Por Paulo Emanuel Lopes
Incomodado com a atual conjuntura política brasileira, o jovem Guilherme Gondim Azevedo, vice-secretário da Juventude Mariana Vicentina em Fortaleza, membro da Comissão para a Juventude do Regional Nordeste 1 da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) e integrante de Pastoral da Arquidiocese de Fortaleza, decidiu reunir jovens lideranças de pastorais, movimentos e congregações religiosas e simpáticas à Teologia da Libertação, para formar a Frente Cearense da Juventude Católica pela Democracia.
Reconhecendo o perigo de ocorrer um golpe político no país, com a tentativa de derrubada da presidenta Dilma Rousseff (Partido dos Trabalhadores – PT), os jovens da Frente acreditam que o momento político é danoso e por isso se reúnem para discutirem a atual conjuntura. Em entrevista à Adital, Azevedo afirma que, assim como aconteceu em 1964, há um golpe em curso no Brasil, com o apoio de instituições, como a Ordem dos Advogados do Brasil (OAB). “A história nos conta que a OAB errou e a Frente não quer que a história se repita”. Confira a entrevista:
Adital: O coletivo Frente Cearense da Juventude Católica pela Democracia convida jovens para a colaboração na luta contra “golpes ao Estado Democrático de Direito brasileiro”, contrariando uma ideia apresentada por alguns juristas, incluindo a OAB, de que o atual processo de destituição da presidenta é um ato jurídico válido. Por outro lado, renomados juristas apontam o contrário. Como o Coletivo, que é formado por jovens, entende esse momento vivido pelo Brasil?
Guilherme Azevedo: Nós, da Frente Cearense da Juventude Católica pela Democracia, entendemos o atual momento nacional como danoso: compreendemos que há um golpe em curso no Brasil, como o de 1964, quando a mesma Ordem dos Advogados do Brasil viu a ação das Forças Armadas como uma “medida emergencial” necessária. A história nos conta que a OAB errou e a Frente não quer que a história se repita.
Adital: “Futebol, religião e política não se discutem”, afirma um conhecido ditado. Em tempos de intolerância política e religiosa, vivenciada em todo o mundo, como vem sendo a atuação do Coletivo junto às juventudes? Como as discussões/ações estão sendo organizadas?
Guilherme Azevedo: A Frente é formada por grupos organizados e pessoas que acumulam certa experiência em discussões sobre religião. A Frente surgiu com a tarefa de reunir os jovens da Igreja Católica, dispostos, neste momento, a impedirem o golpe, então, há uma boa adesão deste público. A organização se dá em mutirão, consultando todos, escutando as propostas e encaminhando.
Adital: Como se deu o processo de formação do Coletivo? E quais as perspectivas concretas de realizações, ou seja, os objetivos do grupo?
Guilherme Azevedo: Tive a ideia, depois de escutar um desabafo do padre Ermanno Allegri [diretor executivo da Adital], que se queixava da inércia das organizações de juventude da Igreja Católica diante do momento nacional. E ele tinha razão. Fiquei inquieto e logo decidi reunir as lideranças de pastorais, movimentos e congregações religiosas, próximas umas das outras, pela intimidade que têm com a Teologia da Libertação, numa Frente pela Democracia. Como estamos começando, ainda há algumas dificuldades, que são normais, mas pretendemos logo promover encontros de análise de conjuntura, produzir material próprio, panfletar. Um manifesto está sendo elaborado, também.
Adital: A Igreja Católica Apostólica Romana, no Brasil, religião à qual o Coletivo se diz integrante, apoiou o golpe militar de 1964 e possui muitos clérigos que são a favor da destituição da presidenta brasileira. O Coletivo encontrou mais resistências do que incentivos? Comente como foi a aceitação ou não em suas dioceses da luta de vocês contra o impeachment.
Guilherme Azevedo: Encontramos resistências e incentivos. Incentivos por parte de muitos padres, bispos e funcionários das cúrias do Ceará e do secretariado regional da CNBB, ao mesmo tempo em que encontramos resistências de leigos, que questionam a opção de alguns membros da Frente pelo socialismo e pelo comunismo. A Igreja no Brasil de hoje não é mais a de 1964. O pronunciamento de Dom Ailton Menegussi, bispo de Crateús [Ceará], no último dia 19 de março, representa o posicionamento de boa parte do episcopado cearense.
Adital: É quase consenso entre analistas políticos que, entre as razões para a baixa popularidade da presidenta Dilma, está o desconhecimento dos jovens acerca da realidade brasileira, anterior à chegada do Partido dos Trabalhadores (PT) ao poder, em 2003. Você concorda com essa afirmação? Como você e seus companheiros do Coletivo atuam na conscientização da juventude sobre os reais problemas do país?
Guilherme Azevedo: Concordo em parte porque, além desse desconhecimento, há outro agravante, que é a influência da mídia com seu discurso tendencioso e parcial, que até traz para si a competência de sentenciar um investigado, formando erroneamente a opinião pública. Pretendemos atuar com rodas de conversa, palestras e catequeses sobre o momento nacional nos grupos de jovens e outros espaços propícios da Igreja Católica.
Colaborou Tatiana Félix.
Fonte: ADITAL
http://site.adital.com.br/site/noticia.php?lang=PT&cod=88610
