Jeitinho brasileiro

O Brasil precisa olhar-se no espelho. Sentir vergonha já é um bom começo. Por Antonio Veronese.

O que aconteceu com o avião da TAM em São Paulo é resultado de uma absurda convergência de incompetências e irresponsabilidades e eu, que moro no exterior, confrontado com as manchetes internacionais sobre o acidente, sinto-me humilhado e envergonhado. Quando leio os números censitários da violência e do trânsito brasileiros (hoje mesmo o Le Figaro fala dos 35.000 mortos por ano sas estradas brasileiras) e, quando tomo conhecimento, logo pela manhã, que mais de uma dezena de voos internacionais que se dirigiam ao Brasil foram obrigados a retornar ao país de origem devido a uma “pane suspeita” do controle de tráfico aéreo, sinto-me humilhado e envergonhado.

Chegamos a uma situação que impõe uma reflexão, e culpabilizar somente a incompetência e improbidade da classe politica não é suficiente: há que se ir além.

O brasileiro sofre, como jamais, as conseqüências de arcaísmos e vícios de sua personalidade, como a apatia e a elasticidade moral. Façamos um exercício de mea-culpa: você já avançou um sinal vermelho? Já subornou um policial? Já desrespeitou o limite de velocidade? Já estacionou em local proibido? Já jogou lixo em local inadequado? Já desrespeitou a lei do silêncio? Já dirigiu depois de beber? Já foi indiferente ao sofrimento da população de rua? Já foi truculento no trato dos seus semelhantes, insensível às limitações dos velhos, deu mal exemplo às crianças? Você gosta de levar vantagem!!??

Nós estamos transformados, pelo raquitismo da nossa cidadania, em um país de segunda classe. Recebendo em minha casa uma senhora da chamada elite carioca, ouvi dela a afirmação que a violência carioca não a incomodava, pois que possuía um carro blindado!? Chegamos a um nível de alienação tão assustador que negamos a reeleição a Antonio Carlos Biscaia e a reelegemos, com a maior votação do país, o “conhecido” senhor Paulo Maluf…

O acúmulo de incompetências e irresponsabilidades que provocou o acidente da TAM, seja pela deficiência técnica da pista, seja pela localização inadequada do aeroporto, seja pela imoral autorização de um vôo com restrições mecânicas, é só mais uma das consequências deste emaranhado cotidiano de pequenas infrações, negligências, licenciosidades, charminhos e travessuras que costumamos chamar, com uma ponta de orgulho e grande dose de ingenuidade, de jeitinho brasileiro.

Um país, para sair do caos, precisa de elite pensante e de tolerância zero. No Brasil de hoje a elite pensante cabe em uma platéia do Canecão e a simples expressão tolerância zero faz soar o clarim do patrulhamento reativo aos anos de chumbo, que confunde ordem pública com direitos civis.

Ghandi dizia que para se ter uma visão da floresta é preciso afastar-se das árvores. Olhando o meu país, à distância, salta-me aos olhos que o caos desses nossos tempos de cólera é culpa e responsabilidade de todos nós. Precisamos, com urgência, olharmo-nos no espelho. Sentir vergonha já é um bom começo.

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