Juízo final: estamos mais perto de uma guerra nuclear do que imaginamos?

Trump diz que Putin está ‘completamente louco’ em meio a nova escalada militar e às vésperas do aniversário do Tratado ABM, que há 53 anos tentou conter a corrida nuclear entre EUA e a extinta União Soviética

Por Iara Vidal – Escrito em História – Revista Forum –

A tensão entre Estados Unidos e Rússia voltou a aumentar após o presidente Donald Trump fazer duras declarações neste domingo (25) contra o presidente Vladimir Putin, a quem acusou de estar “completamente louco” após os mais recentes ataques russos contra cidades da Ucrânia.

“Sempre tive uma boa relação com Vladimir Putin, mas algo aconteceu com ele. Ele ficou completamente louco. Sempre disse que ele quer toda a Ucrânia, não apenas uma parte. Mas, se tentar, levará a Rússia à ruína”, escreveu Trump em sua rede social Truth Social.

Kremlin amenizou a reação e evitou um confronto direto. O porta-voz presidencial, Dmitri Peskov, declarou nesta segunda-feira (26) que estão “acompanhando de perto todas as reações”.

Peskov deu a entender que as mensagens de Trump estariam influenciadas por uma “sobrecarga emocional”. Segundo ele, o presidente russo “toma as decisões necessárias para garantir a segurança do país” e lembrou que Moscou agradece as tentativas de Trump de mediar o conflito.

Aniversário do tratado histórico de controle de armas nucleares

A declaração polêmica de Trump, que repercutiu internacionalmente, foi publicada às vésperas do 53º aniversário do Tratado sobre Mísseis Antibalísticos (ABM, da sigla em inglês), assinado em 26 de maio de 1972 entre os Estados Unidos e a então União Soviética — um marco da Guerra Fria que representou um esforço bilateral para limitar a escalada da corrida nuclear.

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Hoje, mais de meio século depois, a corrida armamentista entre Washington e Moscou voltou a se intensificar. Apesar de menos visível do que no século XX, o embate entrou em uma nova fase: mais incerta, fragmentada e tecnologicamente avançada.

O risco de uma guerra nuclear entre Estados Unidos e Rússia em 2025 é considerado baixo, mas não pode ser descartado. A combinação de fatores geopolíticos, a modernização de arsenais e a retórica agressiva elevam o grau de instabilidade global.

Embora o cenário de conflito nuclear ainda seja improvável, os riscos vêm aumentando nos últimos anos. O colapso de tratados de controle de armas nucleares contribuiu diretamente para esse quadro. Além disso, os programas de modernização dos arsenais nucleares por parte das duas potências, aliados à retórica beligerante de líderes e propagandistas, aprofundam as tensões.

Relógio do Juízo Final

Um indicativo desse cenário de preocupação global é o Relógio do Juízo Final, mantido pelo Bulletin of the Atomic Scientists, ajustado em janeiro de 2025 para 89 segundos antes da meia-noite — o ponto mais próximo de uma catástrofe global já registrado desde sua criação em 1947.

Esse ajuste reflete a crescente preocupação com ameaças existenciais, incluindo o risco de guerra nuclear, mudanças climáticas, pandemias e o uso indevido de tecnologias emergentes, como a inteligência artificial.

A decisão de avançar o relógio em um segundo em relação ao ano anterior foi tomada pelo Conselho de Ciência e Segurança do Bulletin, sinalizando a urgência de ações globais para mitigar esses riscos.

O Relógio do Juízo Final serve como um alerta simbólico sobre a proximidade da humanidade de sua própria destruição, incentivando líderes e cidadãos a tomarem medidas concretas para garantir a segurança global.

Improvável, mas ainda há risco

Embora um confronto nuclear direto entre EUA e Rússia ainda pareça improvável, a erosão dos mecanismos de controle, somada à ausência de diálogo diplomático e à pressão estratégica regional, aumenta o risco de escaladas acidentais ou mal calculadas. Especialistas enfatizam a urgência em restaurar canais formais de comunicação e em fortalecer os sistemas de prevenção de conflito.

Com o colapso de tratados históricos e o desenvolvimento de novas armas estratégicas, os dois países — que juntos ainda detêm cerca de 90% do arsenal nuclear mundial — estão reconfigurando suas doutrinas militares e modernizando seus sistemas de ataque e defesa com base em tecnologias como mísseis hipersônicos, armas autônomas e inteligência artificial.

A fala de Trump, ao mesmo tempo em que critica Putin, ocorre num momento em que a diplomacia global sobre armas nucleares está enfraquecida e os riscos de uma nova era de instabilidade estratégica se multiplicam. Regiões como Ucrânia, Báltico e Ártico concentram os maiores riscos de incidentes, em um cenário onde os limites são testados continuamente — sem garantias de contenção.

Colapso dos tratados de controle nuclear

O primeiro grande rompimento veio em 2002, quando os Estados Unidos, então sob a presidência de George W. Bush (2001-2009), se retiraram unilateralmente do Tratado sobre Mísseis Antibalísticos (ABM), assinado com a União Soviética em 1972. A medida abriu caminho para o desenvolvimento de sistemas antimísseis, levando Moscou — então liderada por Vladimir Putin, em seu primeiro mandato como presidente da Rússia (2000-2004) — a investir em armas hipersônicas e tecnologias de evasão.

Já em 2019, durante o primeiro mandato de Trump (2017-2021) e o quarto de Putin (2018-2024), foi a vez do Tratado de Forças Nucleares de Alcance Intermediário (INF, da sigla em inglês) ser abandonado. Os EUA acusaram a Rússia de violar suas cláusulas. Moscou negou e também deixou o acordo. O tratado proibia mísseis de alcance entre 500 km e 5.500 km, cruciais para a segurança europeia.

O único tratado remanescente, o New START, que limita arsenais estratégicos ofensivos (mísseis e ogivas de longo alcance), está tecnicamente em vigor até 2026. No entanto, em 2023, a Rússia suspendeu sua participação, em protesto contra o apoio militar ocidental à Ucrânia. Não há, até agora, qualquer iniciativa concreta para sua renovação ou substituição.

Modernização acelerada dos arsenais nucleares

Tanto os Estados Unidos quanto a Rússia estão investindo fortemente para atualizar suas armas nucleares. O objetivo é garantir que, mesmo décadas depois da Guerra Fria, ambos os países continuem com poder militar de ponta.

Nos Estados Unidos, o governo está gastando mais de US$ 1,5 trilhão em um grande plano de modernização. Esse plano envolve o chamado “triângulo nuclear”, que é formado por:

  • Mísseis intercontinentais, lançados de bases em terra: o antigo modelo será substituído por um novo míssil chamado LGM-35 Sentinel.
  • Submarinos com armas nucleares, que ficam escondidos no oceano e servem como ameaça constante. A nova frota será da classe Columbia.
  • Aviões bombardeiros, capazes de lançar bombas nucleares de longa distância. Um novo modelo, o B-21 Raider, será furtivo (difícil de ser detectado por radar) e altamente moderno.

Além disso, os EUA estão desenvolvendo tecnologias para se defender contra ataques de mísseis, e também investindo em inteligência artificial e ataques cibernéticos, que podem ser usados para evitar ou responder a ameaças.

Na Rússia, o presidente Vladimir Putin anunciou uma série de novas armas que, segundo ele, seriam capazes de ultrapassar qualquer sistema de defesa existente. Entre elas estão:

  • Avangard: um tipo de míssil hipersônico que viaja muito rápido e pode mudar de direção, dificultando sua interceptação.
  • Sarmat (apelidado de “Satan-2”): um dos maiores mísseis já construídos, com capacidade de atingir qualquer parte do mundo.
  • Poseidon: um torpedo nuclear que se move sozinho no fundo do mar e pode causar grande destruição ao atingir a costa inimiga.
  • Burevestnik: um míssil de cruzeiro com motor nuclear, projetado para voar longas distâncias sem ser detectado.

A Rússia também tem reforçado sua presença militar em áreas estratégicas como o Ártico, e modernizado armas nucleares menores (chamadas táticas) perto da fronteira com países da OTAN (aliança militar liderada pelos EUA).

Novas estratégias e risco de conflito

Nos últimos anos, Rússia e Estados Unidos mudaram a forma como pensam o uso de armas nucleares. A Rússia passou a destacar o uso de armas nucleares “menores”, chamadas de táticas, em guerras regionais — como a da Ucrânia — para tentar impedir a reação de outros países e ganhar vantagem. Isso preocupou governos do mundo inteiro, porque mostra que Moscou está mais aberta a considerar o uso de armas nucleares mesmo em conflitos localizados.

Do lado dos Estados Unidos, a resposta tem sido reafirmar sua capacidade de se defender, especialmente em cooperação com a OTAN (aliança militar que inclui países europeus). Washington está  atualizando suas bombas nucleares B61 guardadas em bases na Europa. Além disso, tanto EUA quanto Rússia voltaram a fazer exercícios militares com simulações de uso de armas nucleares, algo que lembra os tempos tensos da Guerra Fria.

Diálogo interrompido entre EUA e Rússia

Desde o início da guerra na Ucrânia, os canais de diálogo entre Washington e Moscou sobre armas nucleares foram enfraquecidos ou até mesmo cortados. Não há conversas acontecendo para renovar o tratado New START, que limita o número de armas nucleares de longo alcance, nem para criar regras sobre novas tecnologias militares, como mísseis hipersônicos, armas cibernéticas ou inteligência artificial aplicada à guerra.

O mundo, portanto, vive o que especialistas chamam de “corrida nuclear silenciosa” — sem tantas armas novas sendo fabricadas, mas com muito investimento em tecnologia mais rápida, difícil de detectar e mais perigosa. Tudo isso com pouca transparência e sem regras claras, o que aumenta os riscos de um erro ou de um conflito sair do controle.

Por que o fim dos tratados de armas nucleares preocupa

Sem tratados atualizados nem diálogo entre as potências, o maior perigo hoje não é uma guerra nuclear total planejada, mas um erro de cálculo. Um míssil mal interpretado, uma provocação mais agressiva do que o esperado, ou um sistema automatizado agindo sem controle humano podem causar uma escalada repentina em lugares tensos como a Ucrânia, o Báltico ou o Ártico.

A quebra desses acordos também mostra o fracasso das tentativas diplomáticas de manter a estabilidade e serve como um alerta urgente para que o mundo volte a criar regras e formas de diálogo para evitar tragédias nucleares.

Entenda o Tratado sobre Mísseis Antibalísticos (ABM)

O Tratado ABM, assinado em 1972, foi um acordo entre os Estados Unidos e a União Soviética para impedir que um dos lados criasse um escudo capaz de bloquear mísseis nucleares do outro. A ideia era manter o equilíbrio do medo: se nenhum país puder se defender totalmente, nenhum vai se arriscar a atacar primeiro, porque sabe que seria destruído também. Esse conceito ficou conhecido como “destruição mútua assegurada” (MAD).

Na época, as duas potências tinham milhares de ogivas nucleares. O temor era que, se uma delas criasse um bom sistema de defesa, se sentiria segura para atacar primeiro e tentar escapar da retaliação. O tratado tentou evitar isso.

O acordo surgiu durante o período da “détente”, quando EUA e URSS tentavam reduzir tensões. Foi assinado junto com o SALT I, outro tratado para limitar armas nucleares estratégicas.

O que o tratado dizia?

  • Cada país só poderia ter dois sistemas de defesa antimísseis (um na capital e outro em uma base de mísseis), reduzidos depois para apenas um.
  • Os dois lados se comprometiam a não instalar escudos defensivos em outros lugares.
  • Defesas completas contra mísseis nucleares foram proibidas, para preservar o equilíbrio e a lógica da dissuasão.

Por que o tratado foi importante?

  • Freou a corrida por novas armas nucleares, já que não valia a pena criar mísseis mais poderosos se não haveria como escapar da destruição.
  • Manteve o equilíbrio nuclear, evitando confrontos diretos entre as superpotências.
  • Abriu caminho para outros tratados, como o SALT II, START I e II, e mais tarde o New START.
  • Foi um símbolo da cooperação em meio à Guerra Fria, quando as duas potências conseguiram negociar apesar das rivalidades.

O fim do tratado e suas consequências

Em 2002, os Estados Unidos, sob a presidência de George W. Bush, se retiraram do tratado, alegando que precisavam desenvolver defesas contra ameaças de países como o Irã e a Coreia do Norte. A Rússia protestou, considerando isso uma ameaça à estabilidade global.

A partir daí, a confiança entre as potências desmoronou, uma nova corrida por tecnologias avançadas começou e armas hipersônicas e sistemas de defesa mais complexos entraram em desenvolvimento, elevando o risco de desequilíbrio.

Nova era nuclear

O especialista Jon B. Wolfsthal, referência mundial em segurança nuclear, escreveu um artigo no início de 2025 alertando que o mundo entrou numa nova fase perigosa: mais países estão tratando as armas nucleares não só como símbolo de poder, mas como armas que poderiam realmente ser usadas.

Leia aqui o artigo na íntegra, em inglês

Ele explica que o acúmulo de ogivas pela China, as ameaças da Rússia, a modernização dos EUA e os avanços nucleares de países como Coreia do Norte, Irã, Índia e Paquistão mostram que o risco nuclear está crescendo no século XXI.

Wolfsthal destaca que a volta de Trump à presidência dos EUA pode piorar essa situação. Durante seu primeiro mandato, ele abandonou tratados importantes e não conseguiu fechar novos acordos com países como Rússia e Coreia do Norte. Agora, pode propor um novo acordo com a Rússia que permitiria aumentar os arsenais dos dois países, dando apenas uma aparência de controle.

Mas e esse tipo de pacto, sem regras claras ou fiscalização, pode ser até mais perigoso do que não ter acordo nenhum. Ainda assim, se Trump decidir negociar de forma séria, há uma chance de fechar um tratado que mantenha os arsenais nos níveis atuais ou até os reduza, o que traria mais estabilidade global.

Para Wolfsthal, o tempo para agir está acabando. A decisão que os líderes tomarem agora — entre controlar ou ampliar as armas nucleares — vai afetar diretamente a segurança do mundo nas próximas décadas.

Foto: History Conflicts

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