
Após uma conversa com Siqueira, sempre que olho no espelho tenho medo de me parecer com Judite. Não a conheci pessoalmente, mas fiquei sabendo um pouco sobre ela através desse amigo, Doutor Siqueira, terapeuta e pesquisador dos condicionamentos humanos na sociedade atual. Na verdade, estes nomes (Judite e Dr. Siqueira) são fictícios, para não comprometer o querido amigo de infância e para não ser processada pela própria Judite. Veja só o que ocorreu…
– Acredite, doutor: eu não odeio pobre! – Foram estas as primeiras palavras da Senhora Judite Castro de Alencar Albuquerque em sua catarse na primeira sessão terapêutica da semana passada. Aquele “vômito psicológico” me deixou bastante intrigado e, mesmo com os meus trinta anos de profissão, e já não me surpreendendo com mais nada que se relacione ao comportamento humano, ainda estou pensativo e sinto que teremos um grande desafio pela frente. Foi tão marcante o momento que a impressão que tenho é de que ela ainda está aqui me dizendo aquilo tudo.
– Essa é que é a verdade, está ouvindo, doutor? Graças a Deus, a quem glorifico todo santo dia, inclusive não perdendo nenhum louvor na minha santa e amada igreja, e como cristã, não devo nem posso jamais odiar os pobres, não é mesmo? Mas é que não suporto mais ver esse bando de vagabundos e acomodados, mamando nas tetas desses governantes de esquerda, que querem destruir o nosso país com essa história de inclusão social, bolsa disso, bolsa daquilo, e essa gentalha, trabalhar mesmo que é bom, nada! Tenho até saudades do tempo em que havia no nosso país ordem com O maiúsculo. Aquilo sim é que era Progresso! Não era mesmo, doutor?
– …?
– O senhor sabia que ter empregada doméstica hoje é luxo? A maior dificuldade agora é encontrar alguma dessas mocinhas que queiram trabalhar como empregada doméstica. Estão se achando muito importantes, querendo ser as tais, só falam em bom emprego, estudo, faculdade, porque isso, porque aquilo. Vivem nos salões de beleza. Umas negrinhas metidas a besta, isso é que são! Vê se pode uma coisa dessas? Isso para mim é o fim dos tempos, é o caos, uma tremenda subversão, descarada inversão de valores. Esse povinho ainda deveria estar na senzala e jamais se misturar com a gente da casa grande, não acha, doutor? Mas tudo isso é culpa desse governinho nojento! Não me conformo com esta situação, já amassei todas as minhas panelas caríssimas nesses panelaços, estou a ponto de explodir diante de tanta aberração, estou muito indignada, por isso vim aqui. Precisava desabafar. Já cheguei a agredir gente na rua durante nossas belas manifestações de protesto contra esse governo. Fora! Bando de vermelhos, subversivos, comunistas! Fora! O senhor também participa desses protestos, doutor?
– …!
– O fato é que, neste momento, me sinto superesgotada, muito cansada mesmo. Minha vida agora é lavar, passar, cozinhar, arrumar casa, cuidar de cachorro, até limpar privada, doutor! Vê se pode uma coisa dessas! Sou uma mulher de fino trato! Estudei no melhor colégio da nossa região, considerado naquela época o melhor mesmo de todo Estado. E agora? Dá para aguentar uma subversão dessas? Chegarmos a um ponto desses é demais, o senhor não acha, doutor? Já conversei a respeito do orçamento doméstico com o meu esposo, Antônio Carlos. Ele é o melhor oftalmologista da capital, sabia? Mesmo assim não dá para mantermos nosso padrão de antes, com várias domésticas em casa: lavadeira, arrumadeira, babá e cozinheira. Atualmente, só uma vez por mês é que consigo uma faxineira, por sinal, disputadíssima entre as madames do bairro e que me cobra os olhos da cara. Também essa tal diarista anda muito metida a besta. Pois não é que a dita cuja tem até um carro, que não é lá grandes coisas, mas ela se acha muito importante. Para mim, o cúmulo do absurdo foi saber, há poucos dias, que a filha dela estuda no melhor colégio da cidade, inclusive na mesma sala de aula com a minha neta. Não! Isto não dá para suportar. Será que vamos precisar tirar Patricinha do colégio? Minha linda neta passa as férias na Disney, veste as melhores grifes, anda com as meninas mais ricas da capital. Não quero jamais que a minha princesinha se misture com essa gentalha. O senhor não acha que estou certa, doutor? E aí, doutor, eu só falo, falo, falo e o senhor não me diz nada? Depois de ouvir tudo isso, o que o senhor me diz, heim?…
Diante de ânimo tão acirrado, ainda me lembro que lhe perguntei se gostaria de tomar um pouco d’água. Fez-se um pequeno intervalo, um grande silêncio e a paciente volta ao divã.
– Acredite: Eu não sou pobre! – Continuou Madame Judite: na verdade, doutor, infelizmente, nasci no meio dos pobres, mas nunca me identifiquei com aquele estilo de vida, se é que aquilo era vida. Confesso que até sentia vergonha deles: do jeito de falar, de comer, de vestir, de andar. Meu maior constrangimento era quando tinha de visitá-los. Ai, que horror! Meu pai era o vaqueiro da fazenda Realeza, conhecido por todos como Chico do Boi, vê se isso é nome de gente! Minha mãe Josefa, chamada Dona Zefinha, não passava de uma pobre coitada. Meus irmãos todos com os nomes na letra J, uma breguice danada, mas dizem que era em homenagem ao nosso avô Julião Pereira da Silva, grande vaqueiro da região. Como era de se esperar, José, Juvenal, Jerônimo e Joaquim tornaram-se vaqueiros também, dizem que com grande honra. Grande coisa! E minhas irmãs, Julieta, Jacinta e Janice eram as empregadas da fazenda. Só eu, Judite, a caçula da família, escapei dessa vida miserável porque Dr. Cláudio e D. Angélica me adotaram como filha e me levaram para fazer companhia à Angelina, filha única do casal. Fui criada na casa grande da fazenda, junto com a filha do patrão, é essa que considero como irmã. Recuso-me a ser uma Pereira da Silva, e não sou; na verdade, sou uma Castro de Alencar, e depois de casada, uma Castro de Alencar Albuquerque. É isto que sou e sempre serei. O senhor não acha que estou certa?
Nem achava nem deixava de achar; escutava com mais atenção ainda.
– Minha infância foi maravilhosa, passava o dia brincando com Angelina, estudávamos em colégio de freiras, francesas fique sabendo. Aprendi tudo que uma menina rica poderia aprender naquela época: falar francês, tocar piano, usar os talheres, arrumar uma mesa refinada, enfim, tudo que era considerado chique e de bom gosto. Tive tudo do bom e do melhor em termos de alimentação, roupas de grife, calçados lindos, presentes inesquecíveis, férias maravilhosas ao lado de Angelina. Nossa festa de debutantes foi linda! Interessante é que Angelina não dava a mínima importância para essas coisas. Isto eu nunca entendi, como não entendo até hoje ela viver metida nessas organizações e movimentos sociais. Também, casada com um doutorzinho subversivo e comunista, só poderia dar nisso! Acho que tive mais sorte que ela em termos de casamento. Conheci um grande homem, melhor oftalmologista da capital, hoje meu marido. Temos três filhos maravilhosos, uma neta linda. Inclusive estou aprendendo inglês para visitar meu filho caçula que mora em Miami. Minha vida é maravilhosa, não tenho do que reclamar. Frequento os melhores lugares, tenho muitos amigos importantes, vou às melhores festas, faço viagens incríveis, moro numa linda casa, tenho uma família maravilhosa, uma religião que me ensina a “amar ao próximo como a mim mesma”, grupos de oração, encontros de casais onde aprendo tanta coisa. Tudo isso é muito importante, não é, doutor?
– …?!
– Confesso que só não aprendi a gostar de pobre, não chego a ter ódio, mas sinto uma grande dificuldade em me relacionar com essa gente. Na verdade, estou me sentindo muito incomodada atualmente, parece até pesadelo: se estou no trânsito, passam esses pobrinhos com seus carrinhos, atrapalhando tudo; se estou na praia, lá estão eles com suas farofas e frangos, comendo debaixo dos nossos coqueiros; se vou ao cinema ou ao shopping, vejo-os comendo pipoca e fazendo o maior barulho; se estou no aeroporto, encontro-os de bermuda, chinelão, tênis, tirando foto de tudo quanto é lugar, com celulares de última geração. Não, não dá para aguentar. Tudo está pelo avesso! Mais uma vez repito: a culpa só pode ser desses governos, melhor dizendo, desses desgovernos bolivarianos, subversivos e comunistas. Isto não é normal! O senhor também não se sente incomodado, doutor? O que está acontecendo nem Freud explica, não é mesmo, doutor?
Perguntei-lhe se tinha noção do que era “projeção”. A resposta veio rápida.
– Claro que sim, doutor! Ainda ontem estive no cinema do meu shopping preferido e vi um belíssimo filme. Foi uma projeção e tanto!
Um desafio e tanto! Isto sim é o que nos aguarda, e é nisto que venho meditando até o momento, minha amiga.
Coitado do amigo Siqueira! Pobre da pobre Judite!…
Peryaçu
Bananeiras-PB: junho de 2015
Vera Periassu – poeta, cordelista e educadora popular
veraperiassu@gmail.com
