na cultura hip hop nos últimos anos.
“A idéia é continuar essa resistência para uma frente com ação nacional em prol de um único objetivo de gênero, abrangendo não só as mulheres do hip hop mas as mulheres em geral”, disse Rubia.
Da esquerda para a direita: Rubia (SP), Aninha (DF) e Edd Willer (RJ). Foto: Eduardo Sá/Fazendo Media.
Da esquerda para a direita: Rubia (SP), Aninha (DF) e Edd Wheller (RJ). Foto: Eduardo Sá/Fazendo Media.

Aninha, que além de rapper contribui com a produção de cd’s em Brasília, destacou a obrigação de se viabilizar mecanismos para a geração de novos talentos.
“Nossa obrigação é lançar algumas meninas que não têm oportunidade nem condições para lançar cd’s”, destacou Aninha.
Segundo as integrantes da Frente, para participar da entidade basta ser mulher, ter compreensão e comprometimento com os princípios, participar da reunião presencial em seus estados e a virtual a nível nacional, e divulgar a logo da entidade nos eventos, além da participação em Fóruns, Conselhos e outras realizações.
A ideia de se criar uma frente nacional nasceu no Fórum Estadual de Mulheres no Hip Hop, realizado nos dias 13 e 14 de março em Carapicuíba (SP), quando representantes do movimento hip hop de sete estados participaram de atividades sobre literatura, filmes, teatro, dança, política, dentre outros temas com um olhar nas perspectivas da mulher na sociedade e dentro da cultura hip hop.
 Nesse Fórum foi feita uma “carta de intenções pelas mulheres do hip hop por uma sociedade mais igualitária”: aprovação de lei estadual que determine participação artística de 50% das mulheres em eventos culturais, inclusive de hip hop; aprovação de lei estadual que determine a implantação da cultura hip hop no calendário escolar da rede de ensino dos estados, por meio de um projeto pedagógico; oficialização do Fórum Estadual das Mulheres do Hip Hop a ser realizado como principal meio para discussão e reflexão sobre os gêneros dentro da cultura, com inclusão no calendário da Secretaria de Cultura do Estado em data próxima ao Dia Nacional da Mulher, etc.
A condição da mulher dentro e fora do hip hop
Da esquerda para a direita Negrar Rô, integrante do XX, Neusa , do. Foto: Eduardo Sá/Fazendo Media.
Da esquerda para a direita a rapper Negrar Rô, a mediadora Flavia, do Negresoul, Neusa das Dores, da ONG Coisa de Mulher e Maria Celsa da Conceição, candidata a deputada federal pelo PRB-RJ. Foto: Eduardo Sá/Fazendo Media.

Após a apresentação foi realizado um debate com a presença de Neusa das Dores Pereira, da ONG Coisa de Mulher, Negra Rô, rapper integrante do movimento Posso Preta H2, e Maria Celsa da Conceição, vítima de agressão e candidata a deputada federal pelo Partido Republicano Brasileiro (PRB-RJ).
Maria Celsa, uma das precursoras da Lei Maria da Penha, foi estuprada quando criança e teve 50% do seu corpo queimado em 1987 por seu namorado, que ficou preso apenas 30 dias à época. Ela era modelo, passou por 38 cirurgias, tirou a máscara que cobria seu rosto há poucos anos em uma coletiva que deu à imprensa e hoje luta contra a violência à mulher.
“As vítimas da violência estão sofrendo com essa politicagem, queriam fechar o Conselho Estadual do Direito da Mulher e as delegacias de mulheres, acabar com as feministas. Eu quero refazer o código criminal, porque o que temos caducou, foi feito há muito tempo e por isso estamos perdendo tudo na justiça. É preciso uma política de prevenção à violência, ter assistente social e psicólogos para atender essas mulheres”, destacou Celsa.
Desde 2002 atuando como rapper no hip hop, Negra Rô apontou alguns problemas relacionados à afetividade dentro do movimento.
“São poucos os casais dentro do movimento, e é preciso ver que a mulher do hip hop é como qualquer uma. Infelizmente a mulher no hip hop não é respeitada. Muitas coisas mudaram, as mulheres indo trabalhar, entrando nas universidades, e tem homens que não compreendem isso. Outras optam pelo trabalho doméstico também, que é um direito. É preciso ver também a afetividade com pessoas do mesmo sexo, todo ser humano tem o direito de amar e ser amado” , observou Negra Rô, que fez questão de destacar que suas observações não era uma generalização aos temas abordados.
Apresentando um cenário amplo em relação à situação da mulher nos dias de hoje, Neusa Pereira, militante feminista, destacou que a opressão à mulher é milenar e vem da cultura ao invés de ser algo inerente ao homem.
“Lugar de mulher é no mundo inteiro, somos mães de mais da metade da humanidade. Hoje as meninas sofrem com o infanticídio, mutilação genital, escravidão, uma em cada quatro sofrerá de abuso sexual na infância. Há também a banalização da imagem da mulher pela manipulação de valores na mídia, existe uma criação de estereótipos numa televisão totalmente européia, uma coisificação estética”, criticou Neusa, coordenadora do Centro de Documentação e Informação Coisa de Mulher (CEDOICOM).
Ainda segundo Neusa, um dos principais problemas entre o seu gênero é a condição das mulheres negras que ainda “agrega a violência racial”. Em relação às presas, ela destaca que o número vem aumentando em todo o mundo, sendo aqui no Rio em sua maioria negras, pobres, jovens, mães, com baixa escolaridade, envolvidas com o comércio de drogas, e não têm acesso a exames nem atendimento ginecológico ou de pré natal, além da inexistência de berçários.
Neusa encerrou sua fala destacando a importância da criação do Conselho Estadual LGBT no Rio, dada a invisibilidade da mulher lésbica pelo governo. Quanto à Lei Maria da Penha, em sua opinião a lei é abrangente de modo a atender aspectos da violência econômica, psicológica, racial, dentre outros, mas o defeito está em seus aplicadores, por isso a dificuldade das causas femininas serem vitoriosas. “Compromisso, independência e liberdade são fundamentais na vida das mulheres”, sentenciou a militante.
Ao final do evento as participantes fizeram uma apresentação com danças e batalhas de rimas, que abordam questões da sociedade contemporânea com um olhar crítico, sobretudo em relação às mulheres.
(*) Para mais informações sobre a participação das mulheres no hip hop acesse a página Mulheres no Hip Hop.

2 comentários sobre “Lançada no Rio a Frente Nacional de Mulheres no Hip Hop”

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