Instalação da Academia Teixeirense de Letras e Artes

No último dia 14 de março, foi instalada em Teixeira-PB a Academia Teixeirense de Letras e Artes – ATLA, da qual faço parte desde a sua fundação, em 22 de junho de 2024. Nesta ocasião, durante o discurso onde a representei, declamei os seguintes versos de minha autoria:

 

Este anseio curtido sob o orvalho  

De uma noite lunar de primavera  

Pareceu-me de início uma quimera  

Renascida das cinzas do borralho 

Mas a ATLA surgiu como agasalho 

Para as letras, as artes, a poesia 

Resgatada que foi da utopia  

Do liame com nossos ancestrais 

Com orgulho atravesso estes umbrais 

Ingressando na nova academia 

  

Nesta noite que marca a nossa história  

Reunidos aqui neste simpósio 

Cumprimento o senhor, Doutor Ambrósio 

Que ousou resgatar nossa memória  

O que antes mostrava-se ilusória 

Floresceu, não obstante as tempestades 

Quando o sonho se uniu com outras vontades 

Deu-se a liga, a união dos diferentes  

Cumprimento vocês aqui presentes 

Estimados confreiras e confrades 

  

Muito honrado de estar aqui por perto 

Entre pares notáveis do saber 

Nesta fonte haverei eu de beber 

Mas também deixo aqui meu livro aberto 

Comprometo-me a estar sempre por perto 

A serviço do povo que um dia 

Fez poemas, pintou, fez cantoria 

Levou música aos becos e calçadas 

Suas obras, enfim, serão guardadas 

Para quem só chegar no fim do dia  

 

Ocupar a cadeira que pertence 

À poeta Elizete Cassiano 

Talvez fosse tarefa de um decano 

Exemplar da cultura teixeirense 

Me atrever… possa ser até nonsense 

Mas o faço, em profunda comunhão 

Com o conjunto da obra e cada ação 

Desta nobre mulher que além de flor 

Plantou luta, altruísmo e destemor 

E poesia pro nosso coração 

  

Cumprimento o prefeito da cidade  

Excelência, Senhor Wenceslau Marques 

Que ao chegar no portão para os embarques 

Demonstrou todo apoio e lealdade 

Acredito haver certa afinidade 

Entre a sua gestão e a academia 

No que tange à cultura, arte, poesia 

E à memória dos que virão depois 

Precisamos de, pelo menos, dois 

Nesta soma chamada parceria 

  

E, por fim, cumprimento esta plateia 

De parentes e amigos à vontade 

Sentimento maior que a amizade 

Se alguém sabe… Eu não tenho a mínima ideia 

Esta gente carrego na boleia 

Da lembrança que sempre anda comigo 

Mesmo quando estirado num jazigo 

À espera do Dia do Juízo  

Se eu notar que até morto eu estou liso 

Lembro deles, retorno e peço abrigo. 

 

Discurso:

Excelentíssimo Doutor Ambrósio Nunes, presidente desta Academia, estimadas confreiras, estimados confrades, Excelentíssimo Senhor Wenceslau de Souza Marques, prefeito deste município e presidente de honra da Academia, demais autoridades, querida plateia – onde estão amigos e familiares, dentre os quais o meu netinho Arthur.  

 Saúdo, em particular, o confrade João da Cruz Fragoso, único filho vivo do nosso saudoso conterrâneo José Fragoso da Costa, que, em decorrência de problemas de saúde, não está conosco nesta noite.  

Muitos perguntarão: para que uma academia de letras e artes? Penso até que alguns hão de dizer que criar uma instituição assim é mergulhar na seara do arcaísmo. Saudosistas, dirão, do espírito que engendrou a Academia de Platão em 387 anos a.C. ou a Academia da Arcádia em 1690. Mas em contraponto a estes entendimentos, há de se afirmar que academias continuam a existir em nossos dias, plenas e produtivas, com significativos serviços prestados à literatura, às ciências e às artes, justificando sua existência. Da Academia Francesa, fundada em 1635 pelo Cardeal Richelieu – durante o reinado de Luís XIII -, à Academia Brasileira de Letras (ABL), fundada em 1897 por Machado de Assis e inspirada no exemplo francês, ambas visando cultivar a língua e a literatura dos seus respectivos países. Aqui um parêntese para relembrar que a ABL, seguindo o padrão francês, não aceitou mulheres em seus quadros durante 80 anos, regra só́ quebrada em 1977, com o ingresso da escritora Rachel de Queiroz. Mas felizmente, embora continue a ser um desafio social que violenta a todos nós, esse preconceito vil e machista de desigualdade de direitos começa a fraquejar, açoitado pelo vento da racionalidade e do bom senso. Ainda em referência à atualidade e vigor das academias de letras, observe-se que elas existem não só ao nível nacional, mas também em vários estados e cidades do Brasil, basicamente com o mesmo propósito. 

 E não foi diferente com a Academia Teixeirense de Letras e Artes (ATLA), fundada em 22 de junho de 2024, graças à percepção coletiva de mundo e compromisso social do obstinado jurista (e ex-juiz), escritor, poeta, músico e Tenente-coronel da Polícia Militar reformado Ambrósio Agrícola Nunes.  

 E o que pensar e esperar da ATLA?   

 O próprio estatuto da ATLA, consoante o art. 3⁠º do capítulo I, registra que o seu objetivo, entre outros, é (i) “preservar a memória dos que contribuíram ou vierem a contribuir para o desenvolvimento das Letras e das Artes de Teixeira; e (ii) incentivar a produção intelectual e artística dos teixeirenses”.  

 Minhas expectativas são de que ela caminhe sob a égide da preservação e promoção da diversidade artística e literária de Teixeira, com o reconhecimento e valorização da identidade cultural local. E assim, possa resgatar um tempo longínquo em que a arte e a cultura caminhavam desenvoltas pelo chão da cidade, seja através da poesia popular, do cordel ou da cantoria de viola. Toda essa efervescência feneceu no rastro de pólvora da Revolução de 30. Em época mais contemporânea, até final dos anos 60, restou a Orquestra Jazz Borborema de Teixeira, do maestro Zé Mosquito – o único remanescente do boom artístico-cultural de outrora -, onde ressoou o saxofone do nosso mentor acadêmico, Ambrósio Agrícola Nunes.   

 Não esqueçamos, portanto, que Teixeira é celeiro de muitas vertentes artísticas que aqui floresceram desde meados do século XIX, no rastro do poeta Agostinho Nunes da Costa e seus dois filhos, Ugolino do Sabugi e Nicandro Nunes. E no bojo da poeira artística levantada por esse insight criativo, sucederam-se poesia popular; cordel; nascimento da cantoria de viola; luthiers – os honoráveis artesãos de instrumentos de corda; músicos; escritores; editores e impressores de cordel – a exemplo de Francisco das Chagas Batista, um dos pioneiros neste ofício e patrono da cadeira 12, ocupada pelo escritor, poeta e artista visual Alberto Lacet.  

 Aliás, para entender as raízes históricas dessa rica trama, convém ficar atento para o lançamento de uma trilogia de ensaios – um deles “Cordel x Jornal Impresso”, acerca de Francisco das Chagas Batista -, que Alberto Lacet está prestes a lançar, pioneiramente contextualizados histórica e sociologicamente. Conheço em primeira mão o valor desse trabalho, porque Alberto Lacet me confiou a sua revisão.  

 Devo dizer que estou muito feliz que o ideal de Ambrósio Nunes tenha se tornado realidade. Um ideal que também foi sonhado pelo sonho de cada um de nós. O certo é que a ATLA vem suprir uma lacuna que fustigava nossa letargia enquanto filhos da terra que somos, em relação à promoção e preservação da memória das artes visuais, performáticas, literárias e poéticas. É claro que esta academia não tem nenhuma varinha mágica que possa resolver todos os problemas de natureza intelectual e estrutural relacionados a isto. É claro que esta academia não é a deusa da cura, a Panaceia, neta de Apolo, deus da medicina na mitologia grega, que alivia ou cura todos os males.  

 Mas nosso propósito é contribuir para que isto aconteça. E para isto, necessitamos do apoio não só do Poder Público, mas de toda a sociedade. A prefeitura tem apoiado os eventos anuais da Semana Cultural e se dispôs a somar conosco nessa nova empreitada. Vamos precisar de todo mundo. Como diz a canção que Beto Guedes canta, “O Sal da Terra”, “Um mais um é sempre mais que dois”. 

 Por fim, convém falar da minha alegria e honra, quando fiquei muito à vontade em escolher a poeta Elizete Cassiano como minha patrona na Cadeira 15, não só pelo conjunto da obra, mas pela grandeza de caráter e pela importância que teve esta mulher para a sociedade local e para a história da cidade. Convivi de perto com ela e sua família e sou testemunha dos seus feitos e dos seus passos. Que sua memória permaneça viva.  

E em complemento à minha fala, peço licença a todos vocês para recitar uns versos que compus para este cerimonial (publicados acima).  

 Martim Assueros, 14/03/2025

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