João Hélio X Ezequiel: um enredo jornalístico

Foto ilustrativa. Fonte: rogeliocasado.blogspot.comEmbrulha o estômago ler as matérias e comentários publicados nos últimos dias, nos jornais e sites da mídia comercial, sobre a libertação de Ezequiel Toledo de Lima, um dos condenados pela morte do menino João Hélio. Não foi diferente há três anos, quando o menino morreu, arrastado pelo carro roubado de sua mãe, preso ao cinto de segurança. A mídia comercial correu para transformá-lo em mártir, a favor de sua própria causa (os mártires são úteis exatamente porque não podem contestar os significados que os vivos decidem atribuir-lhes): a defesa da redução da maioridade penal.

Os rapazes que conduziam o carro que matou João Hélio transformaram-se em monstros nas matérias jornalísticas, sob os aplausos entusiasmados de boa parte da população brasileira. Como sempre acontece, em momentos de comoção, em que a correnteza do discurso dominante se impõe com demasiada violência, as vozes em contrário apareceram, mas eram tímidas, defensivas, acuadas. Defender o Estatuto da Criança e do Adolescente, falar em recuperação social de criminosos, naquele momento, era como enfrentar de frente uma tsunami.

Três anos depois, termina o período de reclusão do então adolescente que participou do crime e a mídia, de novo estimulada por um público sedento de sangue, retoma sua campanha pela redução da maioridade penal. E abre o caminho para outra, ainda mais perversa, manifestada nos comentários dos leitores: a defesa da pena de morte.

Para agradar o consumidor

A mídia comercial não utiliza a morte brutal de João Hélio apenas para alimentar sua campanha pela redução de direitos sociais. O crime gera tanta notícia porque vende jornal! Ao interesse político soma-se o interesse comercial.

O jornalismo comercial estuda o perfil consumidor do seu público. Interessa o que o sujeito compra. O que faz com o que compra não interessa muito. Do último jogo do campeonato de futebol aos rastros de sangue deixados pelo corpo de uma criança, o foco central do trabalho diário do jornalista da mídia empresarial é produzir informação que venda jornal. O resultado social pode ser negativo, como o pânico alimentado pela espetacularização da violência, ou a apatia social diante de centenas de denúncias de corrupção pouco investigadas.

Dois requisitos fundamentais se combinam na produção da notícia comercial. Para agradar o consumidor, é preciso manter-se o mais próximo possível do senso comum, garantindo identificação do público com a notícia. Ao mesmo tempo, é preciso surpreender diariamente o consumidor. Como, sem escapar do senso comum?

Utilizando a mesma dinâmica que as novelas. Um desenrolar lento, embora aparentemente veloz. Muita coisa acontece, mas nada muda. Mudam os personagens, os lugares e datas, muda o lide. Mas o enredo se repete e o interesse do receptor dependerá da intensidade dramática e espetacular de cada episódio. Cuidadosamente medida diariamente.

A enxurrada de comentários violentos contra a garantia de direitos humanos a Ezequiel é o termômetro que vai pautar o jornalista nas próximas reportagens. Um círculo vicioso de violência e sangue. A mídia continuará, então, reproduzindo e reforçando a lógica de uma sociedade vingativa, que prefere criar bodes expiatórios e malhar o Judas, a reconhecer e buscar soluções verdadeiras para seus problemas.

Sob o ponto de vista comercial, a história de João Hélio e Ezequiel é ótima. Uma criança assassinada diante da mãe, rastros de sangue, corpo dilacerado. E um adolescente participando do crime. Espetacular em termos dramáticos! Está garantida a atenção do público para o velho enredo: a vítima inocente e suas perspectivas interrompidas, a dor e a indignação da família e a urgência de uma solução imediata: punição dos culpados. Não para que outros episódios desses não aconteçam. Pelo contrário! Apenas para saciar a sede de vingança do público e manter acesa a chama da intolerância que continuará oferecendo material de qualidade para a cobertura jornalística.

A perversidade “imparcial”

Muitos jornalistas que vivem o cotidiano das redações comerciais sofrem, mais ou menos, com a sensação desconfortável de alimentar vampiros sem querer. De viver eternamente a contradição entre o sonho de ajudar a construir uma sociedade melhor e a experiência diária de ajudar apenas a melhoras as vendas, a custa do sonho.

Nos manuais, lhes exigem que mantenham distanciamento e frieza em relação aos fatos, em nome da objetividade. É uma armadilha para disfarçar as posições do jornal. Mas nossas emoções estão sempre conosco.

Um aluno me contou a dificuldade dos jornalistas de TV para fazerem a passagem de suas matérias ao lado do corpo esfacelado de uma criança. “O pessoal terminava a passagem e sentava no chão, exausto, tremendo, chorando”. Eu apostaria que, em geral, na ilusão de que haviam controlado suas emoções. Impossível! Ao conter suas emoções, o jornalista não as superou, apenas empurrou para dentro. Engoliu sem mastigar.

Elas retornarão em ódio, rancor, depressão ou qualquer outro sentimento destrutivo. Em matérias onde ele vomitará o ódio, a violência e a perversidade que existe em cada um de nós, reforçando-os. As manchetes e reportagens dos dias seguintes, e até hoje, oferecem um espetáculo de horror: o linchamento dos rapazes, condenados não apenas à cadeia, mas ao lugar de Judas. Bodes expiatórios de nossas perversidades reprimidas.

A guerra jornalística

A mídia comercial tem seus interesses políticos e os defende ardentemente. Ao divulgar o fim da pena de Ezequiel, O Globo aproveitou para recolocar o debate sobre a redução da maioridade penal. Todo o problema passou a ser o fato de o rapaz ter tido que cumprir apenas 3 anos de prisão porque era menor de idade na época.

Então as mídias alternativas retomam, também, a defesa dos direitos da criança e do adolescente, dos direitos humanos e, principalmente, o ataque à lógica perversa e violenta da mídia comercial. E é neste último aspecto que acho que erramos a mão. Erramos porque, embora com conteúdo diferente, reproduzimos o princípio fundamental que rege o jornalismo comercial: o confronto entre o bem e o mal, onde só uma das partes pode sobreviver à batalha final. Localizamos o bem e o mal em lugar diferente. Mas também deixamos escorrer do canto da boca o desejo de aniquilar o “mal” em nome do “bem”.

A cultura maniqueísta, que organiza o mundo divido em bem e mal, vistos como dois extremos antagônicos e inconciliáveis não foi inventada pelo jornalismo. Ela está entranhada na tradição cristã. E talvez venha de antes.

O jornalismo, por sua vez, tem suas próprias técnicas de reconstrução da realidade, bem sintonizadas com o senso comum da eterna luta entre o bem e o mal. Afinal, se não fosse o Diabo para nos aterrorizar, de onde o Papa tiraria seu poder? Se não fossem os bandidos e corruptos, quem daria crédito à polícia e à imprensa?

Mas ao atacarmos a mídia comercial com o mesmo desprezo por ela, que ela demonstra pelos pobres, estamos, afinal, reforçando a intolerância e a violência, da qual o capitalismo sempre soube se alimentar brilhantemente. Lutaremos até o fim de nossas energias, sem que o inimigo recue um milímetro sequer.

Não é muito difícil perceber, no confronto entre os Estados Unidos e a Al-Qaeda, que fundamentalismo islâmico e imperialismo norte-americano são dois lados de uma mesma moeda. Que os Estados Unidos precisam de um inimigo para viver. Assim como a Al-Qaeda só existe graças aos Estados Unidos.

De longe é mais fácil de enxergar, mas toda lógica de confronto tem esse dom de alimentar o adversário. Porque precisa dele para viver. É conseqüência natural da ação.

Isaac Newton já nos ensinou que a toda ação corresponde uma reação de mesma intensidade e direção, em sentido oposto. Aprendemos na escola essa lei, mas resistimos a enxergá-la na sociedade. Como se os seres humanos e sua sociedade não estivessem submetidos às leis da natureza.

De volta a Ezequiel

Não sei ao certo como podemos escapar a este círculo vicioso da guerra jornalística. Também estou enredada. Ao criticar o jornalismo atual, não escapo de exibir minhas próprias intolerâncias. Mas gostaria que a suíte do momento fosse Ezequiel, não João Hélio. E muito menos a mídia. Quem é este rapaz de 19 anos, recém-saído do Degase? Quais suas chances de sobrevivência? E de reabilitação? O que foi, para ele, o crime que cometeu? O que passou no Degase? Também outros menores em conflito com a lei, outros casos de proteção a criminosos ameaçados de morte.

Mas, como chegar à fala desses personagens desconhecidos e normalmente ignorados por nós? Falamos sobre eles, por eles, em nome deles. Mas raramente ouvimos suas vozes, mesmo quando nos permitimos entrevistá-los. Dificilmente eles poderão se livrar das garras de nossas próprias crenças, de nosso mundo polarizado entre o bem e o mal. Mas na vida real não existem monstros assassinos, nem vítimas inocentes. Apenas nos enredos de filmes e novelas. E em nossos textos rápidos, enxutos, contundentes e, por isso tudo, superficiais, quase sempre espremidos entre as paredes estreitas do maniqueísmo cristão, alimentando infindáveis guerras santas.

12 comentários sobre “João Hélio X Ezequiel: um enredo jornalístico”

  1. É uma pena que a nossa iimprensa seja montado por sensacionalismo e não por um estado moral.
    Não devemos assumir esse padrão de informações que chega aos extremos ppara atingir indices de venda, desrrespeitando a vida do ser humano. Isso tem que ser decretado como crime.

  2. As alegações da autora são válidas e, democraticamente, importantes. Realmente a grande mídia tem um lado bem definido na sociedade e qualquer fato desta natureza suscita discussões diversas com tantos outros diversos interesses.

    Mas tais alegações “esquecem” apenas um fato: Ezequiel é um assassino. E para isso não há justificativa.

  3. Está faltando Deus no coracão dos homens…, meus queridos filhos também foram ARRASTADOS…, porém, às vezes me surpreendo com pena da família dos “causadores” da minha dor, do meu vazio. Rezo para que Deus LIMPE o meu caminho de ódios e de vinganças… e rezo para que Deus me de a paz e o esquecimento das tristezas humanas…

  4. “Vossa Senhoria” (dona da verdade) tem mínima noção de suas ferinas palavras veiculadas? Acho que “Vossa Excelência” parece estar narrando uma estorinha qualquer, onde cinco bonzinhos bandidos, foram arrastados por um carro conduzido pela “criancinha”, que não estava presa ao maldito cinto, e sim presa ao volante, ‘zigue-zagueando’ a bel-prazer, por sete quilômetros, dilacerando..esfacelando os tão inofensivos e inestimados ‘marginaizinhos’!

    ESTÁ ERRADA!!!!!! JÁ INICIOU O SEU LAMENTÁVEL EQUÍVOCO, com uma gritante ironia ‘a la comédia de mal gosto’, mencionando o bom nome da criança vitimada – versus – a intragável composição de letras que formam a pronúcia do salafrário, reconhecendo que deveria haver critério na escolha de nomes Bíblicos. Assim evitaria qualquer porcaria, que não presta pra nada, desfrutar do imerecido privilégio de se chamar por um nome ‘bíblico’. Sem ‘B’.

    Se lhe embrulha estômago… lendo matérias e comentários contra estes cinco inservíveis e tantos outros, e a favor da criança assassinada, o seu INCÔMODO… não tem precedente nenhum, a sua revolta não tem sentido, ou seja, É MAIS UMA DAS RESPONSÁVEIS PELA INACEITÁVEL E INSUPORTÁVEL REVERSÃO DE VALORES. Princípios e Valores invertidos. INVERSÃO DE VALORES.

    Embrulha sim… o JUÍZO de cada pessoa indignada com a HISTÓRIA que jamais deveria ter ocorrido. A criança não tinha questão e pretensão nenhuma de se tornar mártir. Mártir de quê? O objetivo era o retorno ao lar, em companhia de familiares, aparentemente em paz, sem a menor importância para a inútil existência desses insignificantes. ‘Aparentemente’ por este motivo, não tinham idéia a que se sujeitariam, ao martírio infundado da criancinha. Os tais cinco demônios prensados numa forma humana… surgem do inferno para a repugnante aparição…

    Olha que tratamento romântico:
    “Os rapazes que conduziam o carro que matou João Hélio transformaram-se em monstros nas matérias jornalísticas, sob os aplausos entusiasmados de boa parte da população brasileira”. OS RAPAZES? OS JOVENS?

    Por esta hilária frase, dentre tantas outras de infelizes colocações, contidas no seu ineficaz discurso, que em sã consciência a recusa em repetí-los, é a opção sensata, você quer ser premiada com o quê? Por quem? Quer aparecer?

    O CORRETO:

    Os bandidos que assassinaram a criança, após roubarem o carro de sua família, SÃO MONSTROS MESMO! Não foi aplauso de população brasileira e nem matérias jornalísticas, que deram contribuição para se transformarem. Aplauso!!! Você faz parte de qual população? a do escárnio! a do sarcasmo! TENHA RESPEITO!!!! Estas pragas, estas pestes já são ordinários por natureza.

    Numa cincunstância drástica como esta, aparece criaturas desta linha de ideal medíocre.

    Ainda bem quê por mais que se esforçem, estravagantemente, desesperadamente a aparecer, até que por míseros momentos, NÃO PREVALECEM!!!!!!!!!!

  5. Sra. Ana Lucia Vaz, tomara que tenha um filho que seja assassinado aos 6 anos de idade por alguns “rapazes” tambem.

    Olho na pimenta dos outros é refresco…

  6. Perdi meu tempo tempo lendo essa merda que vc escreveu.
    Esse vagabundo saiu para as ruas para continuar fazendo merda.
    Lamento ele não ter sido assassinado na cadeia.

    1. Desculpe, Milton, mas a recepção de comentários andou desativada por aqui. De minha parte, a única coisa que tenho lamentado, constantemente, é a violência, a intolerância e o ódio que têm dominado nossas relações sociais. Vejo pouca saída neste caminho. A história da humanidade tem nos ensinado que a violência é o melhor combustível da violência. Mas tenho fé na sabedoria da espécie humana e acredito que, a cada dia, mais pessoas tiram a cabeça de dentro do poço do ódio e buscam saídas mais responsáveis para nossos graves problemas. Não espero que a iniciativa por romper o ciclo vicioso da violência venha de gente como o Ezequiel. Mas de mim, de você e de outros cidadãos que, como nós, são capazes de sonhar com um mundo melhor.
      Neste sentido, agradeço se, em próximas postagens, evitar os termos ofensivos e pudermos nos deter em debater boas ideias sobre como chegarmos à construção de uma sociedade melhor.

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