A série de reportagens publicada por Eduardo Sá, na seção de Política, a respeito do seminário sobre os 30 anos da Anistia é um desses momentos que me fazem vibrar de alegria. Me fez lembrar a cobertura feita por Raquel Junia da Assembléia Constituinte boliviana: texto primoroso, conteúdo de alto nível, campo de abordagem diversificado e, mais importante, plenamente dentro dos preceitos do bom jornalismo, como define nosso juramento profissional:
“A Comunicação é uma missão social. Por isto, juro respeitar o público, combatendo todas as formas de preconceito e discriminação, valorizando os seres humanos em sua singularidade e na luta por sua dignidade”.
Eduardo retrata, em cinco textos, um momento histórico da vida pública nacional. Trinta anos depois, a sociedade discute seu acerto com o passado, sem o que a página de triste memória não será virada. Nos três dias de evento, todos realizados na UERJ, compareceram mais de mil pessoas. Eu pude estar no encerramento, que lotou a Capela Ecumênica e seu anexo, onde havia um telão para que todos pudessem assistir aos debates. Mesmo assim muita gente ficou de pé, e outros tantos sentados no chão.
Pelas mesas passaram um ministro de Estado, professores como Cecília Coimbra, Ivan Proença e Aurélio Fernandes, jornalistas como José Arbex Jr., combatentes como Jacques Dornellas, juristas do nível de um Dalmo Dallari, entre muitos outros.
Pergunta-se: por que um debate desse, realizado na região central da capital fluminense, não teve ampla cobertura dos meios de comunicação de massa? Segundo o organizador do evento, professor Oswaldo Munteal, apenas Folha e Estadão enviaram correspondentes. Fiz uma procura rápida em suas páginas na rede, mas nada encontrei. E mesmo que tenham publicado alguma coisa, a dificuldade de achar já revela um problema grave: a mídia de massa não está preocupada com a memória do país, ou então está tão preocupada que prefere não tocar no assunto.
Não sou daqueles que acreditam que as corporações de mídia evitam o tema apenas porque fizeram parte do golpe de 1964 e da ditadura que se seguiu, embora reconheça que isto seria motivo suficiente. Creio que a omissão e as distorções no tocante à memória recente se devem ao fato de que hoje, 2009, século XXI, os mesmos grupos midiáticos estão a serviço dos mesmos interesses de outrora, só que agora, em vez de ditadura, escondem-se sob o manto do neoliberalismo.
Liberalização financeira e comercial; disciplina fiscal; redução da intervenção do Estado na economia; privatização; livre entrada e saída de investimentos estrangeiros, o tal descontrole no fluxo de capitais; desregulamentação da economia. Eis a base da doutrina neoliberal, que teve como consequencia a exclusão social; o acirramento sem controle da competição; a desvalorização do setor produtivo em benefício do especulativo; desemprego; instabilidade e precarização nas relações de trabalho e devastação ambiental.
Os meios de comunicação de massa foram e são a ponta de lança do imperialismo. Cecília Coimbra, esta adorável professora, não se cansa de reptir: o golpe de 1964 foi dado para garantir a instalação das multinacionais estadunidenses no Brasil. Hoje, o neoliberalismo é o sistema que permite o roubo das riquezas nacionais, que agora mesmo, enquanto escrevo, estão saindo do país para melhorar a qualidade de vida além-mar. Ontem, as corporações de mídia acobertavam os crimes dos torturadores. Hoje, legitimam a matança da gente favelada.
Por isso vibro quando vejo uma série de reportagens como a de Eduardo Sá, sobretudo quando publicada num veículo de comunicação como o Fazendo Media, que desde sua fundação tem entre suas diretrizes a denúncia dessa bandidagem midiática. Os textos de Eduardo trazem ao mesmo tempo informação e espírito crítico: quem tiver acesso a eles vai conhecer um pouco melhor a história do país, e também vai avançar na compreensão do funcionamento das corporações de mídia. Isso é jornalismo puro, na veia.
Curiosidade: É sempre interessante notar como um único repórter, de um minúsculo veículo de comunicação, quase sem recursos financeiros e humanos, consegue fazer um trabalho de ponta, de qualidade infinitamente superior ao que publicam os mastodontes midiáticos.

oi Marcelo, vi esse post sobre 1 ano da morte do Fausto Wolff e lembrei do FM – a cada dia melhor: http://tijolaco.com/?p=3857