O sofrimento psíquico, quando silenciado ou desassistido, pode levar a pessoa a assumir para si o papel de juiz e executor, negando a própria vida como se não houvesse alternativas possíveis. Falar de intolerância, portanto, é também falar de saúde mental. É reconhecer que sociedades que naturalizam o ódio, a exclusão, o silêncio e a desqualificação do sofrimento criam ambientes adoecedores.
A dificuldade de conviver com as diferenças — internas e externas — pode gerar angústia profunda, sentimentos de inadequação, desamparo e desesperança. Sem escuta, sem acolhimento e sem políticas públicas eficazes de saúde mental, o sofrimento tende a se agravar e, em casos extremos, a se transformar em autodestruição.
Esse mesmo padrão se repete em escala ainda maior quando olhamos para o cenário internacional. Quando um governante decide eliminar o líder de outro país, declara-se uma guerra. Milhares de vidas são destruídas em nome de interesses políticos, econômicos ou ideológicos. A lógica é a mesma: a negação do diálogo, o desprezo pelas instituições multilaterais, a imposição da força como critério de verdade.
Assim como no plano individual, também no plano coletivo a
ausência de mediação e de cuidado produz adoecimento social
e destruição.
O que essas diferentes formas de violência têm em comum?
Todas partem da mesma raiz: a intolerância diante da diferença e a crença de que a força pode substituir o diálogo. Seja no feminicídio, no parricídio, no suicídio ou na guerra, alguém se arroga o direito de decidir sobre a vida — própria ou alheia — colocando-se acima da lei, da ética e da justiça. Ao impor a própria justiça, o indivíduo ou o grupo torna-se juiz em causa própria — e esse é sempre o caminho mais curto para a barbárie.
Mas há uma pergunta ainda mais profunda que precisa ser feita: na lógica de eliminar o outro que me contradiz, o que estou eliminando, de fato? Ao eliminar o outro — ou a si mesmo — eliminam-se também possibilidades de crescimento pessoal, de amadurecimento emocional, de revisão de certezas e de elaboração do sofrimento. Elimina-se a chance de encontrar saídas mais criativas para os conflitos, de enriquecer o repertório de possibilidades, de transformar a dor em aprendizado.
O diferente, seja ele externo ou interno, não é apenas um obstáculo; muitas vezes é a condição para que nos tornemos mais conscientes, mais resilientes e mais humanos. Um ponto de vista é apenas a vista de um ponto. E os outros pontos de vistas não seriam enriquecedores considerá-los?
Quando a diferença é percebida como ameaça, perde-se a oportunidade de aprendizado que ela carrega. O conflito, que poderia ser um espaço fértil de transformação e cuidado, converte-se em campo de aniquilação. A violência, nesse sentido, não elimina apenas o outro: empobrece quem a pratica, fragiliza a saúde mental coletiva, reduz o mundo a uma única perspectiva e fecha todas as portas para o novo.
Em sociedades que se pretendem civilizadas, os conflitos não deveriam ser resolvidos pela violência, mas mediados por instituições legítimas e por redes de cuidado. O Estado de Direito nasce exatamente para isso: para impedir que a vingança pessoal ou o desespero individual substituam a justiça coletiva. Tribunais, leis, políticas públicas, serviços de saúde mental, assistência social e organismos internacionais existem para oferecer caminhos de mediação, negociação, acolhimento e reparação. Quando essas estruturas são desacreditadas ou negligenciadas, abre-se espaço para o caos, para o adoecimento social e para o lucro/sucesso desenfreado de quem o promove.
No contexto brasileiro, essa reflexão é urgente
Vivemos tempos de polarização intensa, em que divergências políticas, religiosas e culturais frequentemente se transformam em hostilidade. O espaço do diálogo vem sendo ocupado por discursos de ódio, desinformação e silenciamento. Esse ambiente não apenas empobrece o debate público, como também adoece indivíduos e comunidades, tornando a violência — inclusive contra si mesmo — uma possibilidade cada vez mais naturalizada.
Reaprender a conviver com as diferenças exige um esforço
coletivo. Passa pela educação para o diálogo, pela escuta
empática, pelo fortalecimento das instituições e, de modo
central, pelo investimento consistente em saúde mental e redes
de cuidado.
Passa também por uma responsabilidade individual: reconhecer que ninguém detém sozinho a verdade absoluta e que sempre existem alternativas à eliminação — do outro ou de si mesmo. Não se trata de negar os conflitos — eles são inevitáveis. Trata-se de escolher como lidamos com eles.
A violência pode até parecer uma solução rápida, mas seu legado é sempre a destruição. O cuidado, o diálogo e a escuta, embora mais lentos e exigentes, são os únicos caminhos capazes de preservar vidas, relações e possibilidades. Talvez este seja, de fato, o momento de relembrar a história. Não para repetir seus erros, mas para reler as mensagens daqueles que nos alertaram sobre os riscos da intolerância. Sem valores universais, sem respeito mútuo, sem justiça — e sem cuidado com a saúde mental — a convivência entre pessoas, grupos, nações e até consigo mesmo torna-se impossível.
*Este texto reflete, exclusivamente, a opinião do autor.p